Putin: senhor dos acontecimentos?

Resenha de Jaques Baud, Putin – Herr des Geschehens? (Westend Verlag, Frankfurt/Main 2023); título original: Poutine: maître du jeu? ( Éditions Max Milo, 2022).

Em um livro recentemente publicado, o suíço Jacques Baud desconstrói sistematicamente as notícias falsas, desinformação e ideias pré-concebidas que têm sido difundidas pela grande mídia ocidental sobre o papel da Rússia na guerra da Ucrânia. Baud tem sólidas credenciais: coronel do Exército e ex-oficial da inteligência militar suíça, atuou com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Ucrânia e em operações da Organização das Nações Unidas (ONU) em vários países, além de ser economista e consultor para assuntos de segurança.

Um exemplo dessas visões equivocadas foi presenciado por esta autora em uma recente discussão com um ex-diplomata estadunidense na Alemanha, que, quando perguntado sobre como via a evolução dos acontecimentos na Ucrânia, respondeu: “Temos de enviar mais armas à Ucrânia, para que possa vencer esta guerra.” Questionado ainda sobre o risco de um conflito nuclear, ele respondeu que não o considerava “uma ameaça grave”. (!) Outro ponto da discussão foi o lançamento das bombas atômicas dos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Segundo ele, “uma bomba nuclear” também tinha sido concebida pelos EUA para ser lançada contra a Alemanha, que, no entanto, capitulou antes, em maio de 1945.

O exemplo ilustra de forma espantosa o sistemático bloqueio da realidade no conflito ucraniano, seguindo a linha da ilusão ocidental de que com mais armas “podemos e venceremos a guerra”. O livro de Jacques Baud ilustra bem que os “preconceitos” em curso na Europa não correspondem à realidade e que as decisões políticas baseadas neles acabarão por ter o efeito contrário. Daí a sua conclusão, tema geral do livro, de que o presidente russo Vladimir Putin, apesar das enormes sanções impostas à Rússia e das previsões sobre o seu fracasso, é quem “está no controle dos acontecimentos”.

Desconstruindo mitos e mentiras

Baud analisa vários mitos. A começar pela da expansão da OTAN em direção ao Leste, que começou logo após o colapso do comunismo e incluiu a integração da Hungria, República Checa e Polônia, em 1999, seguida pelos três Estados Bálticos, Eslováquia, Eslovênia, Romênia e Bulgária, em 2004. Para Baud, a decisão dos EUA de pensarem em estacionar “sistemas de defesa contra mísseis balísticos” na Polônia e na Romênia mudou o “mapa geopolítico da Europa” e aproximou a OTAN da fronteira russa.

Esta “guinada” da política dos EUA e da OTAN foi também a razão para o duro discurso proferido pelo presidente Putin na Conferência de Segurança de Munique de 2007. Nele, referiu-se às “garantias” que tinham sido dadas ao então presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov, entre 1990 e 1991, que excluíam claramente uma expansão da OTAN para o Leste. Baud refere-se a vários documentos, como os publicados em dezembro de 2017 pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington. Segundo ele, os documentos desclassificados mostram claramente que garantias de segurança contra a expansão da OTAN foram dadas aos líderes soviéticos por várias personalidades ocidentais, como o secretário de Estado dos EUA, James Baker, o presidente George H.W. Bush, o ministro das Relações Exteriores alemão Hans-Dietrich Genscher, o chanceler Helmut Kohl, o presidente francês François Mitterand, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, seu sucessor John Major, o chanceler britânico Douglas Hurd e o secretário-geral da OTAN, Manfred Woerner.

