No pós-Helsinki, precisam-se passos para evitar uma escalada EUA-Rússia

A cúpula Trump-Putin em Helsinki, em 16 de julho, provocou reações negativas das elites políticas de ambos os lados do Atlântico. Nos EUA, o Establishment político, incluindo as principais lideranças democratas e republicanas, reagiu histericamente, qualificando Trump abertamente como “traidor” (como fez o senador John McCain), enquanto a mídia estadunidense e grande parte da europeia afirmou que o presidente estadunidense se tornara “refém” de seu colega russo Vladimir Putin. Na Alemanha, alguns especialistas em política externa consideraram a cúpula como “um golpe de propaganda para Putin” e um “desastre para Trump”. E nenhum estadista europeu teve a coragem de fazer uma avaliação sóbria sobre as implicações estratégicas do encontro. O resultado tal arrogância e cegueira estratégica é que o potencial de uma crise estratégica e de um confronto entre as duas superpotências não diminuiu.

Na entrevista coletiva que se seguiu ao encontro, os dois presidentes apresentaram suas opiniões sobre o mesmo. Para Putin, à luz da “situação negativa nas relações bilaterais”, os dois presidentes mapearam “passos iniciais para melhorá-las, restaurar um nível aceitável de confiança e retornar ao nível de cooperação anterior em todas as questões de interesse mútuo”.

Putin enfatizou a discussão sobre a estabilidade estratégica e a não-proliferação de armas nucleares:

Acreditamos que é necessário um esforço conjunto contínuo na questão político-militar e de desarmamento. Isto inclui a renovação do Tratado de Reduções Ofensivas Estratégicas (SORT), a perigosa situação sobre o desenvolvimento de elementos do sistema de defesa antimísseis global dos EUA, a implementação do Tratado de Eliminação de Mísseis de Alcance Intermediário e de Curto Alcance e o tema da disposição de armas no espaço.

Outro tema de discussão foi a Síria, onde “temos todos os elementos necessários para uma cooperação efetiva”. Segundo Putin, “notavelmente, as forças armadas russas e estadunidenses ganharam uma experiência útil de interação e coordenação no ar e em terra”. Em uma entrevista com o apresentador da Fox TV, Chris Wallace, Putin afirmou que em geral tem havido uma boa cooperação na Síria: “ Nós mantemos a cooperação entre os nossos militares e serviços especiais. O trabalho deles diz respeito à luta contra o terrorismo, no sentido amplo da palavra.”

Outros assuntos citados por Putin foram a retirada dos Estados Unidos do Plano de Ação Abrangente Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês) sobre a questão nuclear iraniana, a crise na Ucrânia, a observância dos acordos de Minsk por Kiev a necessidade de ampliação do comércio e dos investimentos.

Por sua vez, Trump qualificou a conversa como “um diálogo produtivo e bom não apenas para os EUA e a Rússia, mas também para o mundo. Um diálogo construtivo para abrir novos caminhos para a paz e a estabilidade em nosso mundo”.

Um dos temas mencionados foi, evidentemente, a suposta interferência russa nas eleições dos EUA:

Passamos muito tempo falando sobre isso. Assim como no caso da Síria, a cooperação entre os nossos dois países tem o potencial de salvar centenas de milhares de vidas. (…) Também concordamos em que representantes dos nossos conselhos de segurança nacional se reunirão para dar seguimento a todas as questões que abordamos hoje e para continuamos o progresso que iniciamos aqui em Helsinki.

Em resposta a uma pergunta específica sobre a alegada interferência russa, ele respondeu: “A minha gente veio até mim, [o diretor de Inteligência Nacional] Dan Coats e alguns outros. Eles disseram que acham que foi a Rússia. Eu tenho aqui, o presidente Putin, ele disse apenas que não foi a Rússia. Eu vou dizer isso, não vejo nenhuma razão para que tenha sido assim.”

A resposta provocou uma tempestade de protestos nos EUA, forçando Trump a corrigi-la, dizendo que não via “nenhuma razão para que não tenha sido assim”.

Reações russas

Na Rússia, o conhecido Fórum de Discussões de Valdai teve como convidado especial, em 20 de julho, o embaixador russo em Washington, Anatoly Antonov, que participou da cúpula considerou o encontro de grande importância para a história das relações russo-estadunidenses. Segundo ele, “paradoxalmente, o principal resultado do encontro foi a própria cúpula e o fato de os dois presidentes poderem falar com calma sobre os prementes problemas internacionais, a segurança regional e global, bem como sobre a agenda de estabilidade estratégica e controle de armas. Portanto, este fato deve ser considerado positivamente”.

Porém, o diplomata foi particularmente crítico com a mídia estadunidense:

A mídia publicou muitas notícias falsas, distorções e relatos negativos sobre o que aconteceu na cúpula de 16 de julho. Por que a mídia ocidental pensa que a reunião dos dois presidentes foi ruim? Na minha opinião, foi maravilhoso! Quanto mais forte o diálogo entre os nossos países, mais forte é a segurança dos estados europeus, da Rússia e dos Estados Unidos.

Segundo Antonov: “Nós identificamos os problemas que precisam ser resolvidos. (…) Queremos que o diálogo se torne permanente e que os dois líderes se reúnam caso a caso, regularmente, para conhecerem e entenderem melhor os problemas e resolvê-los.”

Igualmente, ele citou o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START) que vence em 2021 e envolve questões como a defesa antimísseis, desequilíbrios nas armas convencionais e a colocação de armas no espaço. As negociações devem começar imediatamente, se se quiser que o tratado seja além de 2021, afirmou. “A tarefa não é multiplicar o número de cúpulas, mas sim desenvolvê-las e avançar, nós queremos que o diálogo seja permanente e que os líderes se reúnam regularmente. O lado russo está sempre aberto a tais propostas”, concluiu.

