Egito: para ajudar a entender a esfinge

Para a maioria dos observadores ocidentais, pouco habituados a enxergar além dos discursos maniqueístas sobre regimes “democráticos” e “autoritários”, foi uma surpresa ver dezenas de milhões de egípcios nas ruas das maiores cidades do país, para protestar furiosamente contra o democraticamente eleito presidente Mohamed Mursi. E a surpresa se converteu em choque, após a deposição de Mursi pelas Forças Armadas, na quarta-feira 3 de julho, e sua pronta substituição pelo presidente do Tribunal Constitucional, Adli Mansour, empossado como presidente interino até a realização de novas eleições gerais, prometida para seis meses. No entanto, o que alguns analistas apressados rotulam como um retrocesso para a “Primavera Árabe”, envolve aspectos mais profundos que uma mera rejeição da democracia de padrão ocidental pelos povos islâmicos – na verdade, embora quase 90% da população seja muçulmana, a maioria dos egípcios rejeita, precisamente, a “islamização” forçada, não apenas da política, mas de todos os aspectos de suas vidas, como estava evidenciado na agenda da Irmandade Muçulmana de Mursi. E a derrocada de Mursi significa, também, um duro golpe no maldisfarçado empenho das potências ocidentais no sentido de instrumentalizar o radicalismo islâmico em favor da sua agenda hegemônica na região.

Após um início de mandato promissor, em que chegou a ensaiar uma linha equidistante do alinhamento automático com o Ocidente e do radicalismo clerical da Irmandade Muçulmana (Resenha Estratégica, 29/08/2012), Mursi passou a pautar as suas ações de uma forma crescente pela agenda da Irmandade, colocando seus representantes em postos-chave do gabinete ministerial, como as pastas da Educação, Mídia, Assuntos Religiosos, Assuntos Sociais e Cultura – processo rotulado por seus opositores como “Akhwwana”, ou “Fraternização”. Em um artigo publicado no sítio Al-Monitor.com, em 2 de julho (“É a identidade egípcia, estúpido!”), o escritor e ativista político Wael Nawara explica:

É claro que os egípcios estão zangados com os preços, a escassez de combustível e os cortes de eletricidade, e que estes problemas amplificaram a causa da rebelião. Mas o Egito é uma nação que tem lidado, há décadas, pacientemente, com a escassez. O que, agora, enraiveceu as pessoas, em particular, foi a sensação de estarem perdendo o meio de vida distinto do Egito. Para iniciantes, a constituição aprovada por uma maioria islamista codificava restrições ultraconservadoras sobre a liberdade de culto e expressão, usando termos que, de fato, penalizam as pessoas que, alegadamente, não respeitam os “valores sociais”, o que significa, mais ou menos, quaisquer valores que o governo e seus aliados considerem como tais. Especialistas em educação advertiram que os Irmãos recentemente nomeados para o Ministério da Educação estavam alterando os currículos, para ajustá-los à ideologia conservadora da Irmandade Muçulmana. Os Irmãos também removeram dos livros de História os capítulos que descreviam o passado violento de sua organização. Quando o ministro da Cultura demitiu alguns funcionários de alto escalão e surgiram rumores de que ele estava considerando um banimento do balé, artistas e performáticos fizeram manifestações e exibições de balé na rua, incluindo “Zorba o Grego”.

As emoções e os sentimentos desempanham um papel importante na maneira como as pessoas tomam decisões, que não se baseiam apenas em cálculos racionais. Em vez disto, os sentimentos e emoções usam avaliações complexas, que ocorrem no nível dos instintos de sobrevivência profundamente enraizados. Muitos fatores emocionais têm contribuído para fazer os egípcios sentirem um ameaça à sobrevivência do Egito como nação.

De fato, o que parece ter sido a gota d’água para a decisão dos militares de depor Mursi foi o escandaloso endosso do presidente a uma “guerra santa” (jihad) contra o regime do presidente sírio Bashar al-Assad, conclamada por clérigos radicais da Irmandade Muçulmana, em meados de junho. Na ocasião, Mursi determinou o rompimento de relações diplomáticas com Damasco, o que muitos observadores consideraram um tremendo erro estratégico de altíssimo potencial desestabilizador. Por ironia, o primeiro a ser desestabilizado foi o seu próprio governo, enquanto o regime de Assad ganhava um inesperado reforço político. Em entrevista à agência Sana, em 6 de julho, o próprio líder sírio observou:

