Projeto de desenvolvimento eurasiático apresentado em Moscou

Enquanto sopram mais fortes os ventos de uma nova “Guerra Fria” e os riscos de conflitos reais em torno da crise da Ucrânia, importantes personalidades do mundo econômico e científico da Federação Russa se aprestam a oferecer uma alternativa pacífica de desenvolvimento de infraestrutura, econômica e cultural de todo o continente eurasiático.

Em 11 de março, em Moscou, o presidente da megaempresa estatal Ferrovias Russas, Vladimir Yakunin (incluído na recente lista de sanções adotadas pelos EUA contra personalidades russas), com o apoio da prestigiosa Academia Russa de Ciências, apresentou um plano de grandes investimentos em infraestrutura, batizado como “Corredor de Desenvolvimento Eurasiático”, sintetizado pela palavra russa Razvitie, que significa desenvolvimento.

Os autores estavam entre os poucos estrangeiros convidados para o evento. Após a sua sanção científica pela Academia Russa de Ciências, o projeto está agora pronto para ser apresentado e discutido nas diversas instituições da administração do Estado. Trata-se de um megaprojeto, que exigiria investimentos da ordem de centenas de bilhões de euros, baseado na construção de corredores de infraestrutura moderna para ligar a costa russa do Pacífico à Europa atlântica. Os corredores incluem ligações ferroviárias e rodoviárias, além de gasodutos, oleodutos, aquedutos e redes de transmissão de eletricidade e de comunicações. Estão previstas futuras ligações com a China, que, aliás, já está empenhada ativamente na construção de uma “Nova Rota da Seda”, uma rede de ferrovias modernas no eixo eurasiático, e até mesmo com a América do Norte, com uma liganção ferroviária via Estreito de Bering, para conectar a Sibéria com o Alasca.

Evidentemente, a visão estratégica do projeto vai muito além da criação de corredores de transportes e inclui o desenvolvimento em profundidade de faixas de 200-300 km ao longo dos eixos viários, contemplando novos assentamentos urbanos e centros de produção. De acordo com Yakunin, tal projeto poderia criar pelo menos 10-15 novos tipos de indústrias baseadas em tecnologias completamente novas.

Tais propostas podem parecer uma ideia de visionários. Mas, desde há algum tempo, a Rússia vem tentando definir uma estratégia não apenas econômica, mas também capaz de mobilizar e unir as forças sociais, culturais e espirituais de toda a população em torno de um grande projeto. Desta forma, os mentores da proposta acreditam poder confrontar a questão demográfica crucial, em um país que, nas últimas duas décadas, tem experimentado reduções assustadoras no tamanho da população e nas taxas de fertilidade. Uma das ideias é colocar em marcha uma urbanização progressiva dos territórios da Sibéria e do Extremo Oriente russo, ainda vastamente desabitados.

Na verdade, no passado, a Rússia sempre se mobilizou em torno de grandes projetos que, inicialmente, pareciam impossíveis. A construção da Ferrovia Transiberiana, com 9.300 km de extensão, há mais de um século, o plano de eletrificação da União Soviética, nas décadas de 1920-1930, e os programas espaciais são os exemplos mais conhecidos.

Yakunin afirmou que, recentemente, já foram decididos importantes investimentos de longo prazo, como a modernização das ferrovias Transiberiana e Baikal-Amur.

A superação da crise global que impacta este início do século XXI poderia ser um importante estímulo para um acordo entre a Rússia, a União Europeia e os EUA, o qual possibilite uma resposta positiva ao impulso de desindustrialização que atinge as três economias.

A utopia da sociedade pós-industrial fracassou e, portanto, necessita ser superada com um novo e moderno impulso de industrialização. Em um mundo marcado pelo intercâmbio de bens e tecnologias, o desenvolvimento do corredor eurasiático pode, portanto, conciliar os interesses das três grandes economias, criando ao mesmo tempo uma garantia de segurança geopolítica para todos.

É óbvio que um projeto de tais proporções só pode ser implementado com a participação de todos os países envolvidos e interessados, começando pela União Europeia, cuja contribuição tecnológica é insubstituível e para a qual abriria amplas perspectivas de modernização tecnológica, novos empregos e novos negócios para as empresas do continente.

Neste momento delicado, em que a Rússia é excluída do G-8, pode parecer extravagante se falar sobre projetos semelhantes, mas é preciso pensar a sério em novas fases de desenvolvimento global e em uma nova orientação geopolítica mundial pacífica e altamente integrada.





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