Síria: às favas com o "soft power"

As reações dos grupos mais belicosos do Establishment anglo-americano ao agravamento da crise sistêmica e à visível deterioração da autoridade do poderio da aliança transatlântica nos assuntos mundiais estão colocando o mundo à beira de um potencial cataclisma, como se percebe com a perigosamente volátil situação do Oriente Médio.

Na Síria, os acontecimentos das últimas semanas sugerem que aqueles grupos, que, em conluio com seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e as petromonarquias do Golfo Pérsico, têm fomentado a insurgência contra o regime de Bashar al-Assad, deixaram de lado qualquer veleidade de preservação de aparências e estão investindo fortemente em insuflar o que já se configura como uma sangrenta guerra civil. O desfecho poderá ser uma catastrófica fragmentação do país, de consequências imprevisíveis para as suas diversas minorias étnico-religiosas e, não menos, para o já perigosamente instável cenário regional.

Além da determinada oposição da Rússia e da China, no âmbito do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS), rechaçando qualquer tentativa de aprovação de uma resolução que possa abrir caminho para uma intervenção militar aberta contra o regime de Assad, o que tem impedido uma operação militar ao estilo da montada contra a Líbia, mesmo como uma iniciativa isolada dos EUA, como têm sugerido muitos dos “falcões” do país, é a oposição do próprio Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Não obstante, a grande complexidade e multiplicidade dos interesses representados no interior do Establishment oligárquico transatlântico não permite que se tenha qualquer segurança quanto ao risco de uma eventual escalada militar, seja contra a Síria ou, mesmo, o Irã, em última análise, o alvo principal dos belicistas oligárquicos.

Um exemplo dessa imprevisibilidade se mostrou na guinada do presidente do Conselho de Relações Exteriores (CFR), Richard Haass, que deixou de lado a posição moderada demonstrada até agora, quanto a uma intervenção externa na Síria. Em uma entrevista à BBC, em 19 de julho, ele afirmou que pensar em uma solução diplomática para o conflito, nas atuais condições, é um “fracasso antecipado”.

Aí se mostra com clareza a demagogia implícita no discurso de favorecimento do chamado “soft power” (poder suave), em detrimento do “hard power” (poder duro), inclusive, na cúpula do governo de Barack Obama, demonstrando, uma vez mais, a inexistência de diferenças significativas entre governos republicanos e democratas, quanto à aplicação da força militar para a consecução dos seus objetivos.

A interferência externa no conflito sírio ficou igualmente implícita nos violentos atentados contra os próprios centros do poder em Damasco, que resultaram nas mortes de alguns dos principais assessores de Assad, inclusive o ministro da Defesa. Embora a origem dos sofisticados ataques ainda não tenha sido esclarecida, é quase impensável que eles possam ter sido perpetrados sem o apoio direto de agências de inteligência estrangeiras.

Em paralelo com a investida contra Assad, manifesta-se uma escalada de provocações contra o seu aliado Irã, no âmbito da entrada em vigor das sanções da União Europeia (UE) contra as importações de petróleo e gás iranianos e das delicadas negociações entre Teerã e o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do CS e a Alemanha), sobre o controvertido programa de enriquecimento de urânio do país. De um lado, a cúpula militar estadunidense se mostra contrária a uma nova aventura militar, mas já tem dois grupos de batalha da US Navy operando no Golfo Pérsico e um terceiro a caminho, com quatro meses de antecedência sobre a rotação normal destas forças. Do outro, o governo do premier israelense Benjamin Netanyahu, às voltas com uma série de protestos sociais internos, arde de vontade de criar uma situação que justifique o seu ansiado ataque militar contra instalações nucleares iranianas, apesar da oposição ostensiva dos seus próprios chefes militares e de inteligência, que, como seus pares estadunidenses, têm demonstrado uma inusitada restrição ao belicismo dos seus líderes políticos.

Nessa atmosfera carregada, eventos inesperados adquirem um forte potencial incendiário, podendo funcionar como uma fagulha para deflagrar uma escalada que resulte num conflito armado. Um exemplo foi o metralhamento de um barco pesqueiro indiano por um navio de abastecimento da Marinha dos EUA, no Golfo Pérsico, ao largo de Dubai, que provocou a morte de um pescador e ferimentos em dois outros – uma manifestação do elevado nível de tensões dos militares estadunidenses na área. Outro é o ainda não esclarecido atentado suicida contra um ônibus de turistas israelenses na Bulgária, que vitimou sete pessoas, inclusive o motorista búlgaro e o terrorista – imediatamente atribuído por Netanyahu ao Irã, diretamente ou por intermédio do seu aliado libanês, o grupo xiita Hisbolá. Embora ambos tenham negado enfaticamente a autoria do ataque e o governo búlgaro tenha afirmado que é prematuro tirar qualquer conclusão, o acontecimento deixa transparecer a possibilidade de que operações clandestinas do tipo conhecido no jargão de inteligência como “bandeira falsa” (false flag, em inglês), quando uma ação é atribuída ao oponente ao qual se quer golpear, sejam montadas para justificar uma escalada militar.

Nesse contexto explosivo, paira sobre a Síria a séria ameaça de uma violenta perseguição às minorias étnico-religiosas que compoem a população do país. Com todos os seus problemas, o regime da família Assad tem sido capaz de manter um Estado nacional constituído por um amálgama de uma maioria de muçulmanos sunitas (74% da população, entre árabes, turcos e curdos), minorias muçulmanas de alauítas (que controla o regime), xiitas e drusos (16% da população) e 10% de cristãos. Por todas as razões, essas minorias, principalmente a cristã, temem que uma eventual queda do regime de Assad resulte na ascensão de um governo de maioria sunita, agrupado ao redor da Irmandade Muçulmana, que intensifique as perseguições sectárias que já se manifestam em meio à insurgência contra o governo.

Em entrevista à agência noticiosa católica Zenit, em 23 de julho, o bispo caldeu de Aleppo, Antoine Audo, resumiu tais temores: “O que podemos fazer para proteger as pessoas? Não temos nenhuma possibilidade de fazer isso. Não só os cristãos estão nesta situação muito perigosa, mas também alguns muçulmanos, aqueles que têm sido vistos como simpatizantes do governo.”

Tal cenário ameaça somar-se ao ocorrido no Iraque, onde a minoria cristã foi praticamente expulsa do país, configurando um irônico quadro em que as potências do Ocidente cristão seriam responsáveis pela desestabilização de uma das comunidades cristãs mais antigas do planeta, sacrificada, juntamente com outras minorias sírias, no altar de uma agenda hegemônica para a qual os pretextos éticos e humanitários não passam de fachada para pretensões injustificáveis.

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