O que está acontecendo no Egito é, essencialmente, a queda do Islã político, o tipo de sistema de governo que a Irmandade Muçulmana tentava promover regionalmente… A experiência fracassou rapidamente, porque se fundamentava em uma base errada… Usar a religião para a política ou um certo partido político está, inevitavelmente, destinado a fracassar em qualquer lugar do mundo. Países como o Egito, Iraque e Síria estão localizados estrategicamente e profundamente enraizados na istória da região, por milhares de anos. Consequentemente, os povos dessas terras têm um rico reservatório de conhecimento, percepção, cultura e civilização humana, que os torna imunes a narrativas enganosas… Isto se aplica, especialmente, aos egípcios, que representam uma civilização de milhares de anos uma uma ideologia nacionalista árabe singular. O que aconteceu há um ano foi uma consequência não testada do partido político que governava antes, mas, agora, o quadro emergiu mais claramente para os egípcios e o desempenho da Irmandade Muçulmana revelou as mentiras que expunham no início da revolução. (…)

A queda de Mursi significa, igualmente, um sério revés para o premier turco Recep Tayyip Erdogan, ele próprio um islamista nominalmente moderado, que teve recentemente a sua cota de problemas com manifestantes contrários às suas tentativas de impor preceitos islâmicos ao cotidiano dos turcos, ferrenhamente ciosos da secularização do seu Estado (Resenha Estratégica, 12/06/2013).

Segundo a imprensa turca, Erdogan sentiu-se quase pessoalmente atingido pela deposição de Mursi, retornando antecipadamente de um descanso de alguns dias, para desfechar uma série de acusações contra o Ocidente, em especial, a Europa, pela relutância inicial em rotular a ação dos militares egípcios como um golpe de Estado (ensejada pelos EUA, devido às restrições do Congresso contra ao fornecimento de ajuda financeira a países sob regimes de exceção política). Depois de estragar a sua anteriormente bem sucedida política externa de “zero problema com os vizinhos” e adotar a agenda intervencionista da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), tanto na Líbia como na Síria, Erdogan e seu chanceler Ahmet Davutoglu sonhavam com o estabelecimento de um eixo Ancara-Cairo, devidamente azeitado pelas inclinações islamistas dos dois governos. Agora, serão obrigados a refazer o dever de casa.

Mas, acima de tudo, a derrocada de Mursi foi celebrada e, provavelmente, apoiada por uma ampla coalizão de forças da região e de fora dela, que atuam para tentar neutralizar a agenda hegemônica das potências da OTAN, potencializada após a decisão da Federação Russa de traçar a sua própria “linha vermelha” no chão, contra a conversão da Síria em uma nova Líbia. Em uma análise publicada pela Fundação de Cultura Estratégica russa, o jornalista investigativo estadunidense Wayne Madsen, ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA), observou:

Os xiitas do Oriente Médio, representados pelo Irã e o Hisbolá libanês; os alauítas minoritários, representados pelo governo de Assad e a oposição secular do Partido Popular Republicano (CHP) da Turquia e seu líder alauíta Kemal Kililcdaroglu; o legado cristão da região, representado pelo presidente libanês Michael Suleiman e os cristãos pró-Assad no gabinete libanês; a Armênia, Rússia, Grécia e o Vaticano viam como uma “linha no chão” a tentativa de dominar a Síria dos salafistas radicais, inclusive membros da Al-Qaida. Depois que [o presidente Barack] Obama autorizou a transferência de armas estadunidenses para os rebeldes sírios, que consistem, principalmente, de guerrilheiros mujahidin estrangeiros que acabam de retornar dos combates no Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália e Iêmen, aqueles que se recusavam a ver o Oriente Médio cair sob o domínio de um bloco sunita wahabita dominado pelo Catar e a Arábia Saudita, desfrutando do apoio tácito de Israel e dos EUA, decidiram agir. Os militares egípcios foram os primeiros a atuar.

É claro que a “Doutrina Obama”, que pedia o apoio político e financeiro dos EUA para a deposição de regimes seculares com legados de socialismo pan-árabe, seguido pelo apoio militar via terceiros, como a OTAN e o Conselho de Cooperação do Golfo, monarquista, árabe e wahabita, morreu na Praça Tahrir, em meio à revolução do “Verão Árabe” egípcio. (…) (Strategic-Culture Foundation, 5/07/2013).

Embora qualquer prognóstico sobre a situação do Egito seja temerário, pois o risco de um grave conflito civil no país não pode ser descartado, e apesar da ameaça sempre latente de uma provocação de Israel, o quadro regional não se mostra, efetivamente, favorável à agenda das potências hegemônicas. E não deixa de ser uma ironia que tal cenário ostente uma tintura da Guerra Fria, quando a União Soviética atuava como contrapeso às maquinações da aliança ocidental.

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