Síria: anglo-americanos se movem no abismo de catástrofe bélica

Uma leitura atenta da crise política, estratégica e humanitária na Síria permite vislumbrar um paralelismo entre a intensificação da crise econômico-financeira global e a escalada dos clamores por uma intervenção militar externa no conflito naquele país, onde forças especiais, serviços de inteligência e mercenários estrangeiros já operam ostensivamente, juntamente com terroristas da Al-Qaida que participaram da intervenção na Líbia.

De fato, para os círculos hegemônicos do Establishment que apostam na opção “fogo no circo” para a crise global, uma intervenção militar na Síria representaria o atalho mais rápido para um novo conflito de grandes proporções e de impacto imprevisível na economia mundial. Desfecho, este, que lhes proporcionaria pretextos perfeitos para a manutenção dos insustentáveis níveis de gastos militares dos EUA e a neutralização dos esforços em curso para uma imprescindível reforma do sistema financeiro internacional.

O know-how desse tipo de intervenções provém, tanto da experiência na Guerra do Afeganistão de 1979-1988, como dos conflitos na América Central, nas décadas de 1980-1990, quando o Establishment anglo-americano financiou e organizou operações encobertas em associação com redes internacionais de tráfico de armas e drogas. No primeiro caso, um dos desfechos do pós-guerra foi a formação de uma rede internacional de radicais islâmicos com grande experiência de combates, que se converteria na famigerada Al-Qaida. No segundo, além de expor ao público estadunidense e ao mundo a existência de uma estrutura de “governo paralelo” nos EUA, um dos “efeitos colaterais” foi a inundação de drogas mais baratas nas maiores cidades estadunidenses, inclusive, com a introdução do crack, que se espalhou daí para o resto do mundo e se converteu numa verdadeira pandemia.

Desafortunadamente, um obstáculo para a percepção desse quadro é o fato de que a cobertura midiática dos acontecimentos na Síria, geralmente, direcionada e parcial, favorece a criação de um cenário linear e simplista: o de um ditador sangrento empenhado em massacrar o seu próprio povo, acossado por valorosos rebeldes sequiosos de democracia, mas protegido por um grupelho de países fora de sintonia com a “comunidade internacional”, como a Rússia e a China, que impedem uma ação decidida daquela contra o regime de Bashar al-Assad, nos moldes da intervenção na Líbia de Muamar Kadafi. Neste quadro, países que também discordam de uma intervenção militar contra Damasco são rotulados como tíbios e titubeantes, caso do Brasil, alvo de críticas externas e internas, alegadamente, por não “estar à altura” das responsabilidades de uma potência emergente, como têm afirmado diplomatas dos EUA, editoriais de grandes jornais brasileiros e comentaristas nativos alinhados com os desígnios das potências hegemônicas.

No entanto, um exame que vá além do superficial proporciona uma autêntica aula sobre o funcionamento do mundo real, em termos das forças políticas e dos interesses estratégicos em ação naquela convulsionada parte do mundo.

No quesito parcialidade, com escassas exceções, a mídia internacional sequer se preocupa em ocultá-la, a começar pelos clássicos relatos sobre o número de vítimas do conflito, geralmente, na forma, “mais de 10 mil pessoas já morreram desde o início da insurreição contra o regime de Assad” – sem qualquer cuidado em afirmar que uma considerável fração desse número se refere a militares e policiais mortos nos confrontos com os insurgentes, sem falar nas numerosas vítimas civis destes últimos.

O massacre de mais de 100 pessoas, inclusive mulheres e crianças, na cidade de Houla, em 27 de maio, é um caso emblemático. Atribuído de forma imediata, sem verificação e sem contestação, às forças governamentais e às milícias pró-Assad, o horrendo episódio ganhou bombásticas manchetes de primeira página e chamadas nos telejornais, servindo para alimentar ainda mais os clamores por uma intervenção militar externa. Porém, seguindo nas pegadas do jornalista independente russo Marat Musin, o primeiro a denunciar os fatos reais, o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), o mais importante do país, se viu obrigado a admitir que as atrocidades foram cometidas pelas milícias do autoproclamado Exército Sírio Livre (FSA, na sigla em inglês). Na edição de 8 de junho, o jornal informou:

Os mortos eram quase exclusivamente de famílias pertencentes às minorias alawitas e xiitas de Houla. Mais de 90% da população de Houla são sunitas. Dúzias de membros de uma família que haviam se convertido, de sunitas para xiitas, foram chacinados… Imediatamente após o massacre, os perpetrdores, supostamente, filmaram as suas vítimas e as apresentaram como vítimas sunitas, em vídeos postados na Internet.

