General Villas Bôas: “País trata a Amazônia como colônia”

O Brasil trata a Amazônia como uma colônia, sem integrá-la ao País e desconhecendo a sua realidade e os seus enormes potenciais. Para o general-de-divisão Eduardo Villas Bôas, titular do Comando Militar da Amazônia (CMA), esta é uma das principais causas da desorientação que prevalece no restante do País em relação à região.

Em entrevista à Folha de S. Paulo de 19 de outubro, Villas Bôas, que ocupa o posto desde 2011, fez críticas à política indigenista do governo federal e à atuação das ONGs ambientalistas e indigenistas na região, embora tenha evitado se contrapor à orientação oficial. A seguir, apresentamos as principais considerações do oficial:

FSP – Brasília sabe o que acontece na Amazônia?

EVB – Na parte da defesa até sabe. O que ocorre é que, em pleno século XXI, o país não completou sua expansão interna. Temos metade do nosso território a ser ocupado, integrado à dinâmica da sociedade. A Amazônia, como não está integrada ao país, não há conhecimento no sul da sua realidade, seu potencial. É como se fosse uma colônia do Brasil. Ela não é analisada, interpretada, estudada e compreendida numa visão centrada da própria Amazônia. Isso nos coloca numa posição periférica.

FSP – Quais são as principais necessidades da população local?

EVB – As reais necessidades da população da Amazônia chegam ao Centro-Sul de maneira distorcida. Com isso, monta-se uma base de conhecimento desfocada, com soluções não apropriadas. A população, principalmente no interior, não tem necessidades básicas atingidas. Em grande parte, não há nenhuma presença do governo do Estado. Em algumas áreas as Forças Armadas são essa única presença.

FSP – O material humano e financeiro atual do comando militar é suficiente para monitorá-la?

EVB – Não é suficiente. A partir da Estratégia Nacional de Defesa, em 2008, a Amazônia virou prioridade. Mas só de fronteira temos 11 mil km. E nossa capacidade de vigilância está basicamente restrita ao fator humano. Monitorar toda essa área só será possível com tecnologia incorporada, cujo sistema de monitoramento está em desenvolvimento e custará R$ 10 bilhões até 2020. Desde 1999, o Exército tem poder de polícia na faixa de fronteira [150 km de largura], isso estabeleceu nova responsabilidade. Outro aspecto é a grande vulnerabilidade que o país todo tem. Estamos no século 21 e um país da nossa dimensão não tem um satélite. Não vamos ter autonomia total enquanto não tivermos nossos satélites. Por isso este projeto está no Ministério da Defesa.

FSP – Concorda com a demarcação de novas terras indígenas?

EVB – A discussão é importante. Veja o que aconteceu na Raposa/Serra do Sol [cujos não indígenas foram retirados]. Foi feita demarcação, e as estruturas econômicas tiveram que sair. Hoje os índios têm dificuldades para encontrar alternativas viáveis. O que a iniciativa privada proporcionava ali, o governo tem dificuldade de proporcionar. A participação do Congresso é importante, pois viabiliza a participação de outros setores. Eu acho positivo, sim. Os índios, coitados, ficam prisioneiros de duas vertentes: o interesse econômico e a fundamentalismo ambientalista.

FSP – Como o sr. avalia a política indigenista brasileira?

EVB – Há dois problemas. E não estou fazendo críticas ao governo. Somos nós, Brasil. Primeiro, os órgãos que atuam na Amazônia, nessas questões típicas, ambiental e indígena, têm estrutura deficiente. O governo trabalha para ampliar, mas ainda é carente. O segundo aspecto é que a política indigenista é muito geopolítica. Ela se resume praticamente a delimitar as terras e os índios ficam confinados nelas. Seria interessante que a delimitação fosse seguida de outro tipo de programa que desse sustentação à vida dos índios. Por maior que seja a terra, a vida do índio não se viabiliza. Os recursos naturais vão se esgotando. Nossa política está muito homogênea do ponto de vista de não reconhecer diferentes níveis de aculturação das comunidades.

FSP – Qual é o papel das ONGs estrangeiras na Amazônia?

EVB – Além de tudo que representa, a Amazônia tem um papel muito grande na integração sul-americana. Ela abriga a solução para alguns dos grandes problemas que afligem a humanidade, como água, energia renovável, biodiversidade, mudança climática. Isso justifica toda essa pressão em torno da Amazônia que faz a opinião pública internacional. Nesta semana, o governo está passando leis no Congresso estabelecendo mecanismos de controle mais rígidos sobre as ONGs do ponto de vista da movimentação financeira. Não é o caso de estigmatizar as ONGs, elas vieram preencher espaços e atender necessidades da população que nem o primeiro nem o segundo setores têm capacidade de atender. Mas há coisas fora de controle, e a gente fica numa insegurança, não sabe quem são, quais os objetivos. E muitas vezes [elas] atuam no sentido contrário aos interesses do governo brasileiro.

FSP – Pode citar um exemplo?

EVB – Veja a dificuldade para asfaltar a BR-319 [Manaus-Porto Velho]. É uma rodovia que já existiu, não gerou desflorestamento, não houve prejuízo ambiental. Mas o governo não consegue fazer… é um absurdo. Manaus está conectada à Venezuela, mas não ao restante do Brasil. É extremamente difícil viabilizar a recuperação dessa rodovia, são forças que realmente têm capacidade de intervir e inibir isso. E muito por causa do fundamentalismo ecológico. Não se faz omelete sem quebrar o ovo, se vou lançar um gasoduto, alguma árvore vou derrubar. É uma visão pragmática.

Em outra entrevista, ao sítio amazonense D24am.com (21//10/2013), o comandante da 2ª. Brigada de Infantaria de Selva, general-de-brigada Sérgio Luiz Duarte, contestou a frequente acusação dos indigenistas de que as relações dos militares com os indígenas são conflituosas. Segundo ele, na região da Cabeça do Cachorro, em torno de São Gabriel da Cachoeira (AM), sede da brigada, tal relação

é a melhor possível. Já é uma característica do Exército Brasileiro incluir nos quadros militares pessoas na própria região, então, isto é muito notório nesta região, na Cabeça da Cachorro, onde praticamente todos os nossos soldados são nativos da região. Por isto, o relacionamento com os indígenas é excelente e eles se sentem muito honrados em ter os seus filhos juntos conosco.

Ademais, acrescentou ele, por confiar nos militares, a população indígena local tem um papel importante na vigilância da região contra atividades ilícitas transfronteiriças. “Porque estamos aqui na região [da tribo] ianomâmi, no pelotão de Maturacá e qualquer novidade ou algo estranho que eles encontrem, sempre nos procuram”, afirmou.

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