Porque ninguém fala do CEITEC? Vamos perder nossa grande promessa na produção de semicondutores

Andre Roncaglia*

Artigo originalmente publicado no blog Paulo Gala / Economia & Finanças (03/06/2021).

A imprensa no Brasil é cliente de um monopólio ideológico de opinião econômica centrada no conceito de maximização da riqueza do acionista e das vantagens comparativas (não disse neoliberalismo, viu só?). Assim, não importa se a empresa é estratégica ou não. A pergunta é sempre: Dá lucro? Não. Então, vende. Muitos economistas de mercado já deram de ombros a esta pergunta sobre a produção de microchips, dizendo: tem empresa estrangeira que faz melhor. Então, pra que gastar recurso público com isso? Prevalece o “argumento de autoridade”. É esperado o abandono do tema, após meses ouvindo estes argumentos.

Jornalistas da grande imprensa fogem de “micos” que podem expôs-lo(a)s ao ridículo de defender ideias “velhas” de Estado investindo em produção. Contudo, o mundo mudou e a imprensa precisa diversificar suas fontes. Economistas liberais disfarçados de “arautos da ciência” descartam debates importantes para o futuro do país, com base em ideologia com verniz acadêmico, enquanto o mundo desenvolvido desrespeita flagrantemente estas teorias para defender os seus interesses nacionais. Não é por outro motivo que os casos de sucesso do Japão, da Coreia do Sul e da China aproveitaram muito pouco da “sabedoria” dos economistas de credo liberal e optaram por proteger suas empresas estratégicas, mesmo quando elas ainda não davam lucros.

Não falaríamos hoje de toyotismo como técnica revolucionária de gestão de cadeia de suprimentos, se o governo japonês tivesse extinto a empresa na década de 1950, quando ela dava redobrados prejuízos. A empresa precisou de 30 anos de proteção e subsídios para se firmar. A Toyota é apenas um exemplo de investimento nacional em um setor estratégico em um momento histórico crucial.

Hoje, os semicondutores são o que o automóvel era nos anos 1930. Em 1939, o governo japonês expulsou a Ford e a GM e investiu no país, fugindo de suas vantagens comparativas. É sintoma do viralatismo da nossa “elite” intelectual a omissão perante a extinção criminosa do CEITEC (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada), bem quando a empresa se firma com muitos contratos lucrativos (nacionais e internacionais) em um setor estratégico e pulsante, que conta com elevada demanda mundial. Perderemos mais uma vez o bonde da História. Para quem anda desatualizado em termos de debate econômico no mundo, sugiro a leitura do ultimo livro de Mariana Mazuccato, Mission Economy.

* Economista, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisador associado do CEBRAP; escreveu com Paulo Gala o livro “Brasil, uma economia que não aprende”.

(Foto: CEITEC)

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