Desafortunadamente, reportagens como a do FAZ são raridades absolutas na cobertura da tragédia síria.

Em uma entrevista coletiva, em Moscou, em 9 de junho, o chanceler russo Sergei Lavrov fez uma exposição sem rodeios sobre o cenário sírio, destacando que o plano de paz proposto pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, tem sido obstruído pelas forças que apoiam uma intervenção externa no país. Segundo ele, o plano não avança, porque certas partes “não gostam” da perspectiva de uma estabilização da situação síria: “Elas querem que a comunidade internacional se encha de indignação e inicie uma intervenção em grande escala na Síria (Russia Today, 6/06/2012).”

Lavrov criticou “as reações de alguns atores estrangeiros, que apoiam grupos armados da oposição e, ao mesmo tempo, exigem que a comunidade internacional dê passos decisivos para mudar o regime na Síria”.

O chanceler afirmou que o governo russo tem evidências do fornecimento de armas à oposição síria: “Nossos colegas sauditas, nossos colegas cataris… ontem mesmo houve um fórum de empresários que querem apoiar a oposição síria. Todas essas informações estão disponíveis livremente.”

Lavrov ressaltou que a Rússia “jamais permitirá que se sancione o uso de força no Conselho de Segurança da ONU”, pois isto teria “consequências severas para toda a região do Oriente Médio”. Em suas palavras, “a maneira como a crise síria será resolvida terá um papel importante no mundo de amanhã: se o mundo será baseado na Carta das Nações Unidas, ou um lugar onde a força faz o direito”.

Nos EUA, em uma evidência das acirradas divisões internas do Establishment diante da crise síria, duas surpreendentes manifestações contrárias a uma intervenção militar vieram dos veteranos estrategistas, Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger.

Em uma participação no popular programa de entrevistas Morning Joe, da rede MSNBC, em 30 de maio, juntamente com o presidente do Conselho de Relações Exteriores (CFR), Richard Haass, e o colunista do Washington Post David Ignatius, Brzezinski foi categórico ao rejeitar qualquer ação externa contra o regime de Assad. Para ele, “se não formos inteligentes, poderemos criar um nexo entre um problema interno difícil, que ainda não assumiu proporções colossais, e um problema regional e um problema global, que envolve as nossas relações com outras grandes potências, particularmente a Rússia, mas também as negociações com o Irã sobre o problema nuclear (MSNBC, 30/05/2012)”.

“Isso não vai ser resolvido convocando para consultas os embaixadores em Moscou ou dizendo aos russos que eles estão atuando como bandidos. O fato é que, a menos que haja uma cooperação internacional que resulte em alguma proposta com a qual o governo de Assad possa conviver, e que envolva algum tipo de esforço supervisionado para se estabelecer algum consenso doméstico, este conflito continuará. E não exageremos este conflito”, disparou o notoriamente russófobo ex-conselheiro de Segurança Nacional do governo Carter.

Em dado momento, Brzezinski chegou a se irritar diante de uma provocação de Ignatius (um notório porta-voz da facção mais belicista do Establishment):

Não em coloque numa posição de defensor da brutalidade e do esfaqueamento de pessoas. Francamente, a questão não é esta. Nós sabemos que essas coisas acontecem, e elas são horríveis. Elas também aconteceram, em escala muito maior, em muitos outros lugares em que não intervimos. Meu ponto aqui é que estamos lidando com uma região em que todos esses assuntos são interconectados… E nós teremos um grande problema internacional em nossas mãos, com consequências políticas e econômicas muito sérias. E o que ouço é um monte de emocionalismos e palavras de ordem. Mas ainda não ouvi os planos secretos que a Casa Branca está concebendo, na verdade, sobre como farão se não tivermos cooperação internacional.

