O novo presidente alemão: desafio ao Establishment

No último dia 16 de março, o Parlamento alemão (Bundestag) elegeu o novo presidente do país, para substituir Christian Wulff, que renunciou com menos de dois anos no cargo, na esteira de um escândalo de acusações de corrupção referentes ao seu posto anterior, de primeiro-ministro do estado da Baixa Saxônia. O candidato único, Hans Joachim Gauck, foi selecionado com base em um consenso suprapartidário, do qual se excluiu apenas o PDS, sucessor do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental.

Após a reunificação da Alemanha, em 1990, Gauck, que viveu a maior parte da sua vida no lado oriental, foi nomeado para chefiar a agência responsável pela organização dos arquivos da Stasi, a polícia secreta da extinta República Democrática Alemã (RDA), com vistas a disponibilizar a sua consulta pública. Por isso, a sua ascensão à presidência assume um significado histórico, representando um virtual abalo tectônico na estrutura de poder em Berlim, que deverá derrubar certos mitos prevalecentes na política alemã das últimas duas décadas, aí incluídos preconceitos ideológicos sobre as noções de família, nação, religião ou a questão da integração.

Provavelmente, deverá se manifestar uma nova qualidade nos debates entre a população em geral, os formadores de opinião e o Establishment. Em vista dos comentários públicos divulgados nas últimas semanas, está claro que, para muitos representantes das elites alemãs, uma pessoa como Gauck é “desconfortável”, mesmo em um cargo cujas funções mais visíveis são cerimoniais. Ele tende a não se orientar pelas regras da “correção política”, não é tendencioso e espera-se que se empenhe em favor de certos valores perdidos desde a reunificação.

Como Friedrich Schiller, a quem se refere várias vezes em seus livros, Gauck vê a si próprio como um “patriota”, um “europeu apaixonado” e um “cidadão do mundo”, que, por sua biografia, conhece os lados negros da História das últimas seis décadas.

Gauck nasceu em 1940, em Rostock, e, após os horrores da II Guerra Mundial, conheceu a ditadura do regime comunista do Leste. Oriundo de uma família protestante, ele não se juntou à organização da juventude da RDA, o que lhe vedava o acesso à universidade, com exceção da Faculdade de Teologia. Assim, estudou Teologia e se tornou pastor em Rostock.

As suas memórias, publicadas em 2010, proporcionam um vívido relato da vida na RDA, que ele considerava “uma prisão gigantesca”, com um colossal aparato de informações, que espionava e controlava a vida de cada cidadão. Mais tarde, o seu trabalho de organização dos arquivos da Stasi demonstrou que nada menos que 600 mil pessoas (em uma população de 16 milhões, em 1990) eram informantes do órgão – filhos espionavam pais, maridos espionavam esposas, trabalhadores e acadêmicos espionavam seus colegas e religiosos espionavam outros religiosos.

Após a reunificação, comitês de cidadãos do Leste ocuparam os escritórios da Stase, em Berlim, Erfurt e outras cidades, para evitar a destruição dos arquivos. Com o estabelecimento de uma agência federal para cuidar do assunto, Gauck foi nomeado o seu presidente. O trabalho de busca e catalogação revelou 39 milhões de fichas e milhões de fotos e documentos, que foram organizados e colocados à disposição do público.

Gauck não é um homem que se mostra interessado em revanche, mas na busca da verdade e na luta permanente pela liberdade. Para ele, não há liberdade verdadeira sem se encarar a verdade; a liberdade verdadeira abre caminho para o engajamento responsável da cidadania.

Em um recente discurso, Gauck observou que a revolução de 1989 foi realizada por pessoas comuns, que sobreviveram durante décadas em seus nichos privados, com a vaga esperança de que as coisas mudariam algum dia. Em suas palavras: “As ditaduras podem durar por muito tempo. O que aconteceu na RDA não foi uma implosão, nem se deveu à boa vontade do Sr. [Mikhail] Gorbatchov. Foram os cidadãos alemães que compreenderam uma verdade, que, na França, é a expressão mais preciosa na política: nós somos o povo… Esta sentença nos ensinou que, se acreditarmos nos nossos desejos e tivermos confiança neles, seremos capazes de superar os nossos medos, os próprios medos que nos fazem adaptar-nos à situação.”

Gauck enfatiza que a liberdade não significa ser livre “de” alguma coisa, mas ser “livre para alguma coisa”. Em sua própria experiência, ele viveu um sonho permanente de liberdade, compreendendo que não era uma meta de realização imediata. Mas ele insiste em que, como muitos outros, manteve a esperança de realizar os seus sonhos, algum dia. Se aferrar ao sentido interior de liberdade e pensamento criativo, é o que permite ao indivíduo atuar responsavelmente e se engajar em favor do Bem Comum.

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