Matemática brasileira: orgulho e vexame

O Brasil acaba de ser promovido à elite da Matemática mundial. A União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês) aprovou o ingresso do País no Grupo 5 da entidade, que reúne as nações mais desenvolvidas em pesquisa matemática.

Os 76 países integrantes da IMU são divididos em cinco categorias, de acordo com o nível das pesquisas desenvolvidas. O Brasil ingressou em 1954, como membro do Grupo 1, foi promovido ao Grupo 2 em 1978, ao Grupo 3 em 1981, e ao Grupo 4 em 2005. Atualmente, apenas 11 países fazem parte do Grupo 5. Além do Brasil, Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia (Site Inovação Tecnológica, 26/01/2018).

Para o diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Marcelo Viana, a promoção representa um reconhecimento da qualidade da pesquisa matemática feita no País: “Significa que o conjunto dos países reconheceu o Brasil como uma potência mundial na área de pesquisa matemática. É uma conquista coletiva e resultado de uma combinação de fatores e de trabalho de gerações de matemáticos ao longo desses 66 anos [de atuação do Impa – n.e.].”

Em agosto, o Brasil sediará o Congresso Internacional de Matemáticos, o mais importante encontro mundial da área, nunca antes realizado em um país do Hemisfério Sul. Na edição de 2014, Artur Ávila, pesquisador do Impa, foi o primeiro brasileiro a receber a Medalha Fields, considerada o Nobel da matemática.

Por outro lado, como observou a consultora em educação Andrea Ramal, num artigo publicado no jornal O Globo de 30 de janeiro, esse sucesso contrasta drasticamente com o desastroso desempenho dos estudantes brasileiros na disciplina, que apresentam um dos piores índices no âmbito internacional. No último exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), aplicado a jovens de 15 anos, o Brasil ficou em 66º lugar em Matemática, entre 70 países, atrás do Catar, Indonésia e seus vizinhos latino-americanos.

Na prova, ressalta a educadora, 70% dos brasileiros ficaram abaixo do nível básico, sendo incapazes de resolver problemas numéricos simples, habilidade considerada um pré-requisito mínimo para o exercício da cidadania. No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), criado pelo Ministério da Educação, o Ensino Médio ainda não conseguiu atingir a média 4 (numa escala até 10), e apenas 7% dos estudantes consegue um nível de aprendizado considerado adequado, índice que cai para 3,6% no caso de egressos do ensino público.

Para ela, a reversão desse quadro requer três desafios fundamentais:

“O primeiro deles é a revisão do currículo, retirando a ênfase excessiva no ensino da Álgebra, que exige níveis cognitivos e capacidade de abstração muitas vezes acima das faculdades de crianças e adolescentes em idade escolar. Muitos alunos temem a Matemática porque não entendem as aulas. Há que trabalhar com desafios que tenham mais relação com o dia a dia do estudante e façam sentido na prática, estimulando o raciocínio lógico e o gosto por resolver problemas. Se eles curtem games, é claro que podem se apaixonar pela Matemática.

“Além disso, é preciso empreender uma verdadeira cruzada para superar o analfabetismo funcional. Reforçar, desde os primeiros anos escolares, a leitura e interpretação de textos, imprescindível para resolver exercícios e entender enunciados.

“Por fim, há que qualificar os docentes. Um a cada três professores de Matemática não tem formação na área. Atualmente, há novas formas de ensinar, que são mais motivadoras para o aluno e melhoram o aprendizado. O Impa e a SBM (Sociedade Brasileira de Matemática) vêm dando uma excelente contribuição para repensar o ensino desta disciplina, por exemplo, com a Olimpíada Brasileira de Matemática. É necessário ampliar o diálogo entre esses estudiosos e os professores das escolas, muitas vezes isolados e esquecidos, sem apoio nenhum para inovar.”

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