Quem usou armas químicas em Damasco?

No final de agosto de 2013, o mundo esteve a poucos dias de presenciar mais uma demonstração do poderio bélico dos EUA, na forma de um ataque de mísseis contra instalações militares sírias. O pretexto seria o de uma “punição” ao governo do presidente Bashar al-Assad, acusado de ter desfechado um ataque com armas químicas em um subúrbio da capital Damasco, que deixou centenas de mortos e feridos, com o qual teria sido cruzada a “linha vermelha” estipulada pelo presidente Barack Obama para justificar uma ação militar no país. O ataque foi cancelado à última hora, devido à oposição do Congresso e da liderança do Pentágono, que abriu caminho para a proposta de entrega do arsenal químico sírio, negociada pela Federação Russa. Mas, ainda hoje, persistem as acusações contra Damasco, a despeito de as evidências apontarem para outros responsáveis pelo ataque.

Na ocasião, observamos:

Sobre o pretexto para os ataques, de que as forças de Assad teriam disparado armas químicas contra a população de um subúrbio da capital, ele não se sustenta em quaisquer evidências confiáveis – ao contrário, todas apontam para os rebeldes como os autores dos disparos, que mataram centenas de pessoas com sintomas de asfixia e outros que sugerem o emprego de tais armas. A se confirmar, não teria sido a primeira vez que os insurgentes utilizaram armamentos químicos no conflito. Em maio, a ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional, Carla del Ponte, integrante de uma missão da ONU enviada à Síria para investigar uma das múltiplas denúncias de uso de armas químicas pelas forças de Damasco, afirmou que as evidências encontradas por sua equipe apontavam para o uso de gás sarin, mas pelos insurgentes – o que, previsivelmente, resultou na pronta rejeição de suas conclusões nas capitais ocidentais e nas próprias Nações Unidas. Da mesma forma, autoridades da Turquia e do Iraque prenderam em seus territórios elementos rebeldes que estavam na posse de sarin, pronto para ser utilizado.

Tais questionamentos têm sido feitos, desde as primeiras horas do anúncio dos ataques, entre outros, por numerosos estrategistas, especialistas em guerra química, pela Rússia e, posteriormente, pelo Vaticano. Em uma entrevista à Rádio Vaticano, em 27 de agosto, o observador permanente do Vaticano nas Nações Unidas em Genebra, monsenhor Silvano Tomasi, sintetizou as dúvidas de muitos: “Não deveria haver um julgamento até que haja provas suficientes. Que interesse imediato o governo de Damasco teria em causar tal tragédia? Quem se beneficia realmente desse crime desumano? (Reuters, 27/08/2013.)”

Foram necessários sete meses e o trabalho do incansável jornalista investigativo Seymour Hersh para que fossem confirmadas as suspeitas levantadas na época sobre a autoria do ataque: como muitos suspeitavam, um grupo de rebeldes sírios – com o apoio logístico do serviço de inteligência turco (e a vista grossa de setores dos governos estadunidense e britânico). Hersh, como se recorda, é um dos mais renomados e premiados jornalistas estadunidenses, tendo se notabilizado por grandes reportagens-denúncia, como as que revelaram o massacre de civis vietnamitas por militares estadunidenses em My Lai, a tortura de prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib e outras.

Como o seu trabalho investigativo costuma contrariar os discursos oficiais e a mídia estadunidense se mostra, cada vez mais, como porta-voz da agenda do Establishment (do qual faz parte), Hersh tem sido obrigado a recorrer a publicações alternativas para publicar o seu trabalho. Desta feita, a primazia coube à London Review of Books, que, na edição datada de 17 de abril, disponibilizada na internet em 6 de abril, publicou o seu contundente artigo intitulado “A linha vermelha e a linha dos ratos” (a expressão “linha dos ratos” foi empregada pela primeira vez para batizar redes de apoio para a fuga de nazifascistas da Europa, após a II Guerra Mundial).

