Sainete europeu de Trump escancara entranhas do “governo mundial”

Na linguagem teatral espanhola, um sainete era uma comédia curta com poucos personagens. Na recente turnê do presidente estadunidense Donald Trump pela Europa, o ator mais esfuziante do palco global interagiu com numerosos deles, mas as falas principais foram com poucos, com destaque para o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Jens Stoltenberg, a chanceler alemã Angela Merkel, a primeira-ministra britânica Theresa May e o presidente russo Vladimir Putin. E, a despeito dos elogios recebidos por críticos de todo o mundo, o desempenho de Trump foi massacrado por aqueles do seu próprio país particularmente vinculados às elites viciadas em tragédias (geralmente, em outros países) e pouco afeitas às comédias, embora a ópera bufa que estão perpetrando esteja escancarando diante das plateias mundiais as entranhas das estruturas do poder global que persistem em preservar a todo custo.

O roteiro que tais círculos hegemônicos se empenham em impor contempla a preservação da Federação Russa como o inimigo preferencial necessário para justificar o “Estado de segurança nacional” (também chamado “complexo industrial-militar-financeiro”), fonte da sua estratégia e destino anual de mais de 1,3 trilhão de dólares do orçamento federal dos EUA. Trump, simplesmente, optou por ignorar o libreto preparado e atuou segundo o seu próprio. Como resultado, intencional ou não, descerrou as cortinas que pretendiam ocultar a disfuncionalidade e a caducidade de uma estrutura de poder ferrenhamente empenhada na sua autopreservação.

É fato que Trump não chegou a repetir as críticas sobre a inutilidade da OTAN, feitas durante a sua campanha eleitoral, mas deixou o secretário-geral Stoltenberg numa saia justa, ao questionar a escassa disposição dos membros europeus em cumprir a meta de gastar em defesa os 2% do PIB estabelecidos na cúpula da aliança no País de Gales, em 2014 (para 2024, atualmente cumprida por apenas cinco dos 29 membros). Em um duro diálogo que viralizou na internet, durante a cúpula da OTAN em Bruxelas, Trump mencionou o exemplo da Alemanha, que importa gás natural da Rússia, ao mesmo tempo em que necessita dos EUA para, supostamente, protegê-la da própria Rússia. Em Berlim, onde se reuniu com Merkel, ele não voltou ao assunto, mas o seu desempenho em Bruxelas foi suficiente para desatar a indignação germânica.

“Um presidente estadunidense colocando um ponto de interrogação sobre o futuro da OTAN? É ultrajante.” – sentenciou a revista Der Spiegel (13/07/2018).

É compreensível que a revista alemã manifeste indignação com questionamentos ao futuro da Aliança Atlântica, tendo sido fundada em 1947, ainda antes da OTAN (dois anos depois), com recursos do eixo anglo-americano, para promover os “valores” do bloco ocidental encabeçado pelos EUA e sua relação privilegiada com o Reino Unido. Por conseguinte, assim como outros pesos pesados da imprensa europeia, tem uma relação umbilical com a organização criada para defender a Europa Ocidental contra a ameaça de uma invasão militar soviética, depois reforçada pelo Pacto de Varsóvia, criado em 1955.

Entretanto, não se deve perder de vista o fato de que, desde a implosão da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, no início da década de 1990, a OTAN tem atuado como uma entidade em busca da sua própria sobrevivência, depois de perder a sua razão de ser essencial. Não por outro motivo, passou a ser empregada pela estrutura hegemônica centrada no eixo anglo-americano como uma espécie de “gendarmeria global” apta a ser mobilizada por pretextos como o ataque à Iugoslávia, em 1999, e a participação na “guerra ao terror”, declarada em 2001 pelo governo de George W. Bush. Sem deixar de lado uma repaginação da sua “vocação” original, com o cerco à Federação Russa e a incorporação de vários países ex-integrantes do Pacto de Varsóvia, objetivo reforçado pela nova edição da “Estratégia de Segurança Nacional” estadunidense, que rotula a Rússia e a China como “potências revisionistas” e “competidores hostis”, que buscam “formatar um mundo antitético aos valores e interesses dos EUA” (Resenha Estratégica, 24/01/2018).

