Francisco: parem de maltratar o Oriente Médio

Em 7 de julho, em Bari, Itália, o papa Francisco se reuniu com os patriarcas e chefes das igrejas orientais, católicas e ortodoxas, para avaliar a dramática situação dos cristãos no Oriente Médio e uma prece coletiva para a pacificação da região. Por suas características históricas milenares, aquela estratégica região do mundo poderia ser um modelo de harmonia, mas encontra-se prostrada pelas sucessivas guerras deflagradas pela coalizão de poder mundial encabeçada pelo eixo anglo-americano, iniciada na década de 1990, quando a guerra contra o Iraque inaugurou a chamada “Nova Ordem Mundial” proclamada pelo então presidente George Bush pai. Retomada há 15 anos, a destruição se espalhou pelo Iraque, Líbia, Síria e outras nações.

Ao iniciar a reunião de oração, Francisco afirmou: “Estamos obrigados a viver este dia com as mentes e os corações voltados para o Oriente Médio, encruzilhada de civilizações e o berço das grandes religiões monoteístas. Esta tradição é um tesouro que temos que guardar com toda a nossa força, porque no Oriente Médio estão as raízes das nossas próprias almas (ACIPrensa, 07-08/07/2018).”

No entanto, enfatizou, “essa magnífica região tem concentrado, sobretudo nos últimos anos, uma densa nuvem de escuridão, guerra, violência e destruição, ocupações e várias formas de fundamentalismo, migração forçada e abandono, tudo isto em meio ao silêncio de muitos e à cumplicidade de muitos”.

O Oriente Médio, prosseguiu, “tornou-se uma terra de pessoas que deixam a sua própria terra. Há um risco de que a presença de nossos irmãos e irmãs na fé venha a extinguir-se, desfigurando a própria face da região, porque um Oriente Médio sem os cristãos não seria Oriente Médio”.

As palavras eloquentes do Pontífice constituíram um severo chamado para que o mundo dê um “basta” em nome da paz e inicie prontamente a reconstrução do país devastado: “Sentimos mais uma vez que devemos converter-nos ao Evangelho, garantia de autêntica liberdade, e fazê-lo com urgência agora, na noite do Oriente Médio em agonia.”

Após a oração conjunta, houve uma reunião a portas fechadas na Basílica de São Nicolau, ao final do qual Francisco se dirigiu brevemente à imprensa:

Basta do benefício de uns poucos à custa da pele de muitos! Chega das ocupações das terras que afugentam os povos! Basta da prevalência das verdades parciais à custa das esperanças das pessoas! Chega de usar o Oriente Médio para se obterem benefícios alheios ao Oriente Médio!

A paz, há que cultivá-la também nas terras áridas dos contrastes, porque, hoje, apesar de tudo, não há alternativa possível para a paz. A paz não virá graças a tréguas apoiadas por muros e manifestações de força, mas pela vontade real de ouvir e dialogar.

A guerra é a praga que assola tragicamente essa amada região. Quem sofre são, principalmente, as pessoas pobres. Pensem na Síria martirizada. A guerra é a filha do poder e da pobreza. Ela se vence pela renúncia à lógica da supremacia e pela erradicação da miséria. Somente assim, cuidando para ninguém tenha falta de pão e trabalho, dignidade e esperança, os gritos de guerra se transformarão em cantos de paz.

Francisco ressaltou que “muitos conflitos têm sido fomentados também por formas de fundamentalismo e fanatismo que, disfarçados de pretextos religiosos, têm blasfemou na verdade o nome de Deus, que é paz, e têm perseguido o irmão que sempre viveu ao lado”.

No entanto, o fanatismo não teria sido capaz de causar tantos danos sem a ajuda da indústria de armas. “A violência sempre se alimenta de armas”, recordou.

A propósito, ele denunciou a atitude hipócrita de muitas nações que ao mesmo tempo em que se comprometiam com a paz, continuavam a vender armas a países em guerra ou que promoviam guerras: “Não se pode levantar a sua voz para falar de paz, enquanto secretamente continuam desenfreadas corridas armamentistas. É uma responsabilidade gravíssima que pesa sobre a consciência das nações, especialmente, as mais poderosas.”

