“Diretrizes Brasil no. 4”: retorna um “clássico” da desinformação

Nos últimos dias, visitantes deste sítio chamaram a atenção para a veiculação de mensagens eletrônicas contendo o que seria uma evidência supostamente explosiva sobre as articulações do aparato ambientalista-indigenista internacional contra o Brasil, o documento denominado “Diretrizes Brasil no. 4 – ano 0”, emitido por um “Conselho Mundial das Igrejas Cristãs”, com sede em Genebra, Suíça. Ocorre que o referido texto, além de apócrifo, é uma notória peça de desinformação sobre o aparato indigenista, provavelmente, elaborada dentro dele próprio, e já circula no País há mais de duas décadas, desde os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987-1988. O objetivo da sua criação é claro, tanto na época, como ainda hoje: desqualificar como exageradas as denúncias sobre a agenda ambientalista-indigenista e seus atores.

O truque é apresentar certos elementos da agenda com toques de exagero e mesclados com entidades inexistentes. O resultado é um fruto de aparência apetitosa, mas tóxico, que, como a proverbial maçã envenenada dos contos de fadas, pode afetar seriamente quem o morder. Embora largamente desacreditado, a sua reemergência, neste momento, sugere que os mentores do aparato indigenista estão acusando as pressões crescentes que se verificam em vários setores da sociedade contra a sua agenda intervencionista e antinacional.

O documento se refere às deliberações de um suposto “I Simpósio Mundial sobre Divergências Interétnicas na América do Sul”, que teria contado com as seguintes entidades: Le Comité International de La Defense de l’Amazonie; Inter-American Indian Institute; The International Ethnical Survival; The International Cultural Survival; Workgroup for Indigenous Affairs; The Berna-Geneve Ethnical Institute; “e este Conselho Coordenador”.

Entre as diretrizes delineadas no documento, cujo original estava escrito em língua inglesa, destacavam-se algumas particularmente ultrajantes:

A – A Amazônia total, cuja maior área fica no Brasil, mas compreendendo também parte dos territórios venezuelano, colombiano e peruano, é considerada por nós como um patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa área pelos países mencionados é meramente circunstancial, não só decisão de todos os organismos presentes ao simpósio, como também por decisão filosófica dos mais de mil membros que compõem os diversos conselhos de defesa dos índios e do meio ambiente.

B – É nosso dever: prevenir, impedir, lutar, insistir, convencer, enfim, esgotar todos os recursos que, devida ou indevidamente, possam redundar na defesa, na segurança, na preservação desse imenso território e dos seres humanos que o habitam e que são patrimônio da humanidade e não patrimônio dos países cujos territórios, pretensamente, dizem lhes pertencer.

C – É nosso dever: impedir em qualquer caso a agressão contra toda a área amazônica, quando essa se caracterizar pela construção de estradas, campos de pouso, principalmente quando destinados a atividades de garimpo, barragens de qualquer tipo ou tamanho, obras de fronteiras civis ou militares, tais como quartéis, estradas, limpeza de faixas, campos de pouso militares e outros que signifiquem a tentativa ou do que a civilização chama de progresso. (…)

H – É nosso dever exercer forte pressão junto às autoridades locais desse país, para que não só respeitem o nosso objetivo, mas o compreenda, apoiando-nos em todas as nossas diretrizes. É nosso dever conseguir o mais rápido possível emendas constitucionais no Brasil, Venezuela e Colômbia, para que os objetivos destas diretrizes sejam garantidos por preceitos constitucionais.

I – É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígenes, para o seu desfrute pelas grandes civilizações européias, cujas áreas naturais estejam reduzidas a um limite crítico.

As “Diretrizes” motivaram uma série de reportagens do jornal O Estado de S. Paulo, em agosto de 1987, denunciando a ingerência externa nos trabalhos da Assembleia Constituinte, as quais levaram à instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o assunto. Evidentemente, por basear-se em documentos apócrifos, embora envolvendo certos fatos verídicos, a CPI não proporcionou quaisquer resultado relevante.

O objetivo da divulgação das “Diretrizes” era evidente: oferecer um falso “boi de piranha”, uma contrafação que pudesse ser facilmente desqualificada, para desacreditar quaisquer denúncias sobre a ingerência das redes do aparato indigenista, capitaneado pelo verdadeiro Conselho Mundial de Igrejas (CMI) nos trabalhos constitucionais brasileiros. O próprio nome “Conselho Mundial de Igrejas Cristãs” é quase idêntico ao do CMI, cuja sede, efetivamente, fica em Genebra. Igualmente, os nomes das demais entidades signatárias eram inspirados nos de organizações existentes, mas nenhuma delas era real.

No livro Quem manipula os povos indígenas contra o desenvolvimento do Brasil: um olhar nos porões do Conselho Mundial de Igrejas (Capax Dei, 2013), os jornalistas Lorenzo Carrasco e Silvia Palacios, membros do conselho editorial do Alerta em Rede, descrevem com detalhes o funcionamento desta rede de entidades intervencionistas.

Quanto às diretrizes em si próprias, apesar de refletirem com fidelidade o pensamento e as intenções da agenda do CMI, a linguagem explicitamente agressiva era uma forma de tornar os fatos reais imunes a críticas – velho truque integrante do arsenal de agências de inteligência, como as representadas no próprio CMI.

x

Check Also

Juiz anula ampliação de terra indígena em MS com base no marco temporal

O aparato indigenista está em fúria, após a anulação da demarcação da Terra Indígena Panambi-Lagoa ...