Andrey Sushentsov, diretor de Programas da Fundação Clube Valdai, considerou as relações entre Trump e Putin como “estáveis e de confiança”. Apesar de o Establishment estadunidense ter se voltado contra o seu próprio presidente e continuado a acusar a Rússia, Sushentsov enfatizou que tais “cúpulas de alto nível são definitivamente úteis”.

Para Andrey Bezrukov, professor associado do Instituto Estatal de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, a preocupação de Trump é com as eleições estadunidenses de meio mandato, que ocorrerão em novembro. Depois delas, pensa ele, Trump terá, finalmente, a oportunidade de formular a sua própria política externa. Não obstante, afirmou, “é importante observar que a primeira reunião de formato completo entre eles foi um divisor de águas, de modo que agora os líderes das duas grandes potências têm uma compreensão de como poderão cooperar e há muitas áreas para se fazer isto”.

Rumo a um entendimento básico OTAN-Rússia

Nesse contexto, é útil observarmos algumas considerações mais construtivas formuladas por uma rede pan-europeia de especialistas militares e de defesa europeus, a European Leadership Network (ELN), que desde a sua fundação, em 2011, tem promovido discussões sobre um futuro livre de armas nucleares e um diálogo cooperativo entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A ELN acaba de divulgar um documento de posição intitulado “Rumo a um entendimento básico OTAN-Rússia”, o qual contrasta com a histeria manifestada por membros das elites políticas da União Europeia (UE) e da OTAN, com o objetivo de vilanizar a Rússia e separá-la da Europa.

O documento foi compilado por um destacado grupo de membros da ELN, Conselho Russo de Assuntos Internacionais da Rússia, Instituto Polonês de Assuntos Internacionais e Fórum de Relações Globais (GRF, na sigla em inglês), integrantes da Força-Tarefa sobre a Cooperação na Grande Europa. São eles:

– Igor S. Ivanov (ex-ministro das Relações Exteriores da Rússia, presidente do Conselho Russo de Assuntos Internacionais e membro correspondente da Academia Russa de Ciências);

– Adam Daniel Rotfeld (ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia);

– Volker Ruehe (ex-ministro da Defesa da Alemanha);

– Malcolm Rifkind (ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa do Reino Unido);

– Pierre Lellouche (ex-secretário de Estado para Assuntos Europeus e Comércio Exterior da França);

– Vitaly Zhurkin (diretor emérito do Instituto da Europa da Academia Russa de Ciências);

– Stefano Stefanini (ex-assessor diplomático da Presidência da Itália e ex-representante permanente da Itália na OTAN);

– Nathalie Tocci (diretora do Instituto de Assuntos Internacionais da Itália e assessora especial da Alta Representante da UE para Relações Internacionais e Segurança, Federica Mogherini);

– Erich Vad (general retirado do Exército alemão, ex-diretor de Política Militar da Chancelaria Federal alemã e professor das universidades de Munique e Salzburgo);

– Ruslan Grinberg (diretor científico do Instituto de Economia da Academia Russa de Ciências);

– Igor Yurgens (presidente do conselho do Instituto de Desenvolvimento Contemporâneo e vice-presidente da União Russa de Industriais e Empresários); e

– Klaus Wittmann (general retirado do Exército alemão e pesquisador sênior do Instituto Aspen na Alemanha).

Um documento anterior, “Gerenciando a Paz Fria entre a Rússia e o Ocidente”, de julho de 2017, estabeleceu: “Que as nossas lideranças políticas e militares devem aceitar que uma guerra entre a Rússia e a OTAN não pode ser vencida e não deve jamais ser travada, e que quaisquer tentativas de se atingirem objetivos políticos por ameaças ou pelo uso da força seriam fúteis. Elas devem reconhecer o grave risco de uma relação de dissuasão não administrada e não regulada, na qual é mais provável que ocorra uma escalada não intencional.”

O documento recente afirma a intenção de

injetar um novo pensamento sobre como a Rússia e a OTAN poderiam coexistir com segurança, nos anos vindouros, e como isto poderia resultar em uma melhoria da segurança na Europa. Dado que, atualmente, não existe um diálogo OTAN-Rússia organizado e orientado para resultados, necessita-se de um entendimento compartilhado sobre as bases da relação atual que poderiam não apenas reduzir os riscos, mas também permitir que todas as partes façam progressos em assuntos específicos, no Conselho OTAN-Rússia, na OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa] e em cenários ad hoc e bilaterais.

O texto descreve nove elementos para essa cooperação futura, inclusive a “reafirmação da linguagem do Ato Fundador e da Declaração de Roma, de que o Conselho OTAN-Rússia permanecerá sendo ‘a principal estrutura e âmbito’ das consultas entre a OTAN e a Rússia, ‘em tempos da crise e de qualquer outra situação que afete a paz e a estabilidade’”.

Outros elementos são: o compromisso de trabalhar construtivamente para a solução dos conflitos existentes na Europa, com prioridade para o estabelecimento de uma missão de manutenção da paz das Nações Unidas no Leste da Ucrânia; o compromisso de contenção militar e estrita suficiência em atividades, exercícios e deslocamentos militares, nas esferas convencional e nuclear, ao longo das fronteiras OTAN-Rússia; e o estabelecimento de canais para contatos militares regulares e de emergência entre as lideranças militares da Aliança e da Rússia.

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