Elide Cabassi: retrato de uma singular artista italiana em Moscou

(N.E. – Este artigo foi escrito originalmente em novembro de 2020.)

“Lugares de Fronteira” foi o título de uma extraordinária exposição da pintora italiana Elide Cabassi, realizada no Museu do Estado de Moscou, entre 23 de outubro e 22 de novembro de 2020. O evento foi patrocinado pela embaixada da Itália em Moscou e pelo Instituto Cultural Italiano, tendo o apoio de várias instituições russas, entre elas a Academia Russa de Belas Artes. A Introdução do catálogo, intitulada “Entre a Itália e a Rússia – a obra de pintura de Elide Cabassi”, foi escrita pelas curadoras da exposição, Olga Juŝkova e Maria Gadas, e os prefácios foram redigidos por Karen Lawrence Terraciano, esposa do embaixador italiano Pasquale Terracciano, e pela diretora do Instituto Cultural Italiano, Luigina Peddi.

Tanto Terracciano como Peddi expressam grande admiração pela obra da pintora, que nasceu e cresceu como artista na Itália, em especial, em Florença. Vivendo em Moscou desde 1995, toda a obra de Elide Cabassi reflete um intenso “diálogo” entre os artistas renascentistas italianos (entre eles, Duccio Bueninsegna, Fra Angelico e Leonardo da Vinci) e os artistas clássicos russos, inclusive o famoso pintor de ícones Andrei Rublev. Ela promove a “arte do diálogo”, assimilando não só as várias épocas da arte, incluindo o Renascimento italiano e pinturas da vanguarda russa, mas também a filosofia religiosa de Pavel Florenski e Emmanuel Lévinas. Igualmente, desenvolve um notável trabalho como professora de arte na Casa de Moscou, um orfanato onde criou um “laboratório de arte” para órfãos que vivem em condições difíceis, para ensinar-lhes a arte da pintura e ajudá-los a descobrir por si próprios a beleza da arte.

A paixão que Elide Cabassi demonstra no seu engajamento como professora é a mesma que também caracteriza toda a sua obra, na qual se pode perceber, como observa Terracciano, que a sua forma de atuação é semelhante ao destaque dado em suas pinturas da forma mais sublime às pessoas fracas e marginalizadas da sociedade, lutando por justiça: “A arte pode mostrar a capacidade do homem de transcender conflitos e criar ordem e alegria a partir do caos.” Por sua vez, Peddi observa que, na obra de Elide, podemos encontrar a “revelação” de mestres do século XIV, sublimada por meio da sua “intuição” artística e incluindo filósofos e poetas do nosso tempo: “Ela dialoga com todos eles. A força da beleza se reflete na obra de Elide, onde a luz emerge e se funde com o espaço e onde novas dimensões das paisagens internas se abrem.”

Tradição da arte florentina e russa

A sensibilidade artística de Elide foi desenvolvida no contexto dos seus estudos em Asti e Florença, mas foi esteticamente inovada pelo seu estudo profundo da arte russa. Como afirma Peddi: “As energias de Cabassi, profundamente italianas, absorveram as variações múltiplas e quase imperceptíveis da luz e das emoções… Ela internalizou os ícones russos e dá um testemunho estético de uma velha e profunda amizade entre a Itália e a Rússia.”

Elide nasceu em 1963, no Norte da Itália, não muito longe de Brescia, no seio de uma família de mineiros, tendo sido criada com seis irmãos e três irmãs. As condições de vida da família eram muito modestas e ela foi a única a estudar depois de adquirir maturidade e escolher a arte como profissão. Aos três anos, a família se mudou para o Piemonte. Depois da escola, Elide foi para Asti e, depois, para Florença, para estudar na Academia de Belas Artes. Muitos dos professores da época eram da “geração 68”, com atuação política na sociedade civil. Uma profunda influência na formação de sua mente artística foi exercida por Goffredo Trovarelli, que também foi espiritualmente influenciado por Giorgio Morandi.

Trovarelli se tornou uma “bússola” para Elide, sendo muito apegado à cultura clássica, ensinando a técnica da pintura tradicional e revelando os segredos do comportamento das cores, a particularidade química dos materiais e o método de trabalho com óleo. Ele transmitia aos seus alunos que pintar não é seguir uma “moda”, nem obedecer às regras do mercado. Ele sempre lhes apresentava a história da arte e incutia neles o respeito pelos grandes artistas de todos os tempos, especialmente, com foco na arte italiana, propondo-lhes dialogar com os mestres do passado.

