Os muros que a pandemia está ajudando a derrubar

A luta contra a pandemia de Covid-19, com a frenética busca de uma vacina efetiva para a imunização da população mundial, proporciona uma grande oportunidade para a construção de uma base de cooperação para um combate efetivo a essa e outras doenças epidêmicas, assim como a fome, aprofundada pela disseminação do coronavírus, que constituem as verdadeiras emergências globais. Em essência uma oportunidade para se dar sustentabilidade real a uma população humana crescente – a suprema responsabilidade de todas as nações.

É evidente que o crescimento populacional, a urbanização e o progresso socioeconômico não são os fatores causadores de tais problemas, como se empenham em demonstrar as personalidades neomalthusianas que propõem o “Grande Reset” da economia mundial ou o chamado “capitalismo inclusivo”, mas a iniquidade bíblica provocada entre a população mundial pela globalização financeira, que clama aos céus.

O anuncio do presidente Vladimir Putin, em agosto passado, quando a Rússia registrou a vacina Sputnik V, poderia assinalar o início da ordem mundial cooperativa, derrubando o muro de desconfiança erguido pelos EUA e as potências da Organização do Atlântico Norte (OTAN). Desde a derrubada do Muro de Berlim, em 1989, a política de contenção da Rússia e a sua substituição por um novo muro “russofóbico”, para evitar a cooperação entre a Federação Russa e a União Europeia, tem sido constituído um dos pilares centrais da estratégia geopolítica das elites oligarcas ocidentais.

Coincidência ou não, poucos dias após o anúncio do registro da vacina, ocorreu o alegado envenenamento do militante político russo Alexei Navalny com um agente químico militar, o Novichok, o mesmo ao qual foi atribuído o igualmente mal explicado envenenamento do ex-oficial de inteligência russo Sergei Skripal e sua filha Yulia, no Reino Unido, em 2018. A despeito de reiterados pedidos de provas concretas por Moscou, os médicos que trataram Navalny na Alemanha, para onde foi enviado por deferência do Kremlin, nunca as forneceram.

Navalny, que atribui ao Kremlin o seu suposto envenenamento, é uma estrela artificial da oposição a Putin, com muito mais prestígio nas capitais da OTAN do que no seu próprio país, onde sequer conseguiu registrar o seu partido político.

Por outro lado, o avanço da pandemia, com a aparição de novas cepas mais agressivas do coronavírus Sars-Cov-2, está obrigando a uma rápida mudança de mentalidade em certas instituições ocidentais. Em 2 de fevereiro, a revista médica britânica The Lancet divulgou os resultados preliminares dos testes da Fase 3 da Sputnik V. Os testes com cerca de 20 mil voluntários registraram uma eficácia geral de 91,6% na prevenção dos casos mais brandos da doença, chegando a 100% para os casos mais agudos (ou seja, entre os 8,4% dos voluntários que contraíram a doença após a vacinação, nenhum atingiu a fase mais crítica). A vacina demonstrou uma capacidade de proteção contra o Sars-Cov-2 após 18 dias da primeira aplicação e mostrou-se capaz de reduzir consideravelmente a incidência da doença mesmo com uma dose única. Ademais, exige temperaturas de armazenamento de apenas 18oC negativos, compatíveis com a maior parte dos sistemas de refrigeração existentes no mundo, ao contrário das suas equivalentes das empresas Pfizer e Moderna, que exigem resfriamento a 70oC negativos.

A revista encerrou a apresentação do artigo afirmando: “O desenvolvimento da vacina Sputnik V tem sido criticado pela pressa inadequada, corte de etapas e ausência de transparência. Mas os resultados aqui relatados são claros e o princípio científico da vacinação ficou demonstrado, o que significa que outra vacina já pode se juntar à luta para reduzir a incidência da Covid-19.”

De forma significativa, a Alemanha não esperou a chancela da revista para oferecer à Rússia o seu apoio para o licenciamento da vacina na União Europeia e a sua produção. “Além de todas as diferenças políticas, que são atualmente grandes, não obstante, nós podemos trabalhar juntos em uma pandemia, em uma área humanitária”, disse a chanceler Angela Merkel, em 21 de janeiro.

A decisão alemã se soma a uma série de acordos para a fabricação e aplicação da Sputnik V por diversas nações, algo que pode abrir as portas para a desejada cooperação mundial.

Em paralelo com a cooperação sanitária entre a Rússia e a Europa Ocidental, está a conclusão do gasoduto Nord Stream 2, símbolo da assertividade russa em oferecer uma alternativa cooperativa e não-hegemônica para o abastecimento energético europeu a longo prazo. Trata-se de uma obra de 11 bilhões de dólares e 1.100 quilômetros, dos quais faltam apenas 150, com capacidade para transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano, da Rússia à Alemanha e outros países europeus. O projeto tem cinco sócios: a russa Gazprom, a anglo-holandesa Royal Dutch Shell, a alemã E.ON, a austríaca OMV e a francesa Engie.

