Índia constrói primeiro reator de tório

Uma promissora tecnologia nuclear, até agora negligenciada, encontra-se na plataforma de lançamento. Após décadas de pesquisas, a Índia se prepara para iniciar a construção do primeiro reator de potência alimentado a tório, cuja construção tem previsão de começo para 2016. O tório é um metal mais abundante e menos radioativo do que outros elementos usados como combustível nuclear na atualidade, como o urânio e o plutônio, de modo que a nova tecnologia de reatores, por ser mais segura e utilizar um combustível com maior disponibilidade, pode viabilizar um novo impulso na eletrificação do planeta (OilPrice.com, 23/08/2012).

De acordo com o diretor da Corporação de Energia Nuclear da Índia, Shri S. A. Bhardwaj, o reator avançado de água pesada (AHWR, na sigla inglesa) alimentado a tório, de 300 megawatts (MW) de potência, será tão seguro que poderá ser construído em meio a grandes cidades sem oferecer grandes riscos (Deccan Times, 19/10/2012).

Em um documento publicado em maio, o Departamento de Energia Atômica indiano descreveu os três estágios de desenvolvimento do programa nuclear do país. O primeiro, atual, se baseia no uso do urânio natural como combustível, extraído tanto dentro como fora do país.

Segundo o relatório, “seguir-se-á um segundo estágio, constituído por reatores regeneradores rápidos. Propõe-se a criação de uma grande capacidade de geração de energia com base em reatores rápidos antes de entrar na terceira fase. O próprio tório não pode produzir eletricidade, sendo necessário antes convertê-lo em urânio-233 em um reator nuclear. Um amplo terceiro estágio no programa nuclear será implementado em sequência”. Nesse sentido, o governo da Índia já está investindo no processamento de suas cerca de 10 milhões de toneladas de areias monazíticas, sua principal fonte de tório.

O reator não servirá somente para gerar eletricidade, como também será amplamente usado como um local para a realização de experiências científicas de ponta. Conforme o relatório citado, o “primeiro reator AHWR será usado para testar novas tecnologias em matéria de segurança, bem como no sentido de desenvolver o ciclo do tório… (O novo reator) será o primeiro passo da Índia para abraçar o tório como a melhor escolha”.

A nova tecnologia de reatores poderá possibilitar um enorme boom em termos de geração de energia no país asiático, que sofre com uma baixa oferta de eletricidade, mas conta com cerca de 30% das reservas mundiais de tório conhecidas. Ao comentar os avanços nas pesquisas com este tipo de reatores, o presidente do Comissão de Energia Atômica, Srikumar Banerjee, afirmou que o “mundo precisa retomar as pesquisas sobre os múltiplos empregos do tório e unir forças com a Índia, o único país engajado nesse objetivo” (The Hindu, 9/03/2012).

Uma história de supressão tecnológica

Embora apenas a Índia e, em menor escala, a Rússia e a China, estejam trabalhando no desenvolvimento da tecnologia de utilização do tório como combustível em reatores nucleares, ela não constitui novidade. Na verdade, já vinha sendo desenvolvida desde a década de 1950, em especial, no Reino Unido e nos EUA, embora não tenha sido levada adiante por razões políticas e econômicas, que configuram mais um triste capítulo da agenda de supressão tecnológica adotada por certos círculos do Establishment anglo-americano, em seu empenho permanente de preservar estruturas econômicas e empresariais consolidadas e obstaculizar a emergência de outros pólos de poder contestatórios da sua agenda hegemônica.

Na edição de 19 de janeiro último, este boletim reproduziu parte do depoimento do o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Renato Archer (falecido em 1996), sobre um curso que fez, em 1957, no Centro de Pesquisa de Energia Atômica de Harwell, Inglaterra, quando era deputado federal e comandou a CPI da Questão Nuclear (1956). Na ocasião, Archer, que apoiou intensamente os esforços do almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, pioneiro do programa nuclear nacional, foi recepcionado pelo diretor científico do centro, John Dunworth, e levado para uma visita às instalações. Segundo suas palavras:

Em um determinado momento, chegamos em frente a um galpão maior e ele (Dunworth), apontando, disse: “É um reator a tório. Está em fase de teste e em pleno funcionamento. Não vamos continuar a desenvolvê-lo. Não nos interessa a tecnologia do tório, pelo menos no momento. É um problema que diz respeito a vocês e à Índia. Mas você não viu nada. Se disser que viu, vou dizer que você é um mentiroso e um comunista. Todo mundo vai acreditar em mim, e não em você, não é mesmo?” (Álvaro Rocha e João Carlos Vitor Garcia. Renato Archer: Energia atômica, soberania e desenvolvimento, depoimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006).

Nos EUA, na mesma época, o físico Alvin Weinberg, diretor do Laboratório Nacional de Oak Ridge, chefiou um grupo de pesquisadores que desenvolveu a tecnologia de reatores MSR (Molten Salt Thorium Reactor). Mesmo sendo altamente promissora, podendo aproveitar 100% da energia liberada com a reação nuclear e produzindo energia e água potável (sendo, por isso, ideal para impulsionar a irrigação de terras aráveis, por meio da dessalinização da água do mar), a MSR foi deliberadamente engavetada.

De fato, foi no momento em que os esforços de Weinberg tiveram os primeiros resultados que o físico começou a sofrer uma série de pressões de congressistas e do diretor da Comissão de Energia Atômica dos EUA (AEC), Milton Shaw, que acabaram resultando na sua demissão, em 1973. Tal medida, aliada aos cortes de verbas e à ausência do apoio dos industriais estadunidenses do setor, já comprometidos com a tecnologia dos reatores de urânio enriquecido, fez com que os reatores MSR saíssem de cena.

2 comments

  1. É preciso entender que o objetivo de usinas a urânio é a aplicação militar do urânio e seu sub-produto, o plutônio. O tório só serve para usina elétrica nuclear ou camisa de lampião. Entendo que o mundo é belicista, mesmo uma planta termoelétrica pacífica a tório, visa abastecer de energia aciarias e usinas e plantas para produção de armas. Não existe energia para “fins pacíficos”, principalmente com um mundo com excesso de gente. À medida que os recursos vão ficando mais escassos, o que sobrar vai para quem tem mais força. Quando faltar urânio, então vamos para o tório.

  2. TRISTE pensar que temos uma das maiores reservas de tório !se não a há maior do nosso planeta .E não temos se quer um projeto piloto núcleo de estudo nada .

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