De Morandi, ele assimilou uma abordagem clássica para fazer um estudo sistemático da natureza, sendo considerado um “realista moderado”. Ainda hoje, Elide usa para aquarelas papel produzido por um laboratório siciliano, além de telas preparadas para ela por monges do mosteiro russo de Pskov. Ela também teve aulas com Stefano Farulli (da famosa família musical Farulli, conhecida pelo seu Quarteto Italiano), que teve grande influência no desenvolvimento do seu gosto estético.

Arbustos vermelhos, óleo sobre tela (1994)

Em Florença, Elide estudou também as obras de pintores contemporâneos e grandes mestres do século XX. Ela foi atraída pelas obras de Paul Klee e da vanguarda russa. Em 1991, recebeu uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores italiano, para estudar em Moscou e pesquisar sobre a Avantgarde russa. No entanto, a sua estadia foi abreviada pelas turbulências políticas ocorridas na Rússia, naquele ano, decorrentes da implosão da União Soviética.

Elide estava interessada em diferentes versões do expressionismo dos EUA e Europa. Igualmente, estudou a poesia de Paul Celan, que perdera toda a família no Holocausto da II Guerra Mundial, além dos escritos da filósofa francesa Simone Weil e a obra de grandes cineastas, como Ingmar Bergman, Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Luchino Visconti e Andrei Tarkowski.  Outros artistas que lhe interessaram foram os pintores mexicanos David Alfari Siqueiros, Diego Rivera e Jose Orozco, ao mesmo tempo em que se sentia atraída pelo expressionismo estadunidense de Mark Rothko, Jackson Pollock, Willem de Kooning e Edward Hopper.

De Florença a Moscou

Em 1992, Elide voltou à Rússia, após ter recebido a habilitação na Itália para lecionar como professora de artes. Em Moscou, trabalhou com um grupo de filósofos, psicólogos e linguistas do Instituto para o Desenvolvimento da Educação, presidido pelo Prof. Yuri Gromyko, tendo escrito muitos artigos para publicação pelo Instituto.

Como queria ficar na Rússia, Elide escreveu ao prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, e ao então primeiro-ministro Vladimir Putin, pedindo-lhes ajuda para a sua permanência. Viver em tal ambiente cultural era uma novidade para ela. A capital russa, embora não se comparasse a cidades com tradições de arte como Paris ou Nova York, abrigou e inspirou artistas importantes, como Marc Chagall, Vassili Kandinski, Kazimir Malevic, Henri Matisse e outros, que foram profundamente inspirados pela riqueza da arte russa.

O que fascinava Elide eram a luz branca, o silêncio, os enormes bosques de bétulas e, principalmente, as igrejas russas do Norte, com seus ícones. A riqueza humana, a sua profunda cultura e espiritualidade, tudo isto foi a razão para ficar neste “país da alma”, como escreveu uma vez Marina Cvetaeva. Elide sentia-se em perfeita sintonia com a Rússia e sua cultura. Morando em Moscou, estudou as obras dos museus mais importantes da cidade. Ao mesmo tempo, fez extensos estudos sobre a Bíblia, as obras do conhecido filósofo russo Pavel Florenski (1882-1937), bem como a obra de Leonardo da Vinci e do famoso pintor de ícones Andrei Rublev (1360-1430). Em um ensaio publicado na revista cultural alemã Ibykus [da qual Elisabeth Hellenbroich foi diretora – n.e.], em 2002, Elide comparou a arte de Rublev com a de Masaccio, Leonardo e Fra Angelico. Segundo ela, “esses pintores compartilham o mesmo objetivo: a aproximação e a unificação do Divino e do Humano”.

Tributo a Giotto, óleo sobre tela (1996)

Elide morou três anos no apartamento do conhecido historiador da arte Michael Alpatov, falecido em 1986. No apartamento, tudo permanecera como Alpatov o deixara e ela pode usar a sua enorme biblioteca e estudar os seus livros de arte e poesia. Elide veio à Rússia para imergir no meio ambiente deste país, com todas as suas características. O que realmente a atraiu foi “a incrível riqueza humana, sua cultura e profunda espiritualidade”. O país tornou-se um laboratório de sua atividade artística. Em vez de telas grandes com acrílico, ela pinta cada vez mais com cores a óleo e, gradualmente, o raspador é substituído pelo pincel.

