Munique 2013: muita discussão – e confusão – sobre o futuro do planeta

A 49ª. Conferência sobre Segurança de Munique, realizada em 1-3 de fevereiro, foi a maior edição do encontro em toda a sua história. De fato, o evento contou com a presença de mais de 400 políticos e especialistas provenientes de todas as partes do globo, além de cerca de 700 jornalistas. Mas o que costumava ser uma reunião de especialistas em defesa e segurança que gravitavam em torno da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com a finalidade de definir as principais questões e potenciais soluções por vias “não-diplomáticas”, viu a sua dinâmica mudar totalmente este ano: desta vez, a “cena pública” parece ser muito mais importante que outrora. Com efeito, pode-se dizer que isso se refletiu na falta de debates profundos – com a possível exceção de alguns encontros privados nos bastidores.

Dentre os assuntos que não foram debatidos em Munique, destacou-se a questão israelense-palestina, como bem observou o chanceler brasileiro Antonio Aguiar Patriota, no painel sobre “As potências emergentes e a governança global”. Naturalmente, o destaque foi para o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, que proferiu um belicoso discurso, qualificando o Irã como um “Estado terrorista”. Além disto, ameaçou a Síria, lembrando que qualquer um poderia ler na mídia internacional o que Israel havia feito neste país vizinho, duas semanas antes (em referência ao ataque aéreo contra instalações governamentais sírias), mas afirmando que nada tinha a acrescentar sobre tal episódio. Barak ainda comparou, pateticamente, a situação atual do Oriente Médio com a do “fim do Império Otomano” (!) – o que, em linguagem simples, significa que as fronteiras árabes estariam em disputa -, e declarou que o Estado de Israel está determinado a desempenhar o papel de “estraga-festas” no grande jogo que definirá o destino da região.

Em uma coletiva de imprensa dada por um especialista alemão na área de defesa, à qual esta autora compareceu após a conferência, muitas preocupações foram expressadas, em termos do que realmente está ocorrendo, em contraste com a pauta da grande mídia internacional. Este especialista falou sobre uma “nova qualidade de desafios e uma quantidade de focos de crises emergentes ao redor do globo, em uma escala jamais vista antes”. Em particular, afirmou que a Primavera Árabe não se transformou em uma “primavera”, mas deixou o mundo muçulmano em alvoroço.

Estranhamente, a guerra no Afeganistão não foi sequer abordada nos debates realizados em Munique, a despeito do fato de o país ser o palco da retirada das tropas da Força Internacional de Assistência para a Segurança (ISAF), que deverá ser concluída até o final de 2014. Enquanto a França já se retirou prematuramente, ainda não está claro como será a remoção do restante das tropas da força da OTAN. A Rússia ofereceu ajuda para a retirada dos efetivos da ISAF, mas ainda não foi decidido quantos militares permanecerão no país. Além disso, permanece aberta a questão do que poderá acontecer quando as tropas saírem: Haverá um vácuo de poder? O que farão os talibãs? E o que poderá acontecer no Paquistão, uma potência nuclear onde uma nova geração de oficiais ostensivamente antiocidentais está chegando ao poder?

A mídia destacou o diálogo EUA-Rússia, na conferência, com relação à Síria e ao Irã. Todavia, a realidade, como destacou o especialista alemão, é a que foi claramente colocada pelo negociador oficial sírio, Lakhdar Brahimi: enquanto o Conselho de Segurança das Nações Unidas permanecer dividido como está, com a Rússia e a China se opondo ao intervencionismo dos países ocidentais, qualquer solução militar contra a Síria será “categoricamente excluída”. Na mesma ocasião, foi relatado que o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, definiu que a linha vermelha para a Rússia, com relação à guerra civil síria, é se armas químicas caírem nas mãos de terroristas. O representante russo destacou, ainda, que os grupos de oposição sírios são muito “heterogêneos”.

A verdadeira estrela midiática em Munique, contudo, foi o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que fez um discurso bastante otimista. A sua mensagem principal foi: a Europa é um “parceiro indispensável” dos EUA. Com relação ao Irã, declarou que ainda há um espaço para a diplomacia, que deve ser auxiliada com pressões, de modo a ser bem sucedida. Ele afirmou, ainda, que a bola está com o governo iraniano e que Teerã deve adotar uma abordagem de verdadeira boa-fé para as negociações com o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e a Alemanha).

Com relação à Rússia, Biden afirmou que “continuamos a enxergar oportunidades para parcerias entre os EUA e a Rússia, de modo a fazer avançar os nossos interesses mútuos em garantir a segurança da comunidade internacional”. Igualmene, ele destacou que, ao mesmo tempo, países como o Brasil, a Índia, a China, a África do Sul e a Indonésia continuarão desempenhando um papel cada vez maior em termos de segurança global e em questões econômicas mundiais, enquanto a Ásia tende a crescer em importância para a política externa dos EUA.

Vale ressaltar que, durante um painel sobre energia, na conferência, destacou-se com euforia que os EUA, com a sua nova tecnologia de extração de gás e petróleo conhecida como fracking, estão prontos para viver uma nova renascença industrial, baseada em recursos energéticos baratos, os quais deverão, em última análise, alterar o equilíbrio geoestratégico do mundo.

Uma política externa pragmática 

Na mesma sessão na qual esta autora esteve presente, percebeu-se que, embora os pronunciamentos do ministro da Defesa alemão, Thomas de Maizière, e de seu colega das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, não tenham soado de forma espetacular, ambos esclareceram que a Alemanha deseja ter “uma abordagem pragmática e realista em suas relações exteriores, de modo a serem baseadas em meios político-civis e militares”. Westerwelle, por exemplo, enfatizou um contundente apoio ao estabelecimento de uma “zona de segurança euroatlântica, estendendo-se de Vancouver a Vladivostok”.