Nele, baseado em fontes de inteligência e militares estadunidenses, Hersh faz duas afirmativas explosivas: 1) o ataque de 21 de agosto de 2013 foi perpetrado pelo grupo islamista Frente al-Nusra, que utilizou gás sarin fornecido pelo serviço de inteligência turco MIT; 2) a “linha dos ratos” foi articulada pela Agência Central de Inteligência (CIA), em cooperação com o MI-6 britânico e o apoio financeiro da Turquia, Arábia Saudita e Catar, para transferir armamentos e equipamentos dos arsenais do falecido líder líbio Muamar Kadafi aos insurgentes sírios, através da fronteira turco-síria.

Segundo Hersh, a inteligência russa obteve amostras de materiais contaminados com o gás usado no ataque e as encaminhou a um laboratório militar britânico, o qual concluiu que a amostra não coincidia com os agentes tóxicos existentes no arsenal sírio. O relatório do laboratório foi prontamente encaminhado ao Estado-Maior Conjunto estadunidense, cujos chefes pressionaram o presidente Obama para cancelar os planos de ataque. Em junho, os chefes militares estadunidenses já haviam recebido um relatório da Agência de Inteligência de Defesa (DIA), segundo o qual a Frente al-Nusra dispunha de um laboratório para a produção de sarin, a partir de produtos químicos fornecidos pelos serviços de inteligência turco e saudita.

Hersh também afirma que, segundo informações de uma fonte ligada às Nações Unidas, um ataque com sarin ocorrido em março de 2013 teria sido, igualmente, de autoria dos islamistas.

A intenção do ataque de agosto, uma clássica operação “bandeira falsa” (false flag, no jargão de inteligência), era evidente: responsabilizar o governo de Assad, para dar a falsa impressão de que ele havia cruzado a “linha vermelha” estabelecida por Obama.

Hersh diz que a ativa participação do governo turco no apoio aos insurgentes sírios se deve ao empenho do premier Recep Tayyip Erdogan em remover Assad do poder, com o intuito de se tornar no fiel da balança do poder em Damasco, em um novo regime.

As revelações de Hersh reforçam as denúncias feitas, já em setembro último, pelo grupo Profissionais de Inteligência Veteranos pela Sanidade (VIPS, na sigla em inglês), que reúne ex-oficiais de inteligência e segurança dos EUA e do Reino Unido, mobilizados contra a agenda militarista encabeçada pelos dois países. Na oportunidade, o grupo advertiu Obama sobre a tramoia, em um memorando divulgado em vários sítios da internet:

(…) Em 13-14 de agosto, forças de oposição patrocidadas pelo Ocidente e baseadas na Turquia iniciaram preparações para uma grande ofensiva militar irregular. Reuniões iniciais entre comandantes militares seniores da oposição e oficiais de inteligência cataris, turcos e estadunidenses ocorreram em Antakya, na província [turca] de Hatay. Altos comandantes da oposição, que vieram de Istambul, informaram previamente aos comandantes regionais sobre uma iminente escalada nos combates, devido a um acontecimento capaz de mudar o curso da guerra, que, por sua vez, levaria a um bombardeio estadunidense da Síria. Nas reuniões de coordenação em Antakya… os sírios foram informados de que o bombardeio começaria em poucos dias. Os líderes da oposição receberam ordens para preparar rapidamente as suas forças, para explorar o bombardeio estadunidense, marchar rumo a Damasco e remover o governo de Bashar al-Assad. (…)

Tais relatos são reveladores dos métodos escusos e cínicos utilizados pelos representantes do poder anglo-americano e seus aliados de ocasião, para implementar a sua agenda hegemônica. Mas, por outro lado, também denotam a extensão das disputas intestinas que se travam naqueles altos círculos oligárquicos, já que nem todos parecem concordar com a estratégia “fogo no circo”, que pode resultar em um conflito de vastas proporções, em especial, levando em conta outras possíveis frentes de confrontos, como o Irã e a Ucrânia.



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