EUA: centuriões com coturnos furados

Em meio ao agravamento do cenário estratégico global, ao qual está estreitamente vinculada, trava-se nos EUA uma autêntica guerra intestina pelo tamanho do orçamento de defesa, cujo exame, mesmo superficial, proporciona importantes subsídios para o entendimento da política internacional estadunidense. No centro da batalha, está a preservação de um orçamento que, em conjunto, supera amplamente os gastos militares de todos os demais países do planeta e, além de não guardar qualquer proporção com os interesses maiores da sociedade estadunidense, tem contribuído fortemente para a erosão da base econômica do país.

Na quarta-feira 25 de julho, o Congresso estadunidense começará a discutir o orçamento de defesa para o ano fiscal de 2013. Apesar de o montante oficialmente submetido pelo Departamento de Defesa ser de 526 bilhões de dólares, esta cifra se refere apenas ao orçamento atribuído diretamente ao Pentágono. Porém, para todos os fins práticos, a rubrica “defesa” deve incluir, também, os gastos com os conflitos em curso (alocados separadamente), os veteranos militares, o desenvolvimento de armas nucleares (curiosamente, listado no orçamento do Departamento de Energia), as agências de inteligência e o Departamento de Segurança Interna, criado na esteira dos ataques de 11 de setembro de 2001. Somando tudo, o montante atinge a casa de 1 trilhão de dólares, quase o dobro dos orçamentos militares combinados dos demais países.

O problema é que, assim como ocorreu na fase de derrocada do Império Romano, tais gastos ultrapassam em muito a capacidade da economia para sustentá-los, tornando-se um fator que tem agravado os rapidamente o crescente déficit orçamentário do país, para o qual contribuem com cerca da metade. Hoje, a rubrica de “defesa” já responde por mais de um quarto do orçamento federal e quase dois terços dos gastos discrecionários do governo federal.

Por isso, a Lei de Controle Orçamentário aprovada no ano passado prevê uma redução do orçamento de defesa da ordem de 500 bilhões de dólares ao longo dos próximos dez anos, o que já reduziria o orçamento de 2013 para apenas 469 bilhões de dólares. Ainda assim, segundo o próprioEscritório Orçamentário do Congresso, tal valor é “maior do que era em 2006 (em dólares de 2013) e maior que o orçamento básico médio da década de 1980”. E, como afirmou o comentarista Robert Greenwald, no sítio Common Dreams.org (18/07/2012), “2006 não foi, propriamente, um ano ruim para ser uma empresa de defesa”.

No mesmo contexto, certas lideranças do Pentágono estão tentando entabular um novo enquadramento da estratégia militar estadunidense, no marco das limitações orçamentárias. Em sua visita ao Brasil, no final de abril, o secretário de Defesa Leon Panetta sugeriu que os militares estadunidenses devem promover uma redução das forças no exterior e recorrer mais a operações especiais, com forças de reação rápida (Resenha Estratégica, 20/06/2012).

Não obstante, mesmo esses cortes menores, que ainda manteriam os orçamentos militares estadunidenses em níveis superlativos, são intoleráveis para o conjunto de interesses estabelecido em torno do que o presidente Dwight Eisenhower chamou, em seu discurso de despedida, de “complexo industrial-militar”, que hoje pode ser melhor qualificado como “complexo de segurança nacional” e se converteu numa autêntica instituição, com vida e dinâmica próprias e cuja finalidade principal é a sua autopreservação. Além das Forças Armadas e as agências de inteligência, este complexo é integrado pelas indústrias de equipamentos militares, a vasta rede de think-tanks e instituições acadêmicas de estudos estratégicos e de defesa, uma constelação de jornalistas associados, um grande número de congressistas e lobistas (com frequência, sendo impossível distinguir entre uns e outros) e, de forma crescente, empresas privadas às quais têm sido “terceirizadas” numerosas atividades antes exclusivas dos militares, como a notória Blackwater (atual Xe).

Alarmados com o corte de 57 bilhões de dólares no orçamento de 2013, o lobby do complexo se mobilizou em grande estilo, recorrendo aos seus porta-vozes de mais alto calibre para trombetear os supostos riscos intoleráveis que a medida representaria para a “segurança” do país.

Entre eles, não poderia deixar de figurar o “falcão” mais graduado da fauna belicista estadunidense, o ex-vice-presidente Dick Cheney, que, numa reunião privada com senadores republicanos, em 17 de julho, afirmou que os cortes seriam “devastadores” para o planejamento e a modernização militares dos EUA (Bloomberg, 18/07/2012).

No mesmo dia, a Associação de Indústrias Aeroespaciais divulgou uma atualização do seu estudo de 2011 sobre os impactos econômicos dos cortes, em especial, sobre os empregos. Em uma ostensiva tentativa de chantagem, num momento em que os níveis de desemprego se mantêm em alta, a entidade afirma que os cortes propostos poderão resultar nas demissões de até 1,09 milhão de funcionários do setor.

A Associação Nacional de Manufatureiros, outro ativo grupo de lobistas do setor, se juntou ao coro, afirmando que os cortes “aumentariam o desemprego em 0,7% e reduziriam o PIB em quase 1%”.

Em um depoimento ao Comitê das Forças Armadas da Câmara dos Deputados, o executivo-chefe da Lockheed Martin, a maior empresa de defesa do mundo, reforçou a chantagem, ameaçando demitir 10 mil funcionários da empresa, já em outubro (às vésperas das eleições presidenciais), caso os cortes sejam mantidos.

Com tais evidências, não é difícil perceber por que os EUA pós-11 de setembro têm insistido em prolongar conflitos de uma forma que, aparentemente, não faz sentido em termos militares, como a invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão, esta última, prestes a entrar no décimo-segundo ano. Independentemente de quaisquer objetivos estratégicos contemplados por tais investidas, os conflitos se justificam por si próprios, pelos colossais volumes de recursos financeiros que movimentam. O obstáculo último de tal esquema é colocado pela realidade econômica, que se mostra nos processos de desindustrialização e deterioração da infraestrutura do país, com os conseqüentes impactos socioeconômicos, configurando uma considerável debilitação da base econômica imprescindível para a sustentação de qualquer estrutura militar que atenda minimamente às necessidades nacionais, e não apenas a uma agenda institucionalizada e determinada por interesses restritos.

Por ironia, a superexpansão do poderio militar estadunidense pode acabar produzindo um efeito de desestabilização interna análogo ao da militarização do Império Romano – ao qual se tornam particularmente sujeitos aqueles que se recusam a aprender algo com a História.

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