Não por acaso, as duas “potências revisionistas” estão empenhadas em configurar uma nova fase cooperativa e não hegemônica nas relações internacionais, tendo como núcleo a vasta iniciativa de integração físico-econômica do eixo eurasiático, com a correspondente infraestrutura financeira.

Na prática, a OTAN converteu-se numa enorme e dispendiosa estrutura burocrática, cujo valor militar tornou-se ainda mais questionável após a revelação da nova geração russa de armamentos avançados, feita por Putin em seu histórico discurso de 1º. de março último, a qual evidencia a inviabilidade de qualquer tipo de cerco militar à Federação Russa (Resenha Estratégica, 07/03/2018).

Uma ironia ainda maior é o fato de os decantados valores civilizatórios do Ocidente cristão, cuja defesa a OTAN sempre alinhou como parte da sua missão, encontrarem, hoje, um porto mais seguro na própria Rússia do que na Europa Ocidental e na América do Norte anglófona, a primeira, cada vez mais distante das suas raízes cristãs, e ambas infestadas por uma pandemia de políticas identitárias divisivas e incapazes de proporcionar às sociedades um imprescindível norte coletivo.

Todavia, foi a reunião de Helsinki que elevou o coro de apupos, críticas e ataques a Trump a níveis inusitados, não só na história dos EUA mas de qualquer nação ocidental. De fato, nunca se havia visto o presidente de uma potência mundial ser rotulado publicamente como “traidor” por um arco tão vasto de lideranças políticas, mídia e formadores de opinião em geral, pelo fato de reunir-se com o líder de uma potência rival com capacidade para incinerar os EUA e grande parte do mundo, exatamente, para reduzir a possibilidade de a rivalidade atinja tal desfecho, como antecessores seus já haviam feito durante a Guerra Fria.

O senador John McCain, republicano como Trump, deixou de lado o tratamento do seu câncer terminal para qualificar a entrevista coletiva dos dois líderes como “um dos desempenhos mais vergonhosos de um presidente estadunidense de que se tem notícia (CNN, 16/07/2018)”.

Para o ex-diretor da CIA, John Brennan, a participação de Trump em Helsinki foi “nada menos que uma traição (CNN, 16/07/2018)”.

No Twitter, o deputado federal democrata Steve Cohen disparou um comentário em que praticamente sugere um golpe militar contra Trump: “Onde estão os nossos camaradas militares? O comandante-em-chefe está nas mãos do inimigo (Sputniknews, 17/07/2018).”

Menos histérico, mas igualmente indignado, o presidente do todo poderoso Conselho de Relações Exteriores (CFR), Richard Haass, sintetizou a visão de uma importante facção do Establishment: “Helsinki não deve ser vista em um vácuo. Foi um assustador e, em diversas maneiras, questionável, final de uma semana que fez muito para enfraquecer as bases da política externa dos EUA – especialmente, quanto à OTAN e à relação especial EUA-Reino Unido –, que tem contribuído tanto para a segurança, prosperidade e influência dos EUA durante a maior parte de um século. E vejam, a viagem não proporcionou nada que pudesse ocupar este lugar (CFR, 16/07/2018).”

O que Haass não disse é que a OTAN e a relação especial anglo-americana estão no centro da estratégia hegemônica das estruturas oligárquicas implementadas após a II Guerra Mundial, com o intuito de estabelecer um virtual “governo mundial” (ou “Estado Profundo”, se se preferir uma denominação recente). Estruturas que levaram o mundo à atual situação de desigualdades, instabilidade política e questionamentos crescentes, e as duas superpotências a um nível de risco de confronto mais perigoso do que em qualquer momento da Guerra Fria.

É difícil se avaliar com precisão a agenda de Trump. Se ela contraria vários elementos da pauta hegemônica do Establishment, como se percebe pela histeria deflagrada pelo seu sainete europeu, ela a contempla em outros, a exemplo da sua obstinação em isolar o Irã. Não obstante, com o simples fato de estar contribuindo para expor as entranhas desse pretenso “governo mundial”, ele está prestando um serviço inestimável a todo o mundo.

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