Mikhail Gorbatchov aos 90: a mudança da história mundial

Neste momento, os europeus experimentam um período de profunda ansiedade, causado pela pandemia de Covid-19 e pela escalada das tensões estratégicas entre os Estados Unidos, Rússia, China e Europa. Sob esta ótica, devem-se revisar os últimos 30 anos de História, em particular, a história da reunificação da Alemanha em 1990 e o fim do comunismo na União Soviética e na Europa Oriental como um todo. Os principais arquitetos do surgimento da “Nova Ordem Mundial” foram personalidades notáveis, ​​como o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov e o chanceler alemão Helmut Kohl, que conseguiram abrir o capítulo mais fascinante da História desde o final da Segunda Guerra Mundial.

O crescente oportunismo político e a obsessão de alguns políticos alemães aferrados às pesquisas eleitorais (em especial, com os “likes” e “dislikes” nas redes sociais) deveriam ser comparados às atitudes dos líderes políticos que moldaram os processos históricos da década de 1990. Apesar de suas muitas falhas e erros políticos, Mikhail Gorbatchov foi a peça-chave para mudar a história europeia e é hoje um dos mais respeitados líderes mundiais vivos. Por ocasião do seu nonagésimo aniversário, em 2 de março último, ele recebeu uma homenagem e foi sujeito de uma entrevista bastante comovente de um amigo próximo, Horst Teltschik, ex-assessor de política externa do chanceler alemão Helmut Kohl (1982-1998). A sua ênfase principal foi sobre o fato de Gorbatchov ter sido quem deu a luz verde para a reunificação alemã e quem trouxe a paz à Europa, ao iniciar uma série de inovadores processos de desarmamento, que ajudaram a afastar o espectro da guerra nuclear, naquele momento.

Coincidindo com a ocasião, foi lançada uma nova biografia escrita pelo documentarista Ignaz Lozo, Gorbatschow. Der Weltveränderer (Gorbatchov: o homem que mudou o mundo, WBG Theiss, 2021). O livro é baseado em várias entrevistas que do autor com Gorbatchov nos últimos 28 anos e inclui material baseado em entrevistas e discussões com alguns dos principais arquitetos da reunificação alemã, entre eles o ex-ministro das Relações Exteriores alemão, Hans-Dietrich Genscher, o ex-secretário de Estado dos EUA, James Baker e outros, além de ensaios, discursos e material de arquivo.

Por que deveríamos ser gratos

Em uma entrevista publicada em 2 de março, no sítio t-online, Teltschik, que esteve diretamente envolvido nos eventos da reunificação, enfatizou que os alemães, em especial, devem recorder com gratidão a contribuição de Gorbatchov. Teltschik lembrou (como Lozo descreve em detalhe em seu novo livro) que antes de Gorbatchov chegar ao poder, em março de 1985, como secretário-geral do Partido Comunista soviético, seus três antecessores, Leonid Brezhnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko, haviam contribuído para uma deterioração significativa da situação econômica da URSS, que tentaram contornar com uma política de rearmamento e um impulso para a guerra nuclear.

Em novembro do mesmo ano, recorda, houve a primeira reunião de cúpula entre Gorbatchov e o presidente estadunidense Ronald Reagan, em Genebra: “Este não foi apenas o início de uma importante cúpula diplomática entre as duas potências mundiais… foi também a primeiro sinal para a retomada das negociações de desarmamento e controle de armas entre duas potências mundiais. Isto levou aos acordos de desarmamento e controle de armas de maior alcance da História. 80% de todas as armas nucleares foram desarmadas de forma controlada.”

À luz da atual corrida por armas nucleares, impulsionada por potências nucleares como a China, Índia, Coreia do Norte e Irã (este ultimo, no limiar de construí-las), ele pergunta: “Hoje, quem toma iniciativas para uma nova rodada de desarmamento e negociações de controle de armas?”

