NSA: quando a esperteza come o esperto

Um velho ditado nordestino sobre a esperteza, na acepção da palavra usada para qualificar a busca de vantagens a todo custo, afirma que, quando ela se torna excessiva, costuma virar bicho e comer o esperto. Tal situação parece estar se manifestando em relação aos desdobramentos das revelações do ex-analista de inteligência Edward Snowden, sobre a extensão da rede de espionagem eletrônica encabeçada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, aí incluída a cooperação das grandes empresas da internet estadunidenses. Além do desgaste político para o governo de Washington, as próprias empresas se veem ameaçadas por consideráveis prejuízos, caso governos e empresas de países mais incomodados com o alcance da espionagem decidam transferir para empresas não-estadunidenses parte dos serviços atualmente oferecidos por elas.

Um estudo da Fundação de Tecnologia e Inovação em Informação (ITIF), organização sediada em Washington e dedicada a “formular e promover políticas públicas para o progresso das inovações e produtividades tecnológicas”, sugere que a indignação internacional contra as atividades da NSA já está afetando os negócios das companhias de tecnologia de informação estadunidenses e prejudicando os esforços de promoção da liberdade na internet.

Segundo o estudo, os prejuízos das empresas em negócios não realizados poderão chegar a 35 bilhões de dólares, até 2016, por conta dos crescentes questionamentos à segurança das informações processadas em seus sistemas. “Os prejuízos potenciais são muito grandes, dado o nível em que a nossa economia depende da economia das informações para o seu crescimento. É aí onde, cada vez mais, reside a vantagem dos EUA”, disse Rebecca MacKinnon, pesquisadora sênior da Fundação Nova América (New American Foundation), integrante do estudo (Bloomberg, 26/11/2013).

A Cisco Systems, a maior fabricante mundial de equipamentos para redes de computadores, já admitiu que as revelações sobre a NSA estão provocando “alguma hesitação” entre os seus clientes dos mercados emergentes. Segundo o diretor de Desenvolvimento e Vendas da empresa, Robert Lloyd, “não está tendo um impacto material, mas, certamente, está fazendo as pessoas pararem e repensar decisões”.

Seu colega da Google, Richard Salgado, diretor de Assuntos Legais e Segurança de Informações, disse a um painel convocado pelo Senado estadunidense, que as revelações de Snowden têm “um grande potencial para produzir sérios danos à competitividade” de empresas como a Apple, Facebook, Microsoft, Cupertino e outras. “A confiança que está ameaçada é essencial para estes negócios”, afirmou.

Segundo ele, as medidas que vários governos estão considerando para se proteger da espionagem poderão “limitar o livre fluxo de informações”, o que “poderia ter severas consequências não intencionais, como uma redução na segurança dos dados [sic], custos maiores, diminuição na competitividade e prejuízos aos consumidores”.

Referindo-se à Alemanha, um dos países em que a resposta da população às denúncias foi das mais ruidosas, Tom Leighton, executivo-chefe da Akamai Technologies, empresa especializada em sistemas de aceleração de conteúdo online para clientes corporativos, admite que dificilmente a empresa deixará de ser afetada: “É claramente ruim para as companhias estadunidenses. É particularmente ruim agora, na Alemanha, onde está sendo incitado um sentimento corporativo antiamericano. Nós, provavelmente, perderemos alguns negócios por lá.”

E os problemas não deverão ser exclusivos das empresas de informação. Para o vice-presidente-executivo da Câmara de Comércio dos EUA, Myron Brilliant, “este é um assunto prioritário, não só para as companhias de tecnologia ou da internet, mas também para as pequenas e médias empresas”, em áreas como finanças, manufaturas, cuidados de saúde, educação, navegação “e outras áreas não comumente consideradas empresas da internet”.

De acordo com Brilliant, estudos mostram que os bens e serviços baseados em fluxos de dados transfronteiriços deverão acrescentar anualmente cerca de 1 trilhão de dólares em valores, à economia estadunidense, ao longo dos próximos dez anos.

Os prejuízos mais evidentes deverão atingir o setor de computação em nuvem, as quais, segundo o estudo da ITIF, poderão perder negócios em montante superior a 21 bilhões de dólares, nos próximos três anos, se as empresas estadunidenses perderem apenas 10% da sua fatia do mercado para empresas européias e asiáticas (Press TV, 28/11/2013).

Um exemplo da disposição europeia de diminuir a influência determinante dos EUA na internet é a intenção do governo alemão de instalar centros de roteamento nacionais, para evitar que o tráfego de dados dentro do país tenha que passar por centros de distribuição estadunidenses, como ocorre hoje. Trata-se de um projeto dispendioso, mas, aparentemente, Berlim está disposta a bancar a conta. Como afirma o especialista russo Boris Kazantsev, em recente artigo, parece que os europeus estão percebendo que a “soberania digital” é uma questão complexa, que não pode ser simplesmente delegada a alguém, como a Europa faz com a segurança militar delegada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, de fato, aos EUA. Segundo ele, esta percepção não está longe da experiência da China, que se torna uma crescente referência para o resto do mundo (Strategic Culture Foundation, 17/11/2013).

Kazantsev recorda que, em outubro último, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que denuncia o tratado de transferência de informações bancárias SWIFT, o qual proporciona aos estadunidenses um potencial acesso aos dados bancários de cidadãos europeus. No ano passado, por pressão dos EUA e a concordância da União Europeia (UE), o Irã foi excluído do acesso ao sistema, como parte das sanções impostas ao país com o objetivo de limitar o seu programa nuclear.

O especialista conclui:

Hoje, todo o sistema de gerenciamento da Web se baseia na dominação tecnológica dos EUA, o que solapa a maioria dos esforços dos outros países para proteger os interesses nacionais no ciberespaço. A dominação total de companhias de TI [tecnologia de informação – n.e.] estadunidenses, como a Google, Facebook ou Microsoft, que cooperam ativamente com a NSA e outras agências de inteligência estadunidenses, tornam ainda mais ilusória a “soberania digital”. O mais provável é que a UE reconsidere toda a sua concepção da construção da sociedade de informações europeia, que, claramente, não preenche os modernos requisitos de segurança. O que será o novo modelo ainda se desconhece, mas, aparentemente, ele abrirá caminho para um afastamento consistente do liberalismo extremado, que se desacreditou com as condições da guerra cibernética total que os EUA deflagraram contra o mundo inteiro.

A promiscuidade entre a NSA e suas antecessoras e as empresas de telecomunicações estadunidenses remonta ao período anterior à II Guerra Mundial, tendo-se acentuado após o conflito, com a criação da NSA, em 1952. Hoje, as empresas de TI apenas mantiveram uma tradição iniciada por companhias como a RCA, ITT, Western Union e outras. Não obstante, desta vez, a rejeição mundial desencadeada pelas revelações da extensão das atividades da NSA e sua rede poderá fazer com que o bicho da esperteza acabe se voltando contra os espertos, atingindo-os onde mais costuma doer-lhes – nos balanços das empresas que integram o sistema.

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