O que aconteceu com o Voo MH17?

Decorridos mais de um mês desde a derrubada do Voo MH17 da Malaysia Airlines sobre o Leste da Ucrânia, e três semanas desde que os gravadores de dados (caixas pretas) do avião foram entregues a autoridades britânicas e holandesas para análise, o assunto desapareceu do noticiário midiático e das declarações oficiais dos governos dos EUA e seus subordinados, que sequer esperaram esfriarem os destroços da aeronave para responsabilizar a Federação Russa pela tragédia. Em termos técnicos, a demora é injustificável, pois já haveria tempo hábil para que uma investigação séria do evento apresentasse, pelo menos, resultados preliminares, ainda mais, considerando-se as repercussões políticas do caso. Por isso, avolumam-se as suspeitas de que o silêncio se deva à inexistência de quaisquer evidências que apontem para uma ação dos separatistas ucranianos, a versão inicial prontamente referendada por Washington e as capitais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). E, consequentemente, reforça-se a indicação de uma operação “bandeira falsa” de Kiev, apoiada ou acobertada por Washington, cujos representantes de inteligência, militares e políticos têm “microgerenciado” as ações do governo ucraniano, desde o início da crise no país (ver, entre outras, Resenha Estratégica, 16/04/2014).

A tragédia, ocorrida em 17 de julho, serviu como estopim para uma avalanche de acusações contra Moscou, por, supostamente, ter fornecido o míssil antiaéreo de longo alcance com o qual o avião teria sido abatido, causando a morte de todas as 298 pessoas a bordo. Ato contínuo, sob a liderança estadunidense, a União Europeia (UE), o Canadá e a Austrália impuseram uma nova rodada de sanções econômicas e políticas contra a Rússia (que responderia, dias depois, com a suspensão das importações de alimentos daqueles países).

Em 18 de agosto, o representante russo nas Nações Unidas, Vitaly Churkin, afirmou que seu país planeja solicitar oficialmente um informe sobre o andamento das investigações. Segundo ele, a Resolução 2166 do Conselho de Segurança, referente à tragédia, estabelece que relatórios periódicos sobre as investigações deveriam ser divulgados pelo Secretariado da ONU, o que até agora não foi feito (RIA Novosti, 18/08/2014).

No dia seguinte, por iniciativa russa, o Conselho de Segurança discutiu o assunto, tendo Churkin cobrado do governo de Kiev a liberação dos registros das comunicações entre os controladores de tráfego ucranianos e o MH17, retidos pelas autoridades ucranianas desde o dia da tragédia (fato inexplicável, sobre o qual nenhuma autoridade ocidental se manifestou). Igualmente, ele criticou o fato de a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO, sigla em inglês) não ter sido incluída oficialmente nas investigações, a cargo de autoridades britânicas e holandesas. “Até onde sabemos, a ICAO está sendo mantida à parte da investigação, que já dura algum tempo”, disse ele (RT, 19/08/2014).

Em Haia, o Conselho de Segurança Holandês, órgão que está coordenando as investigações, informa que um primeiro relatório deverá ser divulgado no início de setembro, mas sem apontar os responsáveis pela derrubada do avião. Um detalhe intrigante é o fato de que os investigadores não tiveram acesso aos destroços do avião, o que mereceu a seguinte e curiosa explicação, segundo uma reportagem da BBC:
Normalmente, qualquer investigação de [um desastre de] aviação começaria no local da queda, mas especialistas em contraterrorismo receavam que a presença de investigadores de aviação pudesse colocar em risco os esforços da equipe forense para a recuperação dos corpos, de modo que eles foram forçados a recorrer a fontes alternativas de evidências.

Wim van der Wegen, do Conselho de Segurança Holandês, diz que eles já têm o suficiente para preparar um relatório preliminar: “Nós estamos usando o gravador de voz, os dados de voo da caixa preta, imagens de satélite, informações do controle de tráfego aéreo e fotos tiradas por pessoas que puderam visitar o local da queda (BBC, 17/08/2014).”

De fato, como o governo de Kiev não concordou com um cessar-fogo, nos dias seguintes à queda do avião, o acesso das equipes internacionais ao local ficou bastante prejudicado. Porém, o argumento é controverso, pois o recolhimento dos corpos das vítimas foi inteiramente efetuado pelos separatistas, que os preservaram em vagões frigoríficos e os entregaram aos representantes dos governos holandês e malaio, juntamente com as caixas pretas do avião.

Enquanto isso, o assunto praticamente desapareceu do radar da mídia ocidental. No New York Times, que costuma dar o tom da cobertura para os seus pares (e cujo lema é “Todas as notícias dignas de serem impressas”), a última notícia a respeito saiu em 7 de agosto. A revista alemã Der Spiegel, que estampou a capa da sua edição impressa de 28 de julho com uma foto das vítimas da tragédia, com o agressivo cabeçalho “Parem Putin agora!”, não se refere ao assunto, exceto de passagem, desde 8 de agosto. Na CNN, a última notícia é de 11 de agosto.

