Guerra na Europa: a batalha dos grãos

Por Gabriel Camilli*

“A Europa deu dois tiros no peito”, disse o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, como se sugerisse que o verdadeiro objetivo era ferir a economia europeia, fingindo atingir a russa.

As amplas sanções impostas à Rússia pelo Ocidente após a invasão da Ucrânia estão se convertendo no mais monumental erro de cálculo do Ocidente na História moderna. As sanções não deixaram a economia russa de joelhos, como esperado. Em vez disto, são as economias ocidentais que estão cambaleando, pois o seu crescimento econômico praticamente parou. Muitas delas sofrem simultaneamente com a alta inflação e a escassez de energia.

Em 12 de junho de 2022, escrevemos no jornal La Prensa: “Para viver é preciso comer. Por esta razão, a nutrição sempre foi central nos sistemas políticos, sociais e econômicos. A produção de cereais, que proporcionam farinha de trigo e, por conseguinte, pão, tem ocupado um lugar especial nas preocupações humanas desde os tempos antigos. Desde o Egito antigo, o trigo e os grãos foram repetidamente libertados da ganância para ganhos privados, tendo o seu o armazenamento controlado pelo governo. Quase todos os povos desenvolveram uma cultura do pão, tanto em âmbito prático como simbólico. Na era dos mercados como medida de todas as coisas, o suprimento de grãos caiu nas mãos de algumas poucas gigantes internacionais.”

O cenário de guerra entre a OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e a Rússia está causando sérios problemas de transporte, abastecimento e câmbio. A Rússia e a Ucrânia produzem cerca de 30% do trigo mundial, sendo a rota marítima através dos portos do Mar Negro a mais importante. As turbulência nos mercados é evidente, agravada pela confusão sobre as sanções contra a Rússia e, no cenário de guerra, pelas minas espalhadas no mar pelas Forças Armadas ucranianas. No entanto, a ONU e a Turquia negociaram um acordo que permite à Ucrânia exportar alimentos e fertilizantes de três de seus portos no Mar Negro. Outro memorando de entendimento entre a ONU e Moscou superou obstáculos ao embarque de fertilizantes russos para os mercados globais.

Hoje, na ausência de formas de controle público – porque o mercado é sagrado e intocável! –, prevalecem a especulação, o entesouramento e as manipulações de preços, que os consumidores começam a notar. E há as mãos dos grandes capitais monopolistas.

Dissemos, então: “A batalha dos grãos está em andamento: uma guerra dentro da guerra. Assim como acontece com o julgamento dos atos de guerra, a verdade é a grande ausente, oculta na névoa da guerra. A privatização do mundo não deixou de lado o setor dos grãos e as gigantes dos cereais têm em suas mãos a alimentação da maioria das populações. Donas do pão, donas das nossas vidas.”

Ressuscita o problema do trigo ucraniano

Depois que a guerra na Ucrânia bloqueou alguns portos do Mar Negro, grandes quantidades de cereais ucranianos – mais baratos que os produzidos na União Europeia (UE) – foram parar nos Estados da Europa Central, devido a gargalos logísticos, distorcendo preços e vendas dos produtos locais e causando sérias consequências para os agricultores.

Na Polônia, por exemplo, a questão criou um problema político real para o partido nacionalista Lei e Justiça (PiS), ainda mais espinhoso em função das eleições marcadas para o próximo outono.

Nas áreas rurais, onde o apoio ao PiS costuma ser alto, os cidadãos estão indignados com a presença do trigo ucraniano. Jaroslaw Kaczynski, líder do PiS, assegurou que a Polônia “continua amiga e aliada da Ucrânia”, mas, ao mesmo tempo, “deve defender os interesses dos seus cidadãos”, porque teme uma crise que se possa alastrar do campo para todo o país.

O resultado é que a Polônia bloqueou a importação de trigo ucraniano e anunciou que, a partir de agora, as importações “serão controladas com muito cuidado”. “O governo decidiu proibir a importação de produtos agrícolas e alimentícios da Ucrânia para a Polônia”, esclareceu Kaczynski.

Em entrevista publicada em um jornal de Varsóvia, o ministro da Agricultura, Robert Telus, explicou que a decisão de suspender temporariamente a compra de grãos da Ucrânia foi tomada de acordo com Kiev, usando palavras semelhantes às de Kaczynski: “Embora não se pretenda reduzir essas importações, quaisquer novos embarques a partir de agora serão controlados com muito cuidado.”

A Hungria está na mesma linha que a Polônia. Budapeste proibirá as importações de grãos e outros produtos agrícolas da Ucrânia até 30 de junho. “As tendências atuais do mercado podem causar danos tão graves à agricultura húngara, que medidas extraordinárias devem ser tomadas para evitá-las”, explicou o ministro da Agricultura István Nagy, acrescentando que a União Europeia deveria tomar medidas e repensar os corredores de solidariedade.

Choque com a UE

Assim, foi inevitável o choque do eixo Polônia-Hungria com Bruxelas. Recordemos que, logo após a eclosão da guerra na Ucrânia, os agricultores poloneses reclamaram dos danos que relacionavam à moratória de um ano concedida pela UE a Kiev, para introduzir grãos ucranianos na Europa sem tarifas ou cotas.