Teltschik ressaltou que foi Gorbatchov quem mudou as relações com os seus aliados no Pacto de Varsóvia, ao anunciar que, no futuro, eles seriam os únicos responsáveis ​​pelo desenvolvimento das suas nações e que ele não interferiria mais, como haviam feito os seus antecessores (a exemplo da repressão de Brejnev à Primavera de Praga, em 1968). Quando a Polônia se tornou democrática, os soldados soviéticos permaneceram em seus quartéis, lembra Teltschik. Este foi também o caso em 1989, quando o então primeiro-ministro húngaro Miklós Németh abriu as fronteiras do país para dezenas de milhares de refugiados da Alemanha Oriental que estavam na Áustria. As suas ações foram baseadas em negociações secretas que ele havia conduzido antes com Gorbatchov. Quando houve manifestações em massa em Berlim Oriental e quando o Muro de Berlim caiu, lembra Teltschik, “380 mil soldados soviéticos estacionados na Alemanha Oriental permaneceram em seus quartéis”.

Ao final dos quatro anos acertados com Gorbatchov, recorda, “500 mil militares russos estacionados na Europa Central, Hungria, Checoslováquia e Polônia, inclusive 380 mil na Alemanha Oriental, com 180 mil familiares e todo o seu equipamento militar (680 mil toneladas de munição, incluindo armas nucleares) voltaram pacificamente para a URSS”.

A política de Gorbatchov da Glasnost (transparência) e Perestroika (reformas) visava a acelerar as reformas econômicas e dar mais transparência política ao regime soviético. Ele foi pessoalmente responsabilizado pela dramática crise econômica e de abastecimento da década de 1990 e pela dissolução da URSS, que, segundo Teltschik, “Gorbatchov nunca quis. Foi seu sucessor Boris Yeltsin que teve total responsabilidade por isso”. De acordo com ele, durante o processo de unificação alemã, Kohl fez tudo o que pode, em âmbito nacional e internacional, para apoiar a política de reformas de Gorbatchov: “Em 1990, mais de 1 bilhão de marcos alemães em alimentos e outros suprimentos foram entregues, bilhões em empréstimos garantidos, bem como acomodações foram feitas para o retorno dos soldados soviéticos.”

Os atuais críticos de Gorbatchov devem levar em conta que “depois de 70 anos de má gestão comunista, ele não tinha os especialistas políticos e econômicos que pudessem definir a democracia e a economia de mercado e colocá-las em prática operacionalmente”. Havia muitos assessores estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos, “mas, muitas vezes eles apenas contribuíam para gerar mais confusão, uma vez que definiam prioridades diferentes”.

Para Teltschik, foi graças a Gorbatchov que uma unificação pacífica dos dois Estados alemães foi possível. “Nenhum tiro foi disparado e a Europa se unificou”, disse ele. “Nenhum muro ou cerca está separando a Europa e o conflito geral Leste-Oeste foi encerrado.”

Gorbatchov tinha a visão de uma “casa europeia comum”, com a mesma garantia de segurança para todos os seus habitantes. Esta visão foi expressa na Carta de Paris para uma nova conferência europeia, que, em novembro de 1990, foi assinada por 34 chefes de Estado e de governo dos Estados membros da Comissão para Segurança e Cooperação na Europa (CSCE): “Esta Carta definiu os princípios de como uma ordem de paz europeia universal de Vancouver a Vladivostok deveria ser moldada. Acordos institucionais foram feitos para fazer o acompanhamento de tudo isso. Conferências de revisão em diferentes níveis foram acertadas.”

Teltschik enfatizou que, “com o presidente Gorbatchov, tivemos um entendimento muito próximo e até amigável. E quando o presidente Vladimir Putin fez um discurso no Parlamento Federal Alemão (2001), ele foi aplaudido de pé. Ele falou sobre a Rússia como um país europeu amigo. Ele tentou construir pontes e havia de fato uma perspectiva positiva para o relacionamento alemão-russo com Putin”.

Para ele, é possível, que a criação de uma zona de livre comércio bastante realista, de Lisboa a Vladivostok, poderia ter evitado o conflito com a Ucrânia. “Em vez disto, hoje só se falam de sanções.” Teltschik está convencido de que deveria ter havido mais discussões sobre “iniciativas comuns”. São necessárias mais medidas de construção de confiança em direção ao controle de armas de desarmamento e cooperação militar, “visto que enfrentamos um novo processo de rearmamento”.