Embora Baud ressalte a inexistência de textos escritos ou decisões do Conselho do Atlântico Norte que comprovem tais “garantias”, isto não significa que elas não tenham sido manifestadas. A argumentação é um tanto simples, por vários motivos. Existe hoje a sensação de que a URSS, como perdedora da Guerra Fria, não teve voz no desenvolvimento dos acontecimentos mundiais subsequentes. De acordo com Baud, isto é incorreto: “Desde novembro de 1989, pairava no ar a ideia da reunificação da Alemanha. O Ocidente sabia que a URSS tinha, como vencedora da Alemanha em 1945, um direito de veto de jure em relação à reunificação. O Ocidente foi, portanto, obrigado a obter o consentimento da URSS e a respeitar o seu legítimo interesse de segurança.”

Baud observa que esse foi o argumento de Genscher em um discurso de 31 de janeiro de 1990 (como relatou o embaixador estadunidense em Bonn, em um telegrama secreto): “Genscher adverte, no entanto, que qualquer tentativa de expandir as estruturas militares da OTAN no território da atual RDA [Alemanha Oriental] bloquearia a unificação alemã.” Para Moscou, isto significaria que a OTAN se aproximaria ipso facto da fronteira soviética. Àquela altura, o Pacto de Varsóvia ainda existia e a doutrina da OTAN permanecia inalterada. Portanto, era legítimo que a URSS considerasse tal expansão como um risco para a sua segurança. Além disso, a URSS, com a reunificação alemã, retirou do país as suas forças militares mais modernas e poderosas, o que teve como consequência um enfraquecimento significativo da sua posição estratégica na Europa. Portanto, Genscher deixou claro: “As mudanças na Europa e o processo de unificação alemão não devem levar a um corte nos interesses de segurança soviéticos. Portanto, a NATO deveria excluir uma extensão territorial para o Leste, ou seja, uma aproximação das fronteiras soviéticas.”

Gorbatchov estabeleceu rapidamente uma vinculação entre o seu consentimento e a condição da não aproximação, procurando imediatamente uma conversa com James Baker. Para dissipar as suas dúvidas, Baker declarou, em 9 de fevereiro de 1990: “Não só para a URSS, mas também para outros países europeus, é importante ter garantias de que se os EUA mantiverem a sua presença na Alemanha no quadro da OTAN, que a atual jurisdição militar da OTAN não se expandirá nem um centímetro para O Leste.”

Portanto, enfatiza Baud, houve um “acordo” independente de documentos escritos. O problema, porém, era que o Ocidente, em particular os EUA, entendia o colapso do comunismo como “a sua vitória”, que queriam uma vitória total e que a Rússia não tinha mais nada a dizer. Na realidade, o Ocidente não tinha vencido a Guerra Fria; o sistema comunista “a perdeu”, pois não tinha mais condições de sobrevivência. Mas os “falcões” estadunidenses viram aí uma oportunidade de destruir completamente a Rússia. Robert Gates, nas suas memórias, revela que o então secretário da Defesa Dick Cheney estava determinado a “aniquilar a Rússia”. De acordo com Gates: “Em 2000, num período de grande humilhação e dificuldades para a Rússia, o impulso da expansão da OTAN para o Leste, quando se fez Gorbatchov e outros acreditarem que ele não aconteceria, pelo menos não num futuro previsível, não só obscureceu a relação entre os EUA e a Rússia, mas também tornou mais difícil trabalhar de forma construtiva com a Rússia.”

Como evoluiu a crise na Ucrânia

Ao referir-se à crise na Ucrânia, Baud sublinha que ela mostra a falta de “pensamento estratégico” no Ocidente. Isto explica a proposta apresentada pela Rússia aos EUA e à OTAN, em dezembro de 2021, “sob a forma de um tratado entre os EUA e a Federação Russa sobre garantias de segurança”, além de “acordos sobre medidas para manter a segurança entre a Federação Russa e os Estados membros do Pacto do Atlântico Norte”.