“Não nos esqueçamos do século passado, não deixemos de lado as lições de Hiroshima e Nagasaki, não convertamos as terras do Oriente, onde apareceu o Verbo de paz, em obscuras extensões de silêncio. Basta de contraposições obstinadas, basta de sede de lucros, que não se detêm diante de nada, sem nenhum cuidade com a casa comum e sem qualquer escrúpulo de que o mercado de energia dite a lei da convivência entre os povos.

“Estou muito grato por este encontro que tivemos a graça de viver. Temos ajudado a redescobrir a nossa presença como cristãos no Oriente Médio. E será tanto mais profética quanto mais manifeste a Jesus, o Príncipe da Paz (Is 9,5). Ele não empunha a espada, mas pede aos seus que embainhem novamente (cf. Jo 18:11).

“Profundamente angustiados, mas nunca privados de esperança, voltamos os olhares para Jerusalém, uma cidade para todos os povos, cidade única e sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos de todo o mundo, cuja identidade e vocação deve ser preservada, acima das disputas e tensões, e cujo status quo deve ser respeitado de acordo com o deliberado pela comunidade internacional e repetidamente formulado pelas comunidades cristãs da Terra Santa.

Apenas uma solução negociada entre israelenses e palestinos, firmemente desejada e favorecida pela comunidade de nações, poderá levar a uma paz estável e duradoura e assegurar a coexistência de dois Estados para dois povos.”

Por fim, o Pontífice exclamou: “Amado Oriente Médio, que desapareçam de ti as trevas da guerra, do poder, da violência, dos fanatismos, dos benefícios injustos, da exploração, da pobreza, da desigualdade e da falta de reconhecimento dos direitos. Que a paz esteja convosco, em ti a justiça, desça sobre ti a bênção de Deus.”

Destruição da comunidade cristã

Na escuridão que atravessa o Oriente Médio, soma-se à ruína dos meios de subsistência como nações soberanas o êxodo da comunidade cristã. Segundo o padre Rami Asakrieh, da Custódia da Terra Santa, a cidade de Belém, na Palestina, está ficando sem católicos, sobretudo, porque os jovens estão emigrando para outros países em busca de melhores condições de vida.

Falando à agência vaticana Fides, o sacerdote afirmou que “o número de famílias católicas em Belém está diminuindo. A nossa paróquia tem agora apenas 1.479 famílias palestinas”.

“Os cristãos constituem apenas 17% da população da cidade, enquanto no passado eram 90%”, lamentou. Além disso, ele explicou que a crise política e econômica causada pelos confrontos entre palestinos e israelenses tem provocado um aumento do desemprego entre os fiéis, com todas as consequências negativas.

Responsável pelos projetos no Oriente Médio da Pontifícia Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, o padre Andrzej Halemba afirmou que a presença cristã foi eliminada em partes da Síria e que extremistas muçulmanos atacaram bairros cristãos, para “chamar a atenção internacional” e porque é “fácil removê-los”.

Por exemplo, em Ghouta Oriental “já não há cristãos” e “agora é predominantemente muçulmana”.

Por outro lado, em termos de reparação da comunidade cristã, a voz que tem se levantado é a cooperação entre as igrejas Ortodoxa e Católica, comprometidas com um plano para a reconstrução de igrejas e mosteiros destruídos pela guerra na Síria, como anunciado pelo metropolitano Hilarion, chefe do Departamento de Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Russa. Ele citou o caso do trabalho de restauração em Maaloula, um dos lugares mais sagrados da Igreja Ortodoxa de Antioquia, onde até recentemente era falado o aramaico.

Tal colaboração é parte da ousada diplomacia empreendida pelo Vaticano e a Igreja Ortodoxa Russa, além do próprio governo russo do presidente Vladimir Putin, em iniciativas para pacificar a região, particularmente relevantes na Síria. Em contraste com o mundo ocidental, que, apesar do recuo das gangues do Estado Islâmico, até agora tem se omitido de um compromisso para a empresa titânica de que a região necessita e merece, para deixar de ser um objeto cobiçado e tenha restaurado o seu esplendor civilizatório.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...