O boicote do Dia da Vitória em Moscou

angelamerkel

No próximo dia 9 de maio, serão celebrados os 70 anos do final da II Guerra Mundial. Na ocasião, haverá em Moscou a tradicional parada militar do Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica (nome dado pelos russos ao conflito), com a presença de dezenas de líderes mundiais – incluindo de quase toda a Ásia, dos BRICS, do Oriente Médio e da Organização de Xangai para Cooperação (SCO, em inglês). No entanto, os governantes dos EUA e da União Europeia (UE) decidiram boicotar o evento e somente o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras decidiu participar, tendo o presidente da República Checa, Miklas Zeman, cancelado a sua participação no último minuto, após uma forte pressão do embaixador americano, Andrew Shapiro.

Por sua vez, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que somente visitará Moscou no dia seguinte, para, junto com o presidente russo Vladimir Putin, participar de uma cerimônia menor, a ser realizada no Túmulo doSoldado Desconhecido. O pretexto para o boicote ocidental é o de que a Rússia teria violado o direito internacional, ao anexar a Península da Crimeia e, portanto, o país precisaria “receber uma lição“.

As celebrações de 9 de maio constituem um evento de enorme importância simbólica para a Rússia, pois o país teve de longe o maior número de vítimas pela vitória na luta contra o nazifascismo, com 27 milhões de mortos, entre militares e civis.

Os sinais políticos emitidos pelos EUA e pela UE em relação à Rússia indicam que a temperatura política está subindo novamente na Europa. Isto se alinha com a nova rodada de propaganda na mídia ocidental em relação à Ucrânia, agora, alegando que os rebeldes do Leste do país, apoiados pela Rússia, teriam recentemente violado inúmeras vezes o acordo de Minsk II. Coincidentemente, com a chegada de algumas centenas de “instrutores militares” estadunidenses à Ucrânia e o posicionamento sistemático de estados do Leste Europeu contra a Rússia, parece que tudo está sendo conduzido para resultar em um nova explosão no conflito armado entre Kiev e oLeste.

Um indicativo da mudança de temperatura foi o encontro do dia 13 de abril, em Berlin, entre os ministros das relações exteriores da Rússia, Alemanha, França e Ucrânia, para debater os aspectos do acordo Minsk II. Além de um acordo de cessar-fogo e de retirada de armas pesadas, os representantes dos quatro países concordaram com a necessidade de se criar com rapidez quatro grupos de trabalho, para debater assuntos de segurança, a realização de eleições locais nas áreas ocupadas pelos rebeldes, o reinício da troca de prisioneiros de guerra e uma melhora geral na situação no Leste da Ucrânia.

Na reunião, o ministro alemão Frank-Walter Steinmeier afirmou: “Todos sabemos que temos um longo caminho pela frente… mas faremos tudo o que pudermos para continuar nesse processo [pela paz].” Já o seu colega russo, Sergei Lavrov, mostrou-se mais crítico, ao destacar a necessidade de “se respeitarem os acordos de Minskem sua totalidade, não apenas no segmento militar, mas também nas esferas política, econômica e humanitária”.

Outro indicador do aumento da tensão política na Europa foi uma recente entrevista do último primeiro-ministroda antiga República Democrática da Alemanha (DDR), Lothar Maizière, publicada pelo jornal Südwest Presse. Nos últimos dez anos, ele ocupou a presidência do prestigioso Diálogo de Petersburgo, uma iniciativa russo-germânica criada conjuntamente por Putin e pelo então chanceler alemão Gerhard Schroeder. Nos últimos anos, o fórum tem servido como uma plataforma para reunir representantes da sociedade de ambos os países, bem como de setoresda economia, cultura, ciência e política.

Na entrevista, Maizière disse que foi substituído na presidência do Diálogo, em 17 de abril. O seu sucessor escolhido foi Hans Pofalla, ex-secretário do Escritório da Chanceleria alemã, que não é tido como um grande conhecedor da Rússia. Ele também destacou que tem sido alvo de uma campanha de pressões sistemática, por ter expressado uma forte oposição em relação à política do Ocidente – Alemanha inclusive – em relação à Rússia, com ênfase nas sanções, além da sua defesa da “federalizaçãoda Ucrânia.

Maizière fez questão de destacar que a Rússia é um grande país, com um grande povo, com poetas como Dostoiévski e Tolstoi, compositores como Tchaikovsky e Shostakovich, e pintores como Kandinsky, que pertencem ao mesmo espaço cultural e espiritual europeu. Além disso, ele afirmou que, ao pedir uma “reforma” do Diálogo de Petersburgo, a chanceler Angela Merkel pressionou indiretamente pela sua saída da direção da entidade.

A disputa pela energia

O aumento da temperatura política se mostra, igualmente, nos fortes ataques que têm sido dirigidos aos paísesda UE que estão buscando uma parceria maior com a Rússia na área energética, como a Grécia, Hungria, Macedônia, Sérvia e Turquia.

O gasoduto Turkish Stream mostra que, ao lado da atual conflito geoestratégico entre a Rússia e a Ucrânia, há muitos outros interesses econômicos envolvidos. Entre eles, empresas agroindustriais dos EUA, como a Cargill, que querem se apropriar das vastas terras férteis da Ucrânia, bem como o desejo de Washington de garantir uma maior participação no mercado de energia europeu, afastando o bloco da sua dependência em relação à Rússia e tornando-o mais dependente do mercado de energia estadunidense.

De acordo com sítio russo em língua alemã Russland.ru, em 9 de abril, ocorreu uma reunião em Budapeste, Hungria, em que os ministros das Relações Exteriores da Grécia, Turquia, Macedônia e Sérvia assinaram uma declaração de intenções em apoio ao projeto do gasoduto Turkish Stream. O projeto tem sido debatido entre representantes do governo turco e da companhia russa de energia Gazprom, como uma alternativa ao projeto South Stream, cancelado pela Rússia no ano passado, devido às restrições da UE.

Na sua declaração de intenções, os ministros ali reunidos afirmaram que o Turkish Stream é uma “opçãocomercialmente viável”, que promove a diversificação do abastecimento de gás no Centro e no Sudeste daEuropa. O documento também pede que a UE apoio financeiramente a construção do gasoduto, já que ele servirá como uma rota alternativa para o suprimento de gás russo à Europa, via Bulgária, Sérvia e Hungria. Atualmente um terço do gás russo chega ao bloco europeu pela Ucrânia.

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