O seu quadro Rossi Cespugli (Arbustos vermelhos), de 1994, precede uma longa série de trabalhos em que ela experimenta o potencial da cor vermelha e a combina com outras cores. Elide usa a cor como principal meio de expressão, muito semelhante às emoções básicas de Mark Rothko, como tragédia, êxtase, tristeza. Ela atua nas cores vermelha e branca. O vermelho triunfa sobre a morte, é a simbologia cristã da ressurreição e, na Rússia, essa combinação vermelho/branco costuma ser encontrada no contexto dos ícones. Em termos de diferença entre italianos e russos, a noção de espaço é relevante. O que chamou a atenção de Elide foi o que se poderia chamar de “espaço interno”. Ela ficou fascinada com a severa simplicidade das imagens nos ícones da Escola de Novgorod e Pskov e com o refinamento do pincel. A Escola de Novgorod despertou nela emoções profundas. Rosso inverno (Inverno vermelho) é pintado sobre fundo vermelho, inspirado nas reflexões de Pavel Florenski sobre a relação entre a terra e o céu, entre o mundo visível e o invisível. Segundo ele, o artista está fazendo um movimento de “ascensão” e a alma se nutre contemplando a essência do reino dos céus.

Em 1996, Elide pintou dois quadros de grande importância: Tributo a Giotto e Andrei Rublev. Para ela, aquele foi o momento de expressar na tela o encontro de dois espaços diversos, o do Renascimento e os dos ícones russos. Nostalgia de Leonardo, de 2000, é como uma revisita ao Annunciamento de Leonardo, usando um conceito de espaço típico do Renascimento italiano, com bosques, árvores, rios e montanhas no horizonte.

Andrei Rublev, óleo sobre tela (1996)

Luz das aquarelas

O profundo sentido de “espaço sagrado” lhe foi revelado por Pskov. Ainda jovem, ela estudou em Asti e Florença as igrejas dos séculos XII, XIII e XIV, sendo profundamente inspirada pelas igrejas de Pskov e tendo pintado uma série de aquarelas. Para Elide, a técnica da aquarela tem importância especial por apresentar um trabalho sutil sobre a cor e a luz. A técnica extrapola os toques leves do pincel e produz os tons mais sutis da cor. Em Pskov, as paredes brancas da igreja recebem reflexos da neve e das sombras e, em torno disto, há um espaço silencioso, é uma vida silenciosa.

Noite de outono, aquarela sobre papel de algodão (2002)

Há um pequeno ícone de Novgorod denominado Anjo da capela de ouro, do século XII, que pode ser visto no Museu de São Petersburgo. Inspirado nele, Elide pintou Angelo II (2012), uma variação sobre o tema de Duccio di Buoninsegna.

Angelo II, óleo sobre tela (2012)

 A arte como método pedagógico

Como é possível que um artista italiano tenha criado um laboratório em um orfanato de Moscou? A resposta é dada pelo diretor da casa, Vadim Mansov, que lembra que Elide iniciou o seu trabalho educativo no orfanato “A nossa casa” em 2013, conseguindo, com o seu método pedagógico, transformar todo o lugar, construindo uma espécie de “laboratório italiano”, que irradia uma atmosfera peninsular em termos de cores e móveis.

Mansov observa que, quando uma criança com grandes problemas entra no laboratório de arte, ela criança pode não se tornar uma artista, mas “Elide é capaz de mostrar o que há dentro da pessoa. Ela emana calor humano e produz em cada criança algo especial que se expressa no trabalho artístico da criança. (…) Jamais teria pensado que um de nossos filhos chegaria ao nível de pintar ícones. Mas há um aluno que aprendeu com Elide a fazer isso com grande paixão e, por isso, decidiu continuar os seus estudos em uma escola de arte”.

N.A. – A autora deste artigo conheceu pessoalmente e passou a apreciar Elide Cabassi em outubro de 2001, em Munique, quando o Instituto Cultural Italiano organizou uma exibição de suas obras, intitulada “Os limiares do ser”.

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