Recordando as grandes mudanças sob Gorbatchov

A biografia de Ignaz Lozo traz um perfil detalhado de Gorbatchov, desde a sua infância até chegar a secretário-geral do Partido Comunista e presidente da URSS. O livro tenta dar uma resposta ao paradoxo de como um leal leninista e comunista, que até o último momento de seu mandato presidencial acreditou nos princípios de um socialismo “reformável”, mudou seu pensamento político, abrindo caminho pelas grandes realizações históricas na Alemanha e no resto da Europa durante os anos 1990. Em particular, Lozo descreve vivamente as discussões em Moscou e no Norte do Cáucaso, em julho de 1990, entre as delegações russa e alemã, que levou ao acontecimento histórico da reunificação alemã, também chamado o “Milagre do Cáucaso”.

Entre os dias 14 e 16 de julho de 1990, a História foi reescrita para a Alemanha e para o mundo inteiro. Os líderes, Gorbatchov e Kohl, se encontraram em uma dacha no pequeno vilarejo caucasiana de Archys, hoje habitado por não mais que 600 habitantes. Em reuniões anteriores, Gorbatchov e Kohl trocaram memórias sobre o terror e as adversidades que ambos viveram durante a Segunda Guerra Mundial. Quando Hitler invadiu a URSS, Gorbatchov tinha dez anos e Kohl, 11. Esta experiência comum da infância conectava intimamente as duas personalidades. Foi originalmente Gorbatchov que, durante sua visita a Bonn, em junho de 1989, convidara Kohl para visitar Stavropol, onde Gorbatchov começou a sua carreira política após estudos de Direito e Ciências Agrícolas.

Dada a economia em rápido colapso e a implosão da sociedade, com lojas vazias e a insatisfação popular em alta, com numerosas greves e protestos, em julho de 1990, o objetivo de Gorbatchov era principalmente conseguir uma ajuda de curto prazo, aliviar a miséria doméstica e conquistar um parceiro econômico de longo prazo. Os resultados da reunião de verão foram impressionantes. Segundo Lozo, a “estrutura do pós-guerra, a Guerra Fria, tudo o que estava ligado ao pensamento soviético parecia obsoleto, e um novo período foi anunciado, um tempo de cooperação e até de amizade”. Na cúpula da OTAN em Londres, em 5-6 de julho, a organização afirmou que o confronto entre os dois blocos havia terminado e anunciou uma nova estratégia militar, bem como “novos planos militares, que levam em consideração as mudanças revolucionárias na Europa”.

Em Londres, o presidente estadunidense George H.W. Bush declarou solenemente: “Estou feliz em anunciar que meus colegas e eu começamos uma grande reestruturação da OTAN e consideramos isso uma guinada histórica. A declaração de Londres molda a relação com nosso antigo inimigo de uma nova maneira. A nossa aliança estende a sua mão na amizade com os governos que durante a Guerra Fria estavam nos confrontando.”

Em 14 de julho, a delegação de Bonn chegou a Moscou, onde as negociações foram iniciadas no dia seguinte. As duas discussões entre Gorbatchov e Kohl foram acompanhadas pelos seus respectivos conselheiros, Horst Teltschik e Anatoly Chernyaev. Em suas memórias, Kohl escreveu ter dito a Gorbatchov que eles viviam o limiar de anos historicamente significativos e que, quando uma ocasião dessas surge, a oportunidade não pode ser desperdiçada. Na ocasião, Gorbatchov afirmou que uma Alemanha reunificada poderia ser membro da OTAN e, de acordo com o protocolo, ele repetiu esta declaração mais uma vez. Em uma entrevista coletiva posterior, em Moscou, ele evitou falar sobre o assunto e apenas declarou que “tudo está em movimento”.

De Moscou, as delegações viajaram a Stavropol, no Norte do Cáucaso. Ali, em 1955, Gorbatchov havia começado a sua carreira política aos 24 anos, como um organizador ativo do PC-URSS e especialista em agricultura. No monumento em homenagem aos mortos na guerra, Gorbatchov e Kohl foram cercados por centenas de cidadãos, entre eles muitos veteranos, um dos quais fez um apelo a Gorbatchov e Kohl, para que fizessem de tudo para que “alemães e soviéticos se tornassem parceiros” e não causassem mais sofrimento aos seus países.

No pequeno vilarejo de Archys, com seus respectivos assessores, Gorbatchov e Kohl tiveram a oportunidade de fazer caminhadas em um ambiente muito descontraído, enquanto era preparada a agenda de negociações. Na ocasião, Kohl falou sobre um “grande tratado”, incluindo uma cooperação de longo prazo entre a URSS e a Alemanha, especialmente, na área econômica. Das negociações, resultou a soberania de toda a Alemanha e, com relação à retirada das tropas soviéticas da Alemanha Oriental, concordou-se com um prazo entre três e quatro anos. Para Gorbatchov, Archys tornou-se “um símbolo singular da reunificação alemã em solo soviético. Neste ambiente maravilhoso, estabelecemos a unidade da Alemanha”.

