Parque da Serra da Capivara poderá virar resort para sobreviver

Na mesma semana em que o Museu Nacional do Rio de Janeiro anunciou o seu fechamento por tempo indeterminado, em plenas férias escolares, por falta de dinheiro para o pagamento dos salários atrasados dos funcionários terceirizados da limpeza e segurança, os brasileiros voltam a ser lembrados do abandono do ParqueNacional da Serra da Capivara, no Piauí, que aposta no turismo de luxo para preservar o maior sítio arqueológico das Américas, com vestígios da presença humana datados de 50 mil anos.

As duas notícias denotam o pouco caso dos brasileiros – ou, pelo menos, dos seus grupos dirigentes – com o patrimônio cultural do País e as suas potencialidades educacionais (fato que se agrava ainda mais em um momento em que a educação nacional volta a manifestar em grande estilo as suas deficiências, com a enxurrada de notas zero nas redações do Exame Nacional do Ensino Médio de 2014, correspondente a 8,5% dos 5,9 milhões de estudantes que fizeram a prova).

Situado no sudeste do Piauí, o Parque da Serra da Capivara tem uma área de 130 mil hectares e, por sua importância fundamental para a história da evolução e das migrações humanas para a América, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). O parque abriga mais de mil grupos de pinturas rupestres, que remontam a cerca de 30 mil anos, e tem vestígios da presença humana na região há 100 mil anos.

Tais datações colocam em xeque a tese tradicional sobre a ocupação das Américas, de que os primeiros americanos teriam vindo da Sibéria, há cerca de 15 mil anos, atravessando o Estreito de Bering, e migrado para o Sul, deixando vestígios da sua presença no atual Novo México, EUA, há 13.500 anos. Trata-se da chamada Hipótese Clóvis, nome do lugarejo onde foram encontrados ferramentas e utensílios humanos que foram datados com tal idade.

Trabalhando na região da Serra da Capivara desde a década de 1970, a arqueóloga Niède Guidon, atual presidenteda Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), que administra o parque com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), descobriu vestígios que permitiram estabelecer que presença humana no continente é bem mais antiga e que os antigos habitantes locais teriam vindo da África, e não da Ásia. Embora as suas teses não sejam plenamente aceitas pela comunidade arqueológica, principalmente, a estadunidense, elas são favorecidas por um grande número de evidências encontradas na área do parque.

Independentemente das polêmicas científicas, a quantidade de pinturas rupestres ali existentes, sem paralelo no mundo, já constitui um preciosíssimo patrimônio dos primórdios da humanidade e mereceria uma atenção bem maior por parte das autoridades brasileiras. Além das imagens, foram encontradas ferramentas de pedra e peças de cerâmica, estas últimas datadas de cerca de 9 mil anos.

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 Pinturas rupestres no Parque da Serra da Capivara.

Atualmente, o parque, criado em 1979, recebe cerca de 25 mil visitantes por ano, mas, visivelmente, este número seria muito maior se contasse com uma infraestrutura adequada. Um dos problemas é o acesso, pois a distância de Teresina – 570 km – restringe bastante o número de turistas que se dispõem a visitar o local. A solução evidente, o Aeroporto Internacional de São Raimundo Nonato (um dos quatro municípios que compartilham as terras do parque), se arrasta há dez anos, apesar de as suas obras já terem consumido mais de R$ 25 milhões.

Para complicar, no ano passado, os problemas financeiros obrigaram a Fumdham a demitir 270 funcionários, estando outros 60 na fila para a demissão nos próximos meses. Com isto, restarão apenas 20 para cuidar de todo oparque. Em entrevista ao jornal O Globo, ainda em agosto de 2014, Niède Guidon lamentou:

Os funcionários das guaritas protegiam o parque de incêndios e da invasão de caçadores. Mas tivemos que demitir todos os trabalhadores da manutenção. Os últimos foram embora no mês passado. As guaritas foram depenadas, as pessoas roubaram pias, privadas e até placas de energia solar. Chegaram a arrebentar as paredes para levar canos e fios elétricos. As pinturas rupestres estão desprotegidas. É todo um patrimônio que está em perigo.

Segundo ela, a falta de verbas não afeta a área de pesquisas, que é sustentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mas a conservação do parque fica extremamente prejudicada. Em 2012, o ICMBio repassou R$ 1,7 milhão ao parque. Em 2013, foram R$ 1,087 milhão. Mas, de acordo com Guidon, a conservação doparque tem um custo de R$ 400 mil (O Globo, 24/08/2014).

Uma alternativa para a sobrevivência do parque poderá ser a construção do Museu da Natureza e de um resort no meio do parque. O projeto está sendo desenvolvido em uma parceria entre a Fumdham e a empresa Alcindo Dell’Agnese Arquitetos Associados. Até agora, a construção do museu já assegurou recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Dell’Agnese está em busca de investidores interessados no projeto do resort (Época, 13/01/2015).

Já que as autoridades públicas não cumprem o seu papel, pode ser que a iniciativa privada se disponha a otimizar o aproveitamento de todo o potencial turístico do Parque da Serra da Capivara, como países mais civilizados fazem com o seu patrimônio natural e cultural.

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