Não obstante todo esse impulso cooperativo, com efeitos positivos, inclusive, para a paz mundial, os EUA, do alto da sua colina “excepcionalista”, se opõem ferozmente ao empreendimento, não apenas para evitar as vantagens cooperativas para a Rússia e seus sócios europeus, mas principalmente para manter o afastamento dos dois lados, oferecendo em troca a alternativa energética muito mais custosa do seu gás natural liquefeito.

As pressões de Washington atingiram um paroxismo nos últimos dias, com a prisão e o julgamento de Navalny, que retornou a Moscou em 18 de janeiro, após uma temporada de cinco meses na Alemanha. Em 2 de fevereiro, ele foi condenado a 30 meses de prisão, por ter violado os termos de uma sentença suspensa anterior, referente a um caso de desfalque, em 2014 (na verdade, a Justiça russa determinou que ele cumprisse o restante da sentença suspensa).

Em uma demonstração do interesse ocidental pelo caso, 20 diplomatas dos EUA, Reino Unido, Polônia, Letônia, Lituânia e Áustria, acompanharam o julgamento no tribunal. O fato inusitado levou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, a observar com ironia: “Isso não é mais apenas interferência nos assuntos internos de um Estado soberano. É uma admissão do papel feio e ilegal do Ocidente coletivo em tentar conter a Rússia… Eu não posso descartar que eles estavam lá para supervisionar o destino de milhões da OTAN (britânicos e estadunidenses) injetados em atividades ilegais em território russo (RT, 02/02/2021).”

Navalny à parte, a disponibilidade da vacina e o apoio alemão poderão criar um ambiente favorável a uma melhora da posição da Rússia, contribuindo para desgastar o muro da “russofobia”.

Além da “russofobia”, a pandemia está contribuindo sobremaneira para desgastar outro muro considerado firme, o da globalização financeira das últimas décadas, ao expor sem disfarce os problemas causados pela concentração da produção de insumos, materiais e equipamentos médicos em alguns poucos países de custos de produção mais reduzidos. Quesito no qual o Brasil constitui um bom exemplo, apresentando-se a anos-luz da autossuficiência na produção de vacinas, e não só contra a Covid-19, devido ao brutal processo de desindustrialização que o tem caracterizado desde a década de 1980, quando chegou a produzir mais da metade dos ingredientes farmacêuticos ativos (IFA) necessários, hoje não passando de 5%.

Em seu recente discurso no Fórum de Davos, Putin observou, com propriedade:

Realmente, é difícil deixar de observar as mudanças fundamentais na economia, política, vida social e economia globais. A pandemia do coronavírus… que se tornou um sério desafio para a humanidade, apenas agravou e acelerou as mudanças estruturais, as condições para as quais foram criadas há muito tempo. A pandemia exacerbou os problemas e os desequilíbrios que se acumularam antes no mundo. E há todas as razões para se acreditar que as diferenças, provavelmente, irão crescer. Essas tendências podem surgir em praticamente todas as áreas.

Desnecessário dizer que não há paralelos diretos na História. Entretanto, alguns especialistas – e eu respeito a opinião deles – comparam a situação atual à da década de 1930. Pode-se concordar ou discordar, mas certas analogias são ainda sugeridas por muitos parâmetros, inclusive a natureza sistêmica e abrangente dos desafios e ameaças potenciais.

Estamos vendo uma crise dos modelos e instrumentos anteriores de desenvolvimento econômico. A estratificação social está aumentando, tanto globalmente como nos países individuais… Mas, isto, por sua vez, está causando hoje uma aguda polarização de visões públicas, provocando o crescimento do populismo, do radicalismo direita e esquerda e outros extremos, e a exacerbação das pressões políticas domésticas, inclusive nos países mais avançados.

Tudo isso está afetando, inevitavelmente, a natureza das relações internacionais e não as está tornando mais estáveis ou previsíveis. As instituições internacionais estão se tornando mais fracas, conflitos regionais estão emergindo um após outro, e o sistema de segurança global está se deteriorando.

Ao final, Putin ressaltou que, a despeito das diferenças e dos choques de interesses entre os países, em momentos críticos, a humanidade não deixou de reunir os seus esforços para enfrentar grandes desafios. “Eu acredito que este é o período que vivemos hoje”, concluiu (Kremlin, 27/01/2021).

De fato, a pandemia apenas aprofundou os problemas criados pelos “vírus” da globalização financeira e da hegemonia unipolar. Para estes, o único “antídoto” é o estabelecimento de um quadro cooperativo e não-hegemônico, para promover relações internacionais baseadas na cooperação entre Estados nacionais soberanos, visando a um ambiente global de desenvolvimento compartilhado.

(Foto: Mehr News Agency)

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