MH17: "Guerra Fria midiática"

A conduta majoritária da mídia ocidental na cobertura da tragédia do voo MH17, em particular, e na crise da Ucrânia, em geral, corresponde a um cenário de reencenação de uma Guerra Fria. Na grande maioria dos jornais e redes de televisão, na Europa e nas Américas – Brasil inclusive -, são escassos os vestígios de objetividade e isenção jornalística na descrição e na análise dos fatos. Desde as primeiras horas da queda do avião, os dedos acusatórios foram apontados na direção de Moscou e do presidente russo Vladimir Putin, responsabilizado de forma direta ou indireta pelo ocorrido. E, a julgar pelas manchetes e editoriais, em vários países, as redações estão atuando sob uma orientação que emana diretamente de certos gabinetes oficiais de Washington e Londres, onde se abrigam os funcionários governamentais que representam as facções mais belicistas do Establishment anglo-americano. Entre elas, considerando os editoriais e matérias de capa dos últimos dias, as dos brasileiros O Globo e O Estado de S. Paulo e a revista Veja – o que evidencia a absoluta ausência de “liberdade de imprensa”, em uma mídia controlada por meia-dúzia de famílias oligárquicas umbilicalmente comprometidas com a agenda hegemônica anglo-americana, mergulhada numa crise profunda.

Na sexta-feira 18, o insuperável tabloide inglês The Sun proclamava, na primeira página: “O míssil de Putin.” Ao mesmo tempo, a indefectível rede Fox News divulgava uma série de notas acusatórias, com títulos como “Ocidente aponta os pró-russos pela derrubada do MH17 e a Rússia pelo seu apoio”, “Embaixadora na ONU não descarta possível papel da Rússia no MH17”, “Será Obama capaz de dar à Rússia um ‘choque ao sistema’?”, e outras do gênero. Na BBC, Deutsche Welle, CNN, Al-Jazira e outras, o tom da cobertura foi semelhante,

No Brasil, a Veja, que começou a ser entregue aos assinantes ainda no sábado 19, foi na mesma linha do Sun, com uma matéria de capa que não exprimia qualquer incerteza: “A culpa de Putin – 283 passageiros de um Boeing foram mortos nos céus da Ucrânia por um míssil russo na mais forte ameaça à paz mundial neste século.”

O resultado imediato da avalanche foi assim descrito pelo geógrafo e cientista político italiano Manlio Dinucci, no Il Manifesto de 23 de julho:

(…) Moscou colocada no banco dos réus pela “comunidade internacional” (leiam-se: Estados Unidos e seus aliados); os ucranianos russos estigmatizados como terroristas; a atenção da mídia focalizada na tragédia do avião, relegando ao segundo plano a tragédia do massacre israelense dos palestinos em Gaza.

Entretanto, como em qualquer investigação criminal, a pergunta crucial para a elucidação da tragédia do voo MH17 é a clássica: cui bono – quem se beneficia?

No caso, é difícil imaginar qualquer vantagem que o Kremlin ou os insurgentes ucranianos poderiam auferir com uma ação tresloucada do gênero. Até mesmo a hipótese de um acidente envolvendo uma bateria antiaérea eventualmente capturada pelos rebeldes é de difícil aceitação, uma vez que o manejo de tal equipamento requer muitos meses de treinamento intensivo, envolvendo uma equipagem de uma dúzia de especialistas – desperdício de combatentes que não lhes proporcionaria qualquer vantagem adicional sobre os mísseis portáteis (Manpads) de que já dispõem e têm utilizado com sucesso contra as aeronaves da Força Aérea Ucraniana, que voam em níveis bem mais baixos que o tráfego comercial internacional.

Por outro lado, como se observou nos dias subsequentes, a tragédia deu a Kiev uma bem-vinda oportunidade para se colocar em uma posição superior, tanto frente aos insurgentes – que, nas últimas semanas, lhe infligiram sérias derrotas na frente de batalha -, como, principalmente, em relação a Moscou, além de proporcionar uma oportuna distração para novos e pesados ataques aéreos e de artilharia contra Donetsk, efetuados no próprio dia da tragédia e mantidos nos seguintes (vide os dois aviões de combate Su-25 derrubados pelos insurgentes, em 23 de julho).

