Mudança de fase na Rússia: aumentam os "mal entendidos" no Ocidente

Ao longo dos últimos meses, as relações entre a Rússia e o Ocidente têm sido caracterizadas pelo aumento dos “mal entendidos” e por uma crescente brecha ideológica. A razão para isto são as diferenças de percepção de interesses estratégicos entre os dois lados, aí incluídos o conflito na Síria, as controvérsias na Europa Oriental, envolvendo os planos dos EUA de estacionar sistemas de defesa antimísseis na região, a estagnação nas relações entre Barack Obama e Vladimir Putin e, não menos, a crise econômico-financeira que se arrasta desde 2008.

Vinculada a tais problemas, está a atitude de reflexos condicionados dos países ocidentais frente à crise da eurozona (sendo o exemplo mais recente o caso do Chipre). Ao mesmo tempo em que a Rússia se dá conta de que as coisas não vão bem no bloco europeu, tais desdobramentos têm cobrado um alto preço à nação eurasiática. No seu mais recente relatório, de março deste ano, o Banco Mundial reduziu as perspectivas de crescimento econômico do PIB russo em 0,3%, estabelecendo uma projeção de 3,3% para 2013. De acordo com o documento, a situação dos negócios russos no estrangeiro é pior do que se esperava. Entre os fatores que contribuem para isto estão os preços do petróleo, a inflação em curso e a redução no consumo. Afirmativas similares foram feitas pelo ministro da Fazenda russo, Alexei Kudrin, que, em recente conferência, disse que o PIB russo deve declinar. “Um crescimento abaixo de 3% significará estagnação, um atraso em relação à economia mundial”, afirmou ele, afirmando que que o país “está chegando perto desse ponto”.

No cenário de fundo, vale refletir sobre algumas observações feitas a esta autora por um bem informado especialista que conhece de perto a psicologia e o humor da população russa. Um ano após a eleição que deu a Putin o seu terceiro mandato presidencial, a elite russa e a liderança do país estão “inseguras”, incapazes de oferecer uma perspectiva “nova e refrescante” para a sociedade e de despertar um novo estado de ânimo. Este especialista identifica uma certa “reação formada” diante do Ocidente, a qual, de um lado, é determinada pelo crescimento da frustração com a liderança, relativa às críticas permanentes dos ocidentais contra a Rússia – em especial sobre os supostos “déficits democráticos russos” -, bem como a ausência de aplicação dos padrões ocidentais de direitos humanos. Por outro lado, tal reação tem bases profundas e, entre outros motivos, tem a ver com o fato de que a esperada catástrofe “que ocorreria em um curto prazo na eurozona” não se concretizou até o momento. Neste momento, segundo ele, a Rússia se vê no lado “perdedor”.

Enquanto a elite carece de um motor criativo, a oposição, por sua vez, tem falhado em produzir qualquer figura de liderança e não tem condições de oferecer qualquer alternativa política razoável.

O dilema russo, diz o especialista, se reflete em dois sérios problemas que confrontam o país: um grande declínio demográfico e o crescimento do islamismo na sua fronteira sul. A cada ano, a população russa está declinando em cerca de um milhão de habitantes – equivalente a uma cidade média. Tal fenômeno se agrava ainda mais com o crescimento da migração, em especial, com a saída de russos do norte do Cáucaso. Quanto ao avanço islâmico, o que dificilmente é noticiado no Ocidente são as atividades financiadas por organizações wahabitas, principalmente da Arábia Saudita, para promover o radicalismo islâmico na região. Tais ações incluem ataques diários de militantes contra islamistas moderados, muitos dos quais trabalham em cidades como São Petersburgo e Moscou. Regiões mais pobres, como a Inguchétia e o Daguestão, são alvos preferenciais dessas ações de desestabilização.

Nem Putin, nem qualquer outro membro da elite política russa parecem inclinados a preencher o vácuo intelectual presente na sociedade russa com um discurso vivo. Além disto, as elites russas estão cada vez mais se afastando do Ocidente e reorientando a sua atenção para a Ásia, de modo a aprofundar as suas relações com os países orientais. Um indicativo disto foi a recente visita de Estado do novo presidente chinês Xi Jiping a Moscou, no final de março, que resultou na assinatura de projetos de cooperação militar, econômica e energética de amplo alcance. A Rússia precisa da China, em especial para o desenvolvimento da Sibéria – que tem sido caracterizada como uma “região implosiva” (em termos de densidade populacional) – e do seu Extremo Oriente. Todavia, as relações bilaterais têm sido menos determinadas pela amizade do que por interesses pragmáticos. A forma como os dois países trabalham juntos foi demonstrada na última cúpula dos BRICS, realizada na África do Sul, onde se decidiram vários acordos de cooperação econômica e monetária intrabloco.

Alemanha, o parceiro mais importante da Rússia

A despeito de tudo isso, estima-se que a cooperação entre a Rússia e a Alemanha continue sendo um elemento chave na atual configuração geopolítica da Europa. Porém, nos últimos tempos, têm aumentado o coro dos alemães “detratores da Rússia”. De fato, tem ocorrido uma série de ataques contra especialistas e funcionários do Ministério das Relações Exteriores alemão, criticados por serem muito “amigáveis” para com Moscou. Um exemplo são os ataques perpetrados pelo jornal Die Zeit, que, no final de março, fez duras críticas ao especialista em relações germano-russas Alexander Rahr, diretor de pesquisas do Centro Berthold Beitz da Sociedade Alemã de Política Exterior (DGAP, na sigla alemã) e consultor da companhia energética alemã Wintershall. Em comentários ostensivamente preconceituosos, o colunista Jörg Lau atacou Rahr por ser muito “benevolente” com Putin e muito “crítico” e “arrogante” com relação aos países ocidentais, ao acusá-los de querer impor o seu “modelo de democracia” à sociedade russa. Igualmente, críticas pesadas têm sido feitas contra o ex-ministro da Fazenda Peer Steinbrück, candidato do Partido Social Democrata (PSD) à chancelaria nas eleições de setembro próximo, que identifica a Rússia como uma “parceira” importante, afirmando que o critério ocidental de “democracia pluralística” não pode ser imposto à Rússia de forma direta.

Tais ataques ideologicamente motivados por parte da mídia alemã têm tido lugar em concomitância com o desmantelamento sistemático da expertise acadêmica alemã sobre a Europa Oriental. Em um artigo publicado no início de março, no Frankfurter Allgemeine Zeitung, intitulado “Negligência – como a Alemanha está perdendo a sua competência científica na Europa Oriental”, o jornalista Reinhard Veser descreveu o perigo de que, no futuro, não haja mais nenhuma excelência alemã e clareza analítica com relação à Rússia e à Europa Oriental em geral. Sobre a base de uma tradição de mais de um século, os especialistas em Europa Oriental, necessários para julgamentos políticos equilibrados sobre a diplomacia, têm visto as verbas destinadas às suas pesquisas serem sistematicamente reduzidas. No artigo, Veser cita ainda um diplomata que chefia o Departamento para a Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia do Ministério das Relações Exteriores, que concordou com que o nível da percepção analítica sobre a Eurásia, na Alemanha, tem sofrido um significativo declínio nos últimos anos e que a questão é o que o país pode fazer para evitar a perda de todo o conhecimento acumulado sobre a região.

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