Ele demonstra que, no contexto da evolução da crise, não foram os russos, mas os estadunidenses, que fizeram tudo “para enfraquecer a Europa e dividi-la”. Para ele, o episódio “Euromaidan 2014” foi um “golpe” desfechado com o apoio dos EUA e da União Europeia (UE). Na ocasião, foi derrubado “violentamente” o governo do presidente Viktor Yanukovich, cuja eleição fora qualificada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) como “transparente e honesta” e um sinal impressionante de democracia: “O Euromaidan estava longe de ser uma revolução popular, tendo sido levado a cabo por uma minoria de elementos nacionalistas radicais do Oeste da Ucrânia (Galícia), que não era representativa de toda a população ucraniana. O primeiro ato legislativo do Parlamento que surgiu do golpe foi a abolição da Lei Kiwalow-Kolesnitschenko de 2012, que deu à língua russa a condição de língua oficial ao lado da ucraniana.”

Contudo, o Ocidente legitimou o golpe de Estado extremista de direita, que prendeu o presidente do maior partido da oposição parlamentar, a Plataforma de Oposição, Viktor Medvedchuk, e proibiu meios de comunicação simpatizantes da Rússia. Ademais, deu início a uma dura repressão militar no Donbass, no Leste do país, da qual mais de 80% das vítimas civis eram civis. Nas palavras de Baud, o “governo ucraniano massacrou o seu próprio povo com a assessoria de militares da OTAN e da UE”.

O autor demonstra que os vínculos ideológicos entre os revolucionários do Euromaidan e a extrema-direita ucraniana remontam no tempo à II Guerra Mundial, quando parte da Ucrânia estava sob o domínio da 2ª Divisão SS “Das Reich”, cujo emblema foi adotado pelo Regimento Azov. Desde o golpe de 2014, podiam-se ver nas manifestações bandeiras de extremistas de direita como o Svoboda e retratos do líder pró-nazista Stepan Bandera (1909-1959). Segundo Baud, entre as milícias ultranacionalistas mais importantes estão o Regimento Azov, o Exército Voluntário Ucraniano (UDA), financiado pelos EUA e alguns países europeus, os “paramilitares Patriotas da Ucrânia”, opostos aos separatistas pró-Rússia, a Autodefesa Nacional da Ucrânia, outra milícia nacionalista antirrussa, e o Pravy Sektor (Setor Direita). De acordo com Baud, os meios de comunicação ocidentais têm silenciado sistematicamente sobre o caráter extremista de alguns desses movimentos e a sua influência sobre o governo ucraniano.

Em 2014, Baud trabalhou para a OTAN e acompanhou a crise da Ucrânia a partir de dentro. Segundo ele, “ficou claro desde o início que a crise foi agravada pelo Ocidente”. Vídeos mostraram que os golpistas eram apoiados por homens armados que falavam inglês com sotaque estadunidense e a revista alemã Der Spiegel informou sobre a presença de milícias da empresa de mercenários Academi (antiga Blackwater).

Contagem regressiva para a guerra

Desde a primavera de 2021, relata Baud, os EUA começaram a ameaçar com a perspectiva de uma ofensiva russa na Ucrânia. Em 24 de março, o presidente Volodymyr Zelensky anunciou um decreto para reconquistar a Crimeia e realocar tropas no Sul do país. Nessa altura, ocorreu o exercício da OTAN Defender Europe 21, de março a junho, nas vizinhanças da fronteira russa e do Mar Negro. Contudo, nenhuma mídia ocidental noticiou os movimentos de tropas ucranianas em meados de março e o final de abril. Então, seis meses depois, em 30 de outubro, o Washington Post menciona um reposicionamento incomum de tropas russas para junto a fronteira ucraniana. Em 23 de janeiro de 2022, parte do pessoal diplomático dos EUA em Kiev foi retirado. O que realmente estava acontecendo, segundo Baud, era a preparação do exército ucraniano para atacar as autodeclaradas repúblicas autônomas de Donetsk e Luhansk. No Ocidente, ninguém falou nisso.