Por sua vez, Kissinger escreveu um artigo no Washington Post de 2 de junho, com o sugestivo título “Intervenção na Síria arrisca perturbar ordem global”, o qual conclui com a advertência:

Não podemos dar-nos ao luxo de ser levados, de expediente em expediente, a um envolvimento militar indefinido, em um conflito que está assumindo um caráter crescentemente sectário. Ao reagir a uma tragédia humana, devemos ser cautelosos, para não abrir caminho para outra. Na ausência de um conceito estratégico claramente articulado, uma ordem mundial que erode as fronteiras [sic] e mistura guerras internacionais e civis nunca pode tomar fôlego. É preciso um sentido de nuance, para dar uma perspectiva à proclamação de absolutos. Este é um assunto não partidário e assim deve ser tratado, no debate nacional em que estamos entrando.

Tanto Brzezinski como Kissinger são consumados praticantes do realismo político e estratégico e suas ponderações denotam uma visão clara dos desdobramentos potencialmente catastróficos de uma repetição da aventura na Líbia, que poderia resultar numa confrontação armada com a Rússia, uma provável explosão de toda a região do Oriente Médio e um rápido aprofundamento da crise econômico-financeira global.

O “modelo El Salvador”

Por outro lado, enquanto algumas facções do Establishment se empenham em evitar o envolvimento dos EUA em outro conflito no mundo islâmico, outras trabalham ativamente para instigar o processo, reeditando uma estratégia patenteada por Washington desde a década de 1980, na América Central, nas guerras civis que devastaram El Salvador e a Nicarágua: a promoção do terrorismo, com assassinatos em massa cometidos por esquadrões da morte paramilitares, financiados, equipados e treinados pela CIA e o Pentágono. Como observa o sempre atento economista canadense Michel Chossudovsky, editor do sítio Globalresearch.ca (8/06/2012), não é coincidência a presença de um mesmo personagem nos conflitos centroamericanos e sírio, o diplomata John Negroponte.

Negroponte, que foi embaixador em Honduras de 1981 a 1985, teve um papel-chave no apoio e supervisão dos mercenários “Contras” nicaraguenses, que lutavam contra o regime sandinista, em um conflito que provocou mais de 50 mil mortes. De seu posto em Tegucigalpa, desempenhou ações semelhantes no apoio aos esquadrões da morte salvadorenhos, na gurra civil de 1980-1992, que resultou em um número de vítimas estimado entre 60 mil e 80 mil. Tal envolvimento veio à luz na esteira das revelações do Escândalo Irã-Contras, que revelou também a promiscuidade das agências de inteligência estadunidenses com o narcotráfico internacional.

Em 2004-2005, Negroponte serviu em Bagdá, com o mandato específico de implementar no Iraque o “modelo salvadorenho”, para promover lutas sectárias entre os grupos étnicos que formam a população do país invadido, com esquadrões da morte e forças paramilitares baseadas na experiência centroamericana. Seu braço direito na tarefa era Robert Ford, que, em janeiro de 2011, foi nomeado embaixador em Damasco, menos de dois meses antes do início da insurgência armada contra o regime de Bashar al-Assad. Nos menos de dez meses que passou na Síria (foi chamado de volta em outubro), segundo Chossudovsky, Ford desempenhou um papel central na preparação da revolta armada, estabelecendo contatos com grupos da oposição e recrutando mercenários em países árabes vizinhos, para integrá-los com aqueles. Desde a sua partida, Ford continua a supervisionar a “Operação Síria” no Departamento de Estado.

Outro ator na tragédia é o chefe da CIA, general David Petraeus, que, como comandante geral das operações militares no Iraque, em 2004, trabalhou em estreita coordenação com Negroponte e Ford, na implementação de um “programa de contrainsurgência”, que era um disfarce para o apoio aos esquadrões da morte iraquianos. Atualmente, a CIA apoia ativamente os rebeldes sírios, com uma série de operações encobertas, além de promover infiltrações nas Forças Armadas e nos serviços de inteligência do país. Na empreitada, a agência atua em coordenação com as suas contrapartes turcas.

Nas palavras de Chossudovsky, tudo coincidência!

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