“Convencer a UE a impor tarifas sobre o trigo ucraniano é e será uma tarefa muito difícil”, confessou o polonês Telus. “Bruxelas fala em sanções contra a Rússia e, por outro lado, finge não saber que muitos grãos vêm do Sul para a Europa e, provavelmente, são grãos russos, não ucranianos”, acrescentou.

O ministro polonês qualificou a ação da UE de “muito lenta” e alertou que “não se pode admitir que, por má coordenação, os agricultores europeus sejam obrigados a pagar o preço e, sobretudo, dois ou três países”. Ele próprio especificou que o anúncio feito pelo presidente do PiS é um sinal para a UE, que deve criar as ferramentas adequadas para distribuir os produtos agrícolas ucranianos entre todos os países europeus e não apenas aqueles que fazem fronteira com a Ucrânia. Aparentemente, enquanto escrevíamos, a UE saiu rapidamente a negociar com Varsóvia a revisão das medidas.

Bulgária e Romênia: grande oposição ao trigo ucraniano

Para apoiar a Ucrânia, o trigo é importado através de “corredores de solidariedade”. Mas essa abundância de trigo baixou consideravelmente o preço do cereal, colocando de joelhos os agricultores da Europa Central e Oriental, cidadãos da UE. A Polônia, Hungria e Eslováquia proibiram novas importações. A Bulgária e a Romênia se seguirão em breve.

Encontramo-nos diante de uma “Guerra Sem Restrições”, na definição dos autores chineses Quiao Liang Wang e Xiangsui, que afirmam: “Se há duas décadas a expressão guerra comercial era uma frase retórica e descritiva, hoje, ela se tornou uma ferramenta indispensável nas mãos de muitos países para travar guerras não militares. É usada com maestria nas mãos dos estadunidenses, que a aperfeiçoaram ao nível de arte. Entre os numerosos meios empregados, encontramos a Lei do Comércio Interior colocada no cenário internacional, a introdução arbitrária e a abolição de barreiras tarifárias, o uso de sanções comerciais precipitadas, a imposição de embargos à exportação de tecnologias-chave.”

Nas mãos da estratégia global, cada um desses instrumentos pode ter o mesmo efeito destrutivo de uma operação militar.

Essa é mais uma demonstração de que essa Europa só defende os interesses de uma pequena elite, e não dos trabalhadores e dos povos europeus.

Em nosso país sabemos disso

O livro “Geopolítica e alimentação: o desafio da segurança alimentícia frente à competição internacional pelos recursos naturais” (Geopolítica y Alimentos. El desafío de la seguridad alimentaria frente a la competencia internacional por los recursos naturales, Editorial Académica Española, 2019), do professor e pesquisador Dr. Juan José Borrell, busca desvendar essas complexas questões. A proposição central é que existe uma competição global pelos recursos naturais.

Durante o período 1996-2016, a Argentina aprofundou uma relação de subordinação em relação ao circuito agroalimentício internacional, vulnerando as dimensões da segurança alimentícia no âmbito interno. Ainda mais, quando no mundo uma em cada nove pessoas padece de fome crônica, esperando-se que a população aumente para mais de 9,3 bilhões de pessoas até 2050. Assim, torna-se significativamente importante analisar os fatores geopolíticos que condicionam a oferta alimentar.

Nos somamos a este questionamento do economista J.C. de Pablo: “A Argentina é um importante produtor de alimentos, parte dos quais exporta. Com a redução da oferta ucraniana, o que acontecerá em nosso país com a produção, a demanda interna e as exportações? O Estado deve intervir, dado o impacto que o que está acontecendo na Ucrânia terá na economia argentina?”

Deixamos o questionamento e reiteramos o caráter estratégico da análise da “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, que está em curso. Não podemos olhar para o outro lado.

Voltando ao conflito sobre grãos na Europa. Primeiro, o anúncio da Polônia e, depois, o da Hungria. Varsóvia e Budapeste deixarão de importar grãos e outros produtos agrícolas da Ucrânia, ostensivamente, para apoiar os interesses de seus respectivos produtores locais.

O movimento duplo irritou um pouco a UE, com Bruxelas expressando a sua total decepção. “Estamos cientes dos anúncios da Polônia e da Hungria sobre a proibição de importar grãos e outros produtos agrícolas da Ucrânia. Estamos solicitando mais informações às autoridades competentes para avaliar as medidas. Neste contexto, é importante destacar que a política comercial é de competência exclusiva da UE e, portanto, ações unilaterais não são aceitáveis”, disse à agência Reuters um porta-voz da Comissão Europeia.

Caso Bruxelas não consiga neutralizar imediatamente a ameaça decorrente do problema do trigo ucraniano, existe o risco de que o bloco da UE, firme e unido na condenação da Rússia, se veja gradativamente afrouxado.

Recordemos: “Em âmbito geopolítico, referir-se à alimentação implica em falar de jogos de poder entre potências e em relação aos países da periferia mundial (Dr. Juan Borrell).”

* Coronel (res.) do Exército Argentino, ex-diretor da Escola Superior de Guerra Conjunta das Forças Armadas e diretor da Fundação ELEVAN.