Rússia: começo de uma nova era na política global

As eleições presidenciais que reconduziram Vladimir Putin à presidência da Federação Russa significam uma importante mudança de inflexão estratégica no cenário global. Com uma participação de quase dois terços do eleitorado, Putin obteve uma sólida maioria de 64% dos votos, resultado que indica que, a despeito de certas diferenças manifestadas pelas forças de oposição (concentradas, especialmente, em Moscou), a maioria da população russa apoia o novo presidente e lhe dará o suporte necessário para o início da próxima fase de modernização econômica da Rússia. No dia seguinte às eleições, o número de manifestantes que se dispôs a sair às ruas caiu de 100 mil para 20 mil pessoas. E importantes figuras políticas, como o ex-ministro da Fazenda Alexei Kudrin, já assinalaram a intenção de colaborar com o processo de reformas que está na pauta de Putin.

A questão é: quais são as prioridades de política econômica doméstica e de política externa de Putin? Em uma entrevista ao sítio alemão Spiegel Online (5/03/2012), o jornalista Fyodor Lukyanov, especialista em relações internacionais e colunista da agência Novosti, prevê que, com Putin, as relações com os EUA se tornarão mais distantes, embora ele tentará manter boas relações com a União Europeia (UE), a parceira comercial mais importante da Rússia, ao mesmo tempo em que deverá estender as relações com a Ásia.

A mesma perspectiva foi manifestada pelo próprio Putin, em uma entrevista, dois dias antes das eleições, em 2 de março, a um grupo de editores de importantes jornais estrangeiros – o britânico The Times, o francês Le Monde, o italiano La Republicca, o alemão Handelsblatt, o japonês Asahi Shimbun e o canadense The Globe and Mail.

Na oportunidade, Putin qualificou as manifestações contra ele como uma “experiência útil”, um sinal de uma “democracia em funcionamento”, afirmando que o Executivo dará a devida atenção o estado de espírito da população.

Sobre a economia doméstica, Putin destacou que, em seus dois mandatos anteriores, entre 2000 e 2008, o governo logrou reduzir à metade a taxa de pobreza no país, enquanto a renda real da população aumentou por um fator de 2,4. A despeito da crise financeira, a economia cresceu a uma taxa anual média de 4,3% e ocupa a décima posição entre as maiores economias do mundo, atrás dos EUA, China, Japão, Alemanha, França, Brasil, Reino Unido, Itália e Índia.

Ademais, a dívida pública russa representa apenas 10% do PIB (contra uma média de 95% na zona do euro) e o país tem reservas de 600 bilhões de dólares, a terceira maior do mundo, atrás da China e do Japão. Putin deixou claro que seu objetivo é levar a Rússia à quinta posição entre as economias mundiais e que a chave para isto é uma “estrutura econômica ampla e diversificada”, reduzindo a dependência das exportações de matérias-primas e commodities.

Quanto à crise da zona do euro, Putin enfatizou que alguns líderes europeus ainda não compreenderam devidamente a necessidade de “eliminar a predominância dos mercados financeiros sobre a economia real”. Como disse, “o valor de mercado dos derivativos está aumentando e novas bolhas estão se formando. Eu acho que os perigos para economia mundial e a Europa ainda não foram eliminados. Enquanto estiverem circulando esses derivativos e outros instrumentos financeiros, teremos a impressão de que eles desempenham um papel mais importante do que a economia e a produção reais”.

Ele acrescentou que, embora o Banco Central Europeu (BCE) tenha implementado a política monetária correta, não deveria ser esquecido o fato de que a Rússia tem 40% de suas reservas denominadas em euros.

O programa econômico de Putin contempla a modernização de vastos setores da indústria, incluindo a farmacêutica, química, aeroespacial, comunicações e nanotecnologia. Um aspecto crucial será a modernização da rede ferroviária, com investimentos da ordem de 85 bilhões de dólares, e da rede de distribuição de eletricidade. Neste processo, ressaltou, países europeus, como a Alemanha, França e Itália, deverão desempenhar um papel significativo.

No tocante à política externa, Putin foi enfático sobre o conflito na Síria, que qualificou como “um conflito civil armado”, no qual a Rússia não apoiaria qualquer lado, nem o Estado nem a oposição armada. “Nós queremos paz na região. Não queremos repetir a Líbia”, afirmou, instando os dois lados a começarem a conversar entre si.

No âmbito doméstico, o desafio real para Putin é a questão de como evitar a polarização social no país, como resultado da crescente lacuna entre uma classe média emergente, predominantemente urbana, e a população rural. Como a sociedade responderá ao distanciamento cada vez maior entre as gerações e qual será a visão que ele dará à sociedade, de modo a responder de forma efetiva às expectativas da juventude educada, que expressa um desejo legítimo de participar mais ativamente na sociedade civil.

Um estudo do Levada Center de Moscou, citado pela revista alemã Osteuropa, mostrou que 62% dos manifestantes que protestam contra Putin têm educação universitária, 46,1% são profissionais especializados e 16% ocupam funções de chefia. Outro estudo, do Centro de Análises Estratégicas, destacou a expansão da classe média, que, desde 1998, passou de 12% para um terço da população adulta.

Assim sendo, o dilema do novo presidente será encontrar meios para integrar essa intelligentsia urbana e, especialmente, os jovens, no renascimento econômico da Rússia.

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