Dez perguntas para Kiev responder

Devido à barragem de desinformação e propaganda política e midiática, a inteligência militar russa foi obrigada a se manifestar – e o fez em grande estilo. Na segunda-feira 21 de julho, em contraposição à ausência de qualquer evidência concreta para sustentar a ofensiva propagandística, altos oficiais militares russos apresentaram um cenário bem diferente para explicar a tragédia.

Em uma coletiva de imprensa, em Moscou, o tenente-general Andrei Kartopolov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e o tenente-general Igor Makushev, chefe do Estado-Maior Principal da Força Aérea, expuseram fotografias tiradas por satélites de reconhecimento e gravações de detecções de radar, que mostram a presença de baterias antiaéreas Buk M1 do Exército ucraniano na área onde o avião foi derrubado e de um avião de combate Su-25 da Força Aérea Ucraniana, que seguia o MH17 pouco antes da sua queda. Ao mesmo tempo, os militares afirmaram que um satélite de reconhecimento estadunidense estava sobre a região naquele mesmo momento, e instaram o governo dos EUA a divulgar as imagens eventualmente obtidas por ele.

À diferença de Washington, que até o momento não apresentou qualquer evidência para sustentar a afirmativa de que o míssil que teria derrubado o MH17 teria partido “de uma área controlada pelos rebeldes”, como têm repetido o presidente Barack Obama e todas as autoridades estadunidenses que se manifestaram a respeito, os militares russos colocaram o material à disposição para a análise por especialistas, a começar pela União Europeia (UE), a quem o entregaram, na terça-feira 22.

Curiosa e sintomaticamente, no mesmo dia, oficiais de inteligência estadunidenses não identificados afirmaram à agência Associated Press que não dispunham de qualquer evidência que ligasse os russos à derrubada do avião, embora acreditassem que ela tenha sido obra dos insurgentes. Horas depois, começou a circular nos EUA a versão de que um suposto “desertor” do Exército ucraniano teria assessorado os rebeldes na ação, o que justificaria as fotografias tiradas por um satélite estadunidense, mostrando militares com uniformes ucranianos próximos a uma bateria antiaérea situada na área do abate (Los Angeles Times, 22/07/2014).

Em sua análise do ocorrido, os militares russos deixaram dez perguntas a serem respondidas pelo governo ucraniano, que reproduzimos a seguir, de acordo com a síntese publicada pela rede RT e algumas das imagens correspondentes.

1. Por que o MH17 deixou o corredor internacional de voo sobre a Ucrânia?

Segundo Kartopolov, o avião se manteve dentro do corredor até atingir Donetsk, quando se desviou para o norte, entrando diretamente na área conflituosa.

2. O MH17 deixou a rota por um erro de navegação ou a tripulação seguiu instruções dos controladores de tráfego aéreo ucranianos, em Dnepropetrovsk?

“O desvio máximo da extremidade esquerda do corredor foi de 14 quilômetros. Em seguida a isto, vemos o avião manobrando para retornar ao corredor, mas a tripulação malaia não teve chance de completar a manobra. Às 17h20min, o avião começou a perder velocidade e, às 17h23min, ele desapareceu dos radares russos”, disse Kartopolov (imagem abaixo).

Desvio de rota do voo MH17, em 17 de julho, segundo o Ministério da Defesa da Federação Russa (RT).

 Embora Kartopolov não tenha mencionado o fato, segundo a BBC (18/07/2014), autoridades militares ucranianas recolheram as gravações entre o controle de terra em Kiev e o MH17. Até o momento, nenhuma explicação a respeito foi dada..

3. Por que havia um grande grupo de sistemas de defesa antiaérea mobilizados na área controlada pela milícia, se as forças de autodefesa [de Donetsk e Lugansk] não têm aviões?