Em 16 de julho, na cidade de Mineralnye Vody, antes da partida da delegação alemã, Kohl e Gorbatchov se dirigiram à imprensa mundial. Gorbatchov pediu a Kohl para iniciar a entrevista coletiva. “A Alemanha reunificada pode decidir livremente sobre sua soberania, se e a qual aliança deseja aderir. Declarei, como conceito de governo para uma Alemanha reunificada, que uma Alemanha reunificada quer ser membro da Aliança Atlântica e estou certo de que isto também corresponde à intenção do governo da RDA [Alemanha Oriental]”, disse ele. Gorbatchov, por sua vez, enfatizou que o Pacto de Varsóvia dera o primeiro passo com a mudança da sua doutrina militar, destacando que “o que aconteceu em Londres (cúpula da OTAN) foi o início de um novo desenvolvimento histórico”. Na despedida, Gorbatchov disse à delegação que a visita foi “o evento internacional mais importante relacionado com mudanças fundamentais na política europeia e mundial”.

Encontrando uma solução para o paradoxo histórico

Dois meses e meio após a queda do Muro de Berlim (10 de novembro de 1989), Gorbatchov desistiu do princípio de dois Estados alemães. Lozo relata que, em 26 de janeiro de 1990, em seu escritório no prédio do Comitê Central, com seis pessoas presentes, foi tomada a decisão em favor de uma Alemanha reunificada, mantida em segredo por duas semanas. Na reunião, Gorbatchov ordenou que fosse elaborado um plano de retirada do Exército Soviético da Alemanha Oriental. Ele esperava que os cidadãos da RDA desejassem um “socialismo renovado”, mas a maioria queria mesmo a reunificação. Como disse, em uma entrevista a Lozo, o conselheiro de Gorbatchov, Anatoly Chernyaev: “Esta foi a chave para a mudança de Gorbatchov.”

A queda da União Soviética

Um grande erro de Gorbatchov – como Lozo observa em seu livro várias vezes – foi ter promovido Boris Yeltsin. Posteriormente, ficou claro que Yeltsin fizera de tudo para minar a autoridade de Gorbatchov até a sua renúncia, no final de dezembro de 1991. O populismo de Yeltsin provocou ações como o estranho levante de agosto 1991, com tanques rolando em frente à Casa Branca, o Parlamento russo. O golpe, que forçou a decretação do estado de emergência, foi secretamente encenado por militares linha-duras e oponentes de Gorbatchov dentro do governo. Durante o motim, Yeltsin se apresentou como um lutador heroico pela liberdade contra os conspiradores golpistas, enquanto Gorbatchov era mantido preso com sua família, na Crimeia, sem comunicação com Moscou. Mesmo com o golpe sufocado, Gorbatchov permaneceu totalmente na defensiva, sendo confrontado com uma crescente agitação dentro da URSS, nos Estados Bálticos, um conflito entre Armênia e Azerbaijão, um levante em Tiflis, protestos em massa e greves.

Embora o objetivo de Gorbatchov fosse preservar o Estado Federal e obter um novo Tratado da União, Yeltsin queria uma aliança de Estados. Em 7 de dezembro, Yeltsin, Stanislav Shushkevich (Bielo-Rússia) e Leonid Kravchuk (Ucrânia) se encontraram secretamente na Villa Viskuli, perto de Brest. Gennadi Burbulis, vice-primeiro-ministro da República Soviética da Rússia, declarou na ocasião que os “três parceiros do tratado declaram que a União Soviética, como sujeito de direito internacional e como realidade geopolítica, deixou de existir”. As três repúblicas deram a ordem de elaborar o tratado de fundação da Comunidade de Estados Independentes (CEI). Em 8 de dezembro, os três líderes assinaram o documento histórico e, na mesma noite, chamaram o presidente estadunidense George Bush e também Gorbatchov, que renunciou em 25 de dezembro. Sob a presidência de Yeltsin, teve início uma era de caos e anarquia, no qual a espinha dorsal da indústria soviética foi vendida a oligarcas.

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