Do outro lado do mundo, em 9 de agosto, o New Straits Times malaio, principal jornal em língua inglesa do país, publicou uma grande reportagem, na qual praticamente referendava a suspeita de que o avião teria sido derrubado por um caça da Força Aérea Ucraniana, com um míssil ar-ar e fogo de canhões. A hipótese ganhou força depois que o Ministério da Defesa russo divulgou dados de satélite e radar, que mostravam a presença de um avião de ataque Sukhoi Su-25 próximo ao MH17, imediatamente antes da queda do Boeing 777 (Resenha Estratégica, 24/07/2014).

Da mesma forma, fotografias de partes do avião, divulgadas na internet, mostram orifícios compatíveis com as perfurações de obuses de 30 mm, calibre do canhão de bordo de um Su-25. E o primeiro inspetor da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) que chegou ao local, o ucraniano-canadense Michael Bociurkiw, com a ressalva de não ser um especialista, afirmou que os orifícios se assemelhavam aos de projéteis de metralhadora (CBC, 29/07/2014).

Em 29 de julho, o grupo Veteranos Profissionais de Inteligência pela Sanidade (VIPS, sigla em inglês), integrado por antigos oficiais dos serviços de inteligência dos EUA opositores da política belicista do país, divulgou um de seus memorandos periódicos, instando o presidente Barack Obama a liberar as informações da inteligência estadunidense sobre o evento. Para que se tenha uma ideia do calibre dos signatários, eles representam 260 anos de experiência acumulada: William Binney (NSA); Larry Johnson (CIA e Dep. de Estado); Edward Loomis (NSA); David MacMichael (National Intelligence Council); Ray McGovern (Exército e CIA); Elizabeth Murray (Dep. de Estado); Todd E. Pierce (Exército); Coleen Rowley (FBI); Peter van Buren (Dep. de Estado); e Ann Wright (Exército e Dep. de Estado). Dizem eles:

Se a inteligência sobre a derrubada é tão fraca como aparenta, a julgar pelos obscuros fiapos divulgados, nós lhe sugerimos, enfaticamente, cancelar a guerra de propaganda [contra Moscou] e aguardar os esclarecimentos daqueles encarregados da investigação da derrubada. Se, por outro lado, o seu governo tem informações mais concretas e comprobatórias, sugerimos, enfaticamente, que o senhor considere aprovar a sua liberação, mesmo se houver algum risco para as “fontes e métodos”. Com frequência, esta consideração tem sido usada para evitar que as informações cheguem ao domínio público, ao qual, como neste caso, pertencem.

Os parágrafos finais do texto oferecem uma sensata recomendação:

Em nosso mais recente memorando (4 de maio), Sr. Presidente, advertimos que se os EUA desejavam “deter uma sangrenta guerra civil entre o Leste e o Oeste da Ucrânia e evitar uma intervenção militar russa na Ucrânia Oriental, o senhor poderia ser capaz de fazê-lo antes que a violência saísse completamente de controle”. Em 18 de julho, o senhor se juntou aos líderes da Alemanha, França e Rússia, no pedido por um cessar-fogo imediato. Os observadores mais bem informados acreditam que o senhor tem em mãos o poder de fazer com que os líderes ucranianos concordassem. Quanto mais tempo durar a ofensiva de Kiev contra os separatistas no Leste da Ucrânia, mais essas declarações dos EUA parecerão hipócritas.

Nós reiteramos as nossas recomendações de 4 de maio, de que o senhor remova as sementes dessa confrontação, negando publicamente qualquer desejo de incorporar a Ucrânia à OTAN e deixando claro que o senhor está preparado para encontrar-se pessoalmente e sem demora com o presidente Russo [Vladimir] Putin, para discutir maneiras de desescalar a crise e reconhecer os interesses legítimos das várias partes. A sugestão de uma cúpula obteve uma extraordinária ressonância na mídia russa, tanto na controlada [pelo governo] como na independente. Nem tanto na “grande” mídia dos EUA. Tampouco ouvimos algo do senhor.

Para todo o mundo, é uma lástima que o destinatário do memorando, escravizado aos interesses dos grupos belicistas que controlam o poder em Washington, sequer o tenha levado em consideração.

Se ainda houvesse nos EUA uma mídia minimamente comprometida com o esclarecimento do público, e não subordinada à agenda hegemônica do Establishment, Obama bem poderia correr o risco de um impeachment, por ter omitido deliberadamente os fatos do seu conhecimento, uma atitude inconsequente de graves consequências potenciais para o cenário mundial.

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