Em 17 de fevereiro, em um discurso no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o secretário de Estado estadunidense, Antony Blinken, afirmou: “Não sabemos exatamente como as coisas irão evoluir… mas a Rússia quer criar um pretexto para o seu ataque. Poderia ser um ato violento, pelo qual responsabilizaria a Ucrânia, ou uma acusação contra o governo ucraniano. Não sabemos as razões para isto. Poderia ser um pretenso ataque à bomba terrorista na Rússia, a descoberta inventada de uma vala comum, um ataque encenado de drones contra civis ou um ataque químico artificial ou real. A Rússia pode descrever este evento como uma limpeza étnica de genocídio e tornar ridículo um conceito que levamos a sério, em particular eu próprio, por causa da minha história familiar (Antony John “Tony” Blinken nasceu em Nova York em 16 de abril de 1962, filho de pais judeus, cujos ancestrais vieram da Ucrânia, Alemanha e Hungria. – E.H.). Segundo: o governo russo poderia convocar uma sessão de emergência para lidar com a crise. O governo dirá o que tem de fazer para defender os russos étnicos na Ucrânia. Então, o ataque começará e mísseis e bombas russos atingirão toda a Ucrânia. Os canais de comunicação serão bloqueados. Os ataques cibernéticos fecharão as principais instituições ucranianas. Depois disso, os tanques e soldados russos ocuparão postos-chave que foram detalhados nos planos. Acreditamos que o objetivo da Rússia é Kiev – uma cidade com 2,8 milhões de habitantes. Temos informações de que a Rússia atacará de forma direcionada grupos ucranianos.”

De acordo com Baud, tais foram feitas pela chamada “Equipe Tigre” sobre uma possível invasão russa.

No dia 16 de fevereiro, a Ucrânia intensificou o fogo de artilharia contra a população das repúblicas autônomas em Donbass, que foi evacuada. Novamente, nenhuma publicação ocidental divulgou tais fatos. Baud vê uma grande probabilidade de que unidades da CIA tenham sido infiltradas no Donbass e, em fevereiro de 2022, tenham cometido atos terroristas. Segundo ele: “Tudo aponta para o fato de os EUA quererem ter um ataque russo como pretexto para impor sanções exemplares contra o país. A Alemanha decidiu interromper a certificação do gasoduto Nord Stream 2 (22/02/2022), que era desde o início o objetivo dos EUA. No dia 23 de fevereiro, as repúblicas de Donetsk e Luhansk pediram ajuda militar à Rússia, à luz da intensificação da ofensiva militar ucraniana. No seu discurso de 24 de fevereiro, o presidente Putin definiu como objetivos a desmilitarização e a desnazificação da Ucrânia. Ele queria a neutralização do país e impedir a instalação de sistemas de armas ocidentais e estadunidenses em território ucraniano. Em 27 de fevereiro, Putin também colocou as forças nucleares da Rússia em alerta.”

Baud conclui que a russofobia dos “novos europeus” é o principal calcanhar-de-Aquiles da OTAN, uma vez que o menor incidente pode rapidamente transformar-se numa catástrofe nuclear. Tendo em mente que a Rússia aumentou ainda mais as suas remessas de petróleo aos EUA, bem como o fornecimento de combustível de foguetes, é digno de nota que, no final de abril de 2022, houve uma mudança na política de armas nucleares estadunidense, com a abolição do princípio da renúncia ao “primeiro emprego”. Desde então, o presidente Joe Biden aprovou uma política que deixa todas as opções em aberto. As armas nucleares não são apenas contempladas apenas como retaliação a um ataque nuclear, mas também como uma “reação a ameaças não nucleares”, ou seja, os EUA consideram a utilização de armas nucleares a qualquer momento.

Em conclusão, o livro de Baud compila, de fato, um vasto material muito detalhado sobre a contagem decrescente para a guerra Rússia-Ucrânia, que pode facilmente evoluir para um conflito nuclear, a menos que a razão prevaleça e sejam tomadas medidas para um cessar-fogo e uma paz duradoura.

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