Segundo ele, a Alemanha deseja “fortalecer a cooperação com a Rússia na área de segurança, por meio da cooperação em sistemas de defesa antimísseis. Desejamos trabalhar com a Rússia em um mundo livre de armas nucleares, com base em negociações de controle e de maior transparência com relação aos arsenais táticos e estratégicos de armas nucleares”. A Alemanha, disse, deseja ampliar o bem-estar com a Rússia, por meio de um espaço econômico comum, e não por meio da competição. “Queremos a Rússia como uma parceira”, afirmou.

Um interessante reflexo de tais afirmações foi dado tanto Lavrov quanto pelo vice-ministro da Defesa russo, Anatoly Antonov, que destacou o interesse de seu país em cooperar com a Europa. Antonov também recordou que a Rússia não só sediará a cúpula do G-20 este ano, como também organizará, em maio, um fórum para debater aspectos da defesa europeia e da cooperação neste campo com a Rússia, com a participação dos ministros da Defesa e de representantes da comunidade científica do bloco europeu.

“Capitalismo do Reno”

Vale destacar que este foi o primeiro ano em que foi organizado um painel econômico na Conferência de Munique, agendado para servir de introdução ao próprio evento, sob o título “A crise do euro e o futuro da União Europeia”. O painel foi moderado por Robert B. Zoellick, ex-presidente do Banco Mundial e um conhecido “eurocético”. Todavia, o mais notável no painel foi a “unidade” de espírito observada entre o líder do Partido Social-Democrata alemão (SPDl), Frank-Walter Steinmeier, e o representante da União Democrata-Cristã (CDU) e ministro da Fazenda, Wolfgang Schäuble (seria uma antecipação de uma possível grande coalizão para as eleições do próximo outono?).

Ambos participaram no painel, com o ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel García-Margallo y Marfil, o presidente da Lituânia, Dalia Grybauskaite, e Anshu Jain, copresidente do Deutsche Bank. Com exceção de Jain, os representantes europeus fizeram um chamado pela unidade europeia, qualificando o bloco como a “região de maior crescimento no mundo, cujo modelo é baseado em repassar o maior montante em relação ao PIB para a aplicação em gastos sociais”.

Tanto Schäuble quanto Steinmeier rechaçaram contundentemente o discurso de Jain, que expressou um profundo “euroceticismo” em sua exposição, na qual exaltou os EUA e a Ásia, ao mesmo tempo em que recomendava à Europa que se engaje nas reformas do mercado de trabalho, além de criar mais empregos no setor de serviços. Schäuble, por sua vez, disse que, na Alemanha, “temos uma economia baseada na parceria social e não há razão para abandonarmos o modelo chamado ‘capitalismo do Reno'”. Há dez anos, afirmou, certas pessoas do mundo anglo-saxão lhe disseram que a Alemanha deveria transferir a produção para o Leste Europeu e se concentrar no setor de serviços da economia. Todos os que afirmavam tais ideias se mostraram errados, ressaltou: mesmo em termos absolutos, a produção industrial alemã caiu de 32% para 24% do PIB, o que ainda é maior que os 10% registrados tanto na Grã-Bretanha quanto na França. A mensagem de ambos: em vez de migrar para o setor de serviços, devemos ampliar a produção da Europa, bem como a inovação.

Steinmeier, assim como seu colega espanhol, mostrou-se bastante crítico com relação ao desemprego entre os jovens na Europa, o qual atinge mais de 50% em países como a Espanha e a Grécia. Para ele, o que é necessário para solucionar tal questão é um maior tempo para a implementação de reformas. Este período terá que ser o necessário para superar o “euroceticismo” e desenvolver uma visão econômica comum. Cerca de 60% das exportações alemãs têm como destino países da UE e apenas 6% são destinados à China. A Europa não pode ser um “modelo de elite”, mas precisa estar aberta, em termos de mercado social, para criar empregos realmente produtivos, de modo a resolver a crise das dívidas dos seus Estados membros de maneira razoável.

O futuro papel dos BRICS

Outro fato notável em Munique foi o de que, pela primeira vez, foi organizado um painel sobre os BRICS, o qual contou com a presença de Song Tao, vice-ministro das Relações Exteriores da China, Shivshankar Menon, assessor de Segurança Nacional da Índia, Antonio de Aguiar Patriota, ministro das Relações Exteriores do Brasil, e Ng Eng Hen, ministro da Defesa de Cingapura (país que não integra o grupo). Além disto, foi a primeira vez que o evento contou a presença de um representante oficial da América Latina. Nos debates, ficou claro que as potências emergentes representarão 50% do PIB mundial nos próximos 50 anos e que, enquanto o Ocidente está em declínio, uma “nova ordem política mundial” está se desenvolvendo. Tanto o ministro chinês como o brasileiro deixaram claro que estas potências emergentes terão um papel decisivo em questões mundiais importantes, tais como os mercados financeiros globais, a economia mundial, a crise estratégica, a segurança alimentar e o debate climático.

Patriota fez um contundente chamado pela “colaboração multilateral em prol de meios pacíficos, de modo a estabelecer uma nova ordem mundial”. Ele observou ainda que, enquanto os EUA continuarão a exercer um papel de destaque e a Europa ainda está na defensiva, a chave para a configuração futura da política mundial é “a cooperação multilateral”, com os BRICS se tornando uma “plataforma importante”. “Se cooperarmos na comunidade internacional com a paz e a segurança, precisamos construir pontes e superar obstáculos. Além disso, desejamos que o Brasil, que é pacífico e não possui armas de destruição em massa, se torne um membro do Conselho de Segurança da ONU. Esse seria um sinal significativo para avançar rumo a uma nova ‘ordem política mundial'”.

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