Líbia: hora da verdade e da justiça

A mais recente atrocidade cometida pelo Estado Islâmico (EI), a decapitação de 21 cristãos coptas egípcios por uma franquia do grupo jihadista na Líbia, recolocou o desafortunado país nas manchetes internacionais, que só tem frequentado por ocasião de tragédias do gênero, como o ataque de pistoleiros do mesmo grupo ao Hotel Corinthia, em Trípoli, em janeiro último, que resultou na morte de dez pessoas, sendo cinco estrangeiras. Em resposta ao massacre, a Força Aérea Egípcia bombardeou alvos do EI nas cidades de Derna e Sirte, enquanto uma onda de indignação e alarme se espalhava pela Europa, principalmente, na Itália (a apenas 350 km de distância da Líbia), que saiu na frente para pedir uma nova intervenção militar internacional no país, com o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS) – proposta endossada, inclusive, pelo papa Francisco.

Por enquanto, o CS deve votar uma resolução pedida pela Jordânia, que suspende o embargo do fornecimento de armas ao governo líbio, mantida desde a intervenção de 2011 que resultou na deposição e morte de Muamar Kadafi. Anteriormente, o governo do Egito já havia anunciado que pediria que o Conselho autorizasse uma nova intervenção externa na Líbia.

O problema, para começar, é que desde o fim do regime de Kadafi, o país não tem um governo unificado e o controle do território tem sido disputado à bala e bomba por diversas facções sectárias e tribais, algumas delas com inclinações jihadistas e quase todas maiores que a franquia do EI. No momento, há um governo e um Parlamento “oficiais”, funcionando em Tobruk e al-Baida, e suas contrapartes “islamistas” e não reconhecidas internacionalmente, instaladas desde meados do ano passado em Trípoli. Os primeiros apoiaram o ataque aéreo egípcio, enquanto os segundos o condenaram como uma violação à soberania nacional.

Ou seja, qualquer iniciativa de combate ao EI e ao islamismo militante na Líbia deve começar pelo estabelecimento de uma força de unificação nacional de uma forma que assegure um mínimo de estabilidade interna ao país, devastado pela intervenção do “Ocidente”, encarnado na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que transformou o país com os melhores indicadores socioeconômicos da África em um caldeirão de sectarismos e violência.

O fato de que a destruição da Líbia não foi uma mera consequência imprevista da derrubada do regime de Kadafi ficou evidenciado pelas revelações do jornal The Washington Times sobre as manobras da então secretária de Estado Hillary Clinton para impedir qualquer tipo de acordo com o líder líbio, contrariando, até mesmo, a posição do comando militar estadunidense, que antecipava e temia o caos que se seguiria à derrubada do regime.

Uma quase desesperada tentativa de promoção de um entendimento mínimo entre os dois grupos que disputam o governo está sendo feita pelo enviado especial da ONU, Bernardino León. Em uma videoconferência transmitida diretamente de Trípoli, em 18 de fevereiro, León transmitiu o sentido de gravidade e a urgência da situação local:

(…) Nenhuma estratégia será bem sucedida sem uma forte cooperação regional e um empoderamento do Estado e das autoridades líbias. Este é, particularmente, o caso à luz das complexidades da crise líbia; das suas instituições estatais fracas e fragmentadas; da atual polarização política; da predominância de grupos armados aparentemente alheios ao interesse nacional; e à retórica inflamatória e de incitação e à corrupção da mídia.

Segundo ele, as reações aos entendimentos promovidos pela ONU têm sido majoritariamente positivos e parecem representar uma esperança quanto à possibilidade de uma resolução pacífica para a crise política e o conflito militar que abala o país. “As diferenças entre as partes não são insuperáveis”, disse ele.

O enviado da ONU ressaltou as condições para o enfrentamento da ameaça terrorista:

A derrota do terrorismo na Líbia só pode ser obtida por meio da determinação política e institucional de um governo líbio unido, que necessitará do apoio forte e inequívoco da comunidade internacional em confrontar a miríade de desafios que a Líbia enfrenta. (…) É crucial que a comunidade internacional como um todo mantenha uma unidade de propósito, por meio de mensagens e ações coerentes. Os nossos esforços para combater o terrorismo de uma maneira sustentada não podem ser uma série de atos isolados e não deveríamos permitir que o terrorismo desarticule o diálogo político (US News Centre, 18/02/2015).

O que León não disse foi que, como este boletim afirmou na edição de 12 de setembro de 2014, a propósito das condições para um enfrentamento efetivo do EI, quando o grupo se lançou contra a Síria e o Iraque, nada será possível sem que as potências extrarregionais coloquem de lado as suas pretensões hegemônicas, quanto ao controle dos recursos naturais do país.

Acima de tudo, o que está em causa na Líbia é o catastrófico modelo de intervenção do poderio hegemônico anglo-americano declinante, desprovido de qualquer princípio de racionalidade e, antes que se pense em uma nova operação internacional no país, é preciso estabelecer os princípios orientadores de uma eventual intervenção humanitária: uma causa justa; uma autoridade legítima, que só pode ser o CS; e a renúncia a qualquer agenda de controle de recursos.

Este último é, reconhecidamente, o aspecto mais difícil de todos, devido aos hábitos supremacistas enraizados nas inclinações “excepcionalistas” do Establishment oligárquico.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...