“Até onde sabemos, os militares ucranianos tinham três ou quatro batalhões de defesa antiaérea equipados com sistemas Buk M1, nas vizinhanças de Donetsk, no dia da queda. Este sistema é capaz de atingir alvos dentro do alcance de 35 quilômetros, a altitudes de até 22 quilômetros.”

Baterias de mísseis Buk M1 ucranianas, próximas à área controlada pelos insurgentes, segundo o Min. Defesa Fed. Russa.

4. Por que Kiev mobilizou os sistemas de mísseis Buk nos limites das zonas diretamente controladas pela milícia, antes da tragédia?

“Nós temos fotos de satélites dos lugares onde a Ucrânia tinha mobilizado as suas unidades de defesa antiaérea, nas áreas do Sudeste do país. As três primeiras fotos foram feitas em 14 de julho. A primeira mostra lançadores Buk a 8 km a noroeste de Lugansk. Vocês podem ver claramente um TELAR [Transport Erector Launcher and Radar – veículo de lançamento de mísseis acoplado com radar] e dois TELs [Transport Erector Launcher – veículo de lançamento dos mísseis]. A segunda foto mostra radares a 5 km ao norte de Donetsk. Vocês podem ver dois TARs [Target Acquisition Radar – radar de aquisição de alvos], junto com outros equipamentos e estruturas técnicas. A terceira foto mostra sistemas de defesa antiaérea ao norte de Donetsk. Vocês podem ver claramente um lançador TELAR e cerca de 60 veículos militares e auxiliares, tendas para veículos e outras estruturas.

“Aqui está uma foto da mesma área, feita em 17 de julho. Por favor, observem que o lançador desapareceu. A quinta foto mostra uma bateria de mísseis Buk na vila de Zaroshchenskoye, a 50 km ao leste de Donetsk e a 8 km ao sul de Shakhtyorsk, na manhã do mesmo dia. A sexta foto mostra a mesma área, em 18 de julho. Como vocês podem ver, a bateria sumiu.”

Zaroshchenskoye, em 18 de julho, já sem a bateria Buk que esteve ali até a véspera, segundo o Min. Defesa Fed. Russa.

5. No dia da queda, Kiev intensificou as atividades de radares Kupol-M1 9S18, um componente chave do sistema Buk. Por que?

“Igualmente, 17 de julho viu aumentar as atividades de radares Kupol-M1 9S18, por parte da Ucrânia, que são parte do sistema Buk. Aqui, neste gráfico, vocês vêem que havia sete radares operando na área, em 15 de julho, oito radares operando em 16 de julho e nove radares operando em 17 de julho. Então, a partir de 18 de julho, a intensidade das atividades de radar diminuiu radicalmente e, agora, não há mais que dois ou três radares operando diariamente. O motivo para isto ainda precisa ser esclarecido.”

6. O que um avião militar estava fazendo na rota estabelecida para voos civis?

“Havia três aviões civis na área, naquele momento, seguindo os seus voos regulares. Havia umvoo de Copenhague para Cingapura, às 17h17min, um voo de Paris para Taipei, às 17h24min, e o voo [MH17] de Amsterdam para Kuala Lumpur. Também, os sistemas de monitoramento russos registraram que havia um jato da Força Aérea Ucraniana, provavelmente, um [Sukhoi] Su-25, subindo e se aproximando do Boeing da Malaysia. O Su-25 estava a 3-5 quilômetros atrás do avião malaio. O Su-25 é capaz de atingir a altitude de 10 mil metros [altitude de cruzeiro dos voos comerciais], durante um curto período de tempo. O seu armamento padrão inclui mísseis ar-ar R60, que são capazes de travar e atingir alvos a 12 quilômetros e é garantido atingirem o alvo a uma distância de 5 quilômetros.”

Posições relativas do voo MH17 e do Su-25 da Força Aérea Ucraniana, segundo o Min. Defesa russo.

