Patético cancã de Obama na Europa

A recente turnê do presidente Barack Obama na Europa assinalou um dos pontos mais baixos da diplomacia presidencial estadunidense, na história do pós-guerra. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade e admiração pelos EUA deve ter se sentido algo deprimida, diante das patéticas apresentações do ocupante da Casa Branca em terras europeias, que, em discursos carregados de cinismos e hipocrisias, parecia não ter outra intenção que não fosse a de reafirmar aos europeus, ao mundo e, principalmente, à Federação Russa, a condição de “excepcionalidade” que atribui ao seu país, como havia feito dias antes, na Academia Militar de West Point (MSIa Informa, 9/06/2014) – cujo número de aderentes se reduz velozmente, fora das fronteiras estadunidenses.

O nadir da turnê – se é que é possível se identificar um -, provavelmente, foi o discurso presidencial no aeroporto Chopin, em Varsóvia, onde, em um palanque montado diante de um caça F-16, como pano de fundo para as fotos distribuídas pelas agências noticiosas, ele proclamou o compromisso da “nação indispensável” com a segurança europeia frente às “agressões” russas. “Estou iniciando a visita aqui, porque o nosso compromisso com a segurança da Polônia, bem como com a segurança dos nossos aliados na Europa Central e do Leste, é uma pedra angular da nossa própria segurança, e é sacrossanta (sic)”, afirmou (AFP, 3/06/2014).

Sem demonstrar qualquer vestígio de rubor, Obama foi em frente, em suas diatribes contra a Rússia, disparando: “Os dias de império e de esferas de influência se acabaram. Não se deve permitir que as nações maiores fustiguem as menores ou lhes imponham a sua vontade diante do cano de uma arma, ou com homens mascarados tomando prédios.”

Como observou o sempre atento analista irlandês Finnian Cunningham, em um artigo publicado no sítio Strategic Culture Foundation (7/06/2014):

Obama deve apreciar a ironia, já que a sua retórica hipócrita planou, sem qualquer esforço, sobre as vítimas do bullying estadunidense: a antiga Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Somalia, Paquistão, Iêmen – para mencionar apenas uns poucos países, destruídos nos anos recentes, por armas, navios e aviões de guerra e drones estadunidenses.

De fato, a ironia histórica de o “compromisso” com os países do Leste Europeu ter sido proclamado na capital polonesa não escapou a numerosos comentaristas, que, prontamente, o rotularam como um novo “Pacto de Varsóvia”, desta vez, liderado por Washington.

Para registro, a reação do Kremlin foi imediata, tendo tanto o presidente Vladimir Putin (vide a nota anterior) como o chanceler Sergei Lavrov retrucado, em entrevistas à imprensa. Lavrov protestou que a “propaganda anti-russa” encabeçada pelos EUA “atingiu proporções que não têm nada a ver com o senso comum ou a decência” (Novosti, 4/06/2014).

O festival de cinismos prosseguiu em Bruxelas, na quarta-feira 4, na cúpula do G-8 reconvertido em G-7, após a “suspensão” imposta à Rússia (que, por sua vez, já anunciou que não pretende retornar ao grupo). Na capital belga, além de abrir espaço na agenda para uma breve conversa com o presidente eleito da Ucrânia, Petro Poroshenko, Obama voltou a rugir, ameaçando com novas sanções à Rússia: “Se as provocações da Rússia continuarem, as nações do G-7 estão prontas para impor custos adicionais (BBC, 5/06/2014).”

Fazendo coro com ele, o dócil presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, reforçou: “Este clube democrático… não aceita a Rússia de Vladimir Putin.”

O comunicado conjunto da cúpula parece ter sido redigido pelos redatores da Casa Branca. O texto afirma, em parte: “Estamos unidos em condenar as contínuas violações da soberania e da integridade territorial da Ucrânia pela Federação Russa.”

Desta feita, a resposta de Moscou coube ao premier e ex-presidente Dmitri Medvedev, que acusou os líderes ocidentais de um “cinismo sem limites”, por chamar a sangrenta campanha desfechada pelo governo de Kiev contra os insurgentes do Leste de “ação calculada”.

Ainda em Bruxelas, após uma reunião bilateral com o premier britânico David Cameron, Obama voltou a manifestar a sua fixação na Rússia:

Originalmente, é claro, a nossa cúpula deveria ser em Sochi. Mas, com as ações da Rússia na Ucrânia, as nossas nações se uniram rapidamente em torno de uma estratégia comum. Nós suspendemos a Rússia do G-8 e cancelamos a reunião de Sochi… Todas as nossas sete nações tomaram medidas para impor custos à Rússia, por este comportamento. Hoje, em contraste com uma crescente economia global (sic), uma economia russa se arrasta e se enfraquece ainda mais, por causa das escolhas feitas pela liderança russa. Enquanto isto, as nossas nações continuam unidas em nosso apoio e assistência ao povo ucraniano. (…)

Evidentemente, Obama evitou qualquer menção às crescentes dificuldades que vem encontrando para convencer os seus colegas europeus a ampliar as sanções contra a Rússia. Fora dos discursos, como as economias dirigidas por eles estão longe de superar os efeitos da crise econômico-financeira e, devido à sua grande dependência das importações energéticas da Rússia e aos vultosos negócios com o país, seguir a liderança de Washington neste quesito equivaleria a proverbiais tiros nos pés.

Nem mesmo o ambiente solene do cemitério e do memorial estadunidense na Normandia, onde estão enterrados os militares que desembarcaram na praia de Omaha, no mais sangrento episódio do Dia-D, impediu Obama de falsear a História com uma afirmativa grandiloquente do “excepcionalismo” estadunidense, que lhe é tão caro. Disse ele:

Mas foi aqui, nestas praias, que a maré mudou, na luta comum pela liberdade. Que manifestação mais poderosa do comprometimento da América com a liberdade humana, que a visão de uma onda após a outra de homens jovens embarcando naqueles barcos, para libertar pessoas que nunca haviam visto? (…) Nos anais da História, o mundo nunca havia visto nada como aquilo. E, quando a guerra foi vencida, não reivindicamos quaisquer espólios de vitória – nós ajudamos a reconstruir a Europa. Não reivindicamos qualquer outra terra, exceto a terra onde enterramos aqueles que deram as suas vidas sob a nossa bandeira… Mas a reivindicação da América – o nosso comprometimento – pela liberdade, a nossa reivindicação pela igualdade, a liberdade e a dignidade inerente a cada ser humano – esta reivindicação está escrita no sangue nessas praias e perdurará pela eternidade.

Sem desmerecer a coragem e os sacrifícios dos herois da praia de Omaha e de seus camaradas que desembarcaram em Utah, Juno, Gold e Sword, afirmar – ainda mais na presença do presidente Putin – que o Dia-D foi o ponto de inflexão da II Guerra Mundial é um desrespeito aos literalmente milhões de soldados soviéticos que tombaram nas batalhas realmente decisivas da guerra, em Stalingrado (julho de 1942-fevereiro de 1943), Kursk (julho de 1943) e na Operação Bagration, desfechada duas semanas depois do Dia-D, reunindo dez vezes mais homens, que marcou o início da arrancada final do Exército Vermelho rumo a Berlim. Perto dela, a “Operação Senhor Supremo”, nome oficial do desembarque na Normandia, poderia ser reduzida a pouco mais que uma mera ação diversionista (nota seguinte). Mas, de fato, não se poderia esperar que o líder da “nação indispensável” se preocupasse com semelhantes detalhes.






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