7. Por que o jato militar estava voando tão perto de um avião de passageiros?

“Às 17h21min35, com a velocidade [do Boeing] tendo caído para 200 km/h [ou seja, já estava em queda], uma nova marca, detectando um objeto aéreo, aparece no local da destruição do Boeing. Este novo objeto aéreo foi detectado continuamente durante quatro minutos, pelas estações de radar de Ust-Donetsk e Buturinskaya. Um controlador de tráfego aéreo requisitou as características do novo objeto aéreo, mas foi incapaz de obter quaisquer leituras dos seus parâmetros – muito provavelmente, devido ao fato de que o novo avião não era equipado com um transponder de resposta secundária de radar, o que é uma característica distintiva de uma aeronave militar.

“A detecção da nova aeronave foi possível quando ela começou a subir. Mudanças posteriores nas coordenadas do objeto aéreo sugerem que ele estava pairando acima do local da queda do Boeing 777, monitorando a situação. Anteriormente, oficiais ucranianos disseram que não havia qualquer aeronave militar ucraniana na área da queda, naquele dia. Como vocês podem ver, isto não é verdade.”

8. De onde veio o lançador mostrado no vídeo que circulou na mídia ocidental, mostrando um sistema Buk sendo movido, alegadamente, da Ucrânia para a Rússia? Como o vídeo foi feito em território controlado por Kiev, para onde o lançador estava sendo transportado?

“Eu gostaria de dizer que as informações apresentadas aqui se baseiam em dados objetivos e confiáveis de vários sistemas técnicos, ao contrário das acusações sem fundamento feitas contra a Rússia. Por exemplo, a mídia circulou um vídeo, supostamente, mostrando um sistema Buk sendo movido da Ucrânia para a Rússia. Isto é uma clara falsificação. Este vídeo foi gravado na cidade de Krasnoarmeysk, como se pode observar pelo cartaz de propaganda ao fundo, que anuncia uma loja de automóveis na rua Dnepropetrovsk, número 34. Krasnoarmeysk está sob controle dos militares ucranianos desde o dia 11 de maio.”

O vídeo citado por Kartopolov (imagem abaixo) foi divulgado por Kiev e recebeu grande destaque nos telejornais de todo o mundo ocidental, inclusive no Jornal Nacional de 18 de julho, que reproduziu as alegações do governo ucraniano.

Clip do vídeo divulgado pelo governo ucraniano, mostrando um veículo lançador do sistema Buk M1, sendo transportado em um caminhão. Ao fundo, à esquerda, o cartaz de propaganda de uma agência de automóveis, que permitiu a sua localização correta.

O outro vídeo divulgado pelas autoridades ucranianas, já nas primeiras horas após o anúncio da queda do MH17, com gravações de supostas conversas entre rebeldes que estariam no local da queda do avião e oficiais russos, foi desmascarado em poucas horas, por internautas de vários países, que, após acessar os dados de gravação do próprio programa, observaram que ele havia sido gravado na véspera da tragédia.

9. Onde está ele, agora? Por que alguns dos mísseis estão faltando no lançador? Quando foi a última vez que um míssil foi lançado dele?

10. Por que os funcionários dos EUA não revelaram as evidências que apóiam as alegações de que o MH17 foi derrubado por um míssil lançado pela milícia?

“Os funcionários estadunidenses alegam ter fotografias de satélite que provam que o avião malaio foi derrubado por um míssil lançado pela milícia. Mas, até agora, ninguém viu essas fotografias. Até onde sabemos, de fato, havia um satélite dos EUA voando sobre o sudeste da Ucrânia, em 17 de julho, entre 17h06min e 17h21min, hora de Moscou. Este satélite é parte de um sistema experimental projetado para acompanhar e monitorar os lançamentos de mísseis de vários alcances. Se os nossos colegas dos EUA têm imagens deste satélite, eles deveriam liberá-las para que a comunidade internacional as examine detalhadamente. Isto pode ser uma coincidência, mas o satélite estadunidense estava sobre a Ucrânia, exatamente, ao mesmo tempo em que caiu o avião malaio.”

Até o momento em que estas linhas eram escritas, nem Kiev nem Washington ofereceram respostas a tais perguntas cruciais para a elucidação da tragédia do MH17.





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