Dez anos após desastre de Alcântara, programa espacial não decola

Em 22 de agosto de 2003, uma explosão seguida de um violento incêndio destruiu o terceiro protótipo do Veículo Lançador de Satélites (VLS) e matou 21 técnicos e engenheiros, no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Desde então, o programa espacial brasileiro avançou pouco. O VLS, cujo projeto foi refeito com a colaboração de uma empresa de engenharia russa, só deverá ser lançado novamente em 2015, para um vôo de testes. A associação com a Ucrânia na empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), para o lançamento de satélites a partir do CLA, com o foguete Cyclone-4, também se arrasta, com o primeiro lançamento previsto para 2014, mas ainda incerto. E o jornal O Estado de S. Paulo de 29 de julho anunciou que o governo brasileiro está negociando um novo acordo com os EUA, envolvendo a utilização do CLA, o qual deverá ser assinado durante a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington, em outubro.

Em 2012, foi lançada a nova edição do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), com uma ambiciosa agenda de projetos a serem, em tese, implementados até 2021. A pauta prevê o lançamento de nada menos que 11 satélites de vários tipos e cinco foguetes lançadores, a saber:

– CBERS-3 e 4 (China-Brazil Earth Resources Satellite): quarto e quinto de uma série de satélites de sensoriamento remoto projetados e construídos em cooperação com a China; o CBERS-3 deverá ser lançado em outubro deste ano e o CBERS-4, em 2014, ambos pela China;

– SGDC-1 e 2 (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas): satélites de comunicações e apoio ao Programa Nacional de Banda Larga, cujos projetos e operação serão coordenados pela empresa Visiona Tecnologia Espacial (joint-venture entre Embraer e Telebrás); o primeiro será projetado e construído pela empresa francesa ThalesAlenia Space e deverá ser lançado em 2016; o segundo, ainda não contratado, tem lançamento previsto para 2019;

– Amazônia-1, 1B e 2: satélites de sensoriamento remoto, projetados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em cooperação com várias empresas brasileiras, deverão ser lançados, respectivamente, em 2015, 2017 e 2019;

– SAR (Satélite Radar de Abertura Sintética): desenvolvido pelo INPE, será empregado em atividades militares e civis de vigilância, proteção ambiental e gestão de recursos naturais; lançamento previsto para 2020;

– SABIA-MAR (Satélite Argentino-Brasileiro de Informações Ambientais Marítimas): projeto conjunto com a Argentina, para o monitoramento ambiental da costa do Atlântico Sul; tem lançamento previsto para 2019;

– GEOMET-1: satélite meteorológico, com lançamento previsto para 2018;

– Lattes: satélite de estudos do espaço exterior, projetdo pelo INPE em cooperação com empresas brasileiras, deverá ser lançado em 2018;

– VLM (Veículo Lançador de Microssatélite): foguete de três estágios e combustível sólido, desenvolvido em parceria com a Alemanha, capaz de colocar até 150 kg de carga útil em órbitas baixas; o primeiro vôo está previsto para 2015;

– VLS-1 V04: quarta versão do foguete, com quatro estágios e comustível sólido, deverá levar 250 kg de carga útil até 700 km de altitude;

– VLS-Alfa: foguete de três estágios, sendo o último de combustível líquido, capaz de colocar satélites de até 500 kg em órbitas de até 750 km; primeiro vôo previsto para 2018;

– VLS-Beta: foguete de três estágios, os dois últimos de combustível líquido, capaz de coloar satélites de até 800 kg em órbitas de até 800 km; primeiro vôo previsto para 2020;

– Cyclone-4: foguete de combustível líquido capaz de lançar cargas de até 1.600 kg em órbitas geoestacionárias (36.000 km de altitude) ou 5.300 em órbitas equatoriais baixas (até 1.400 km); o primeiro vôo deverá ocorrer em 2014.

Como se percebe, o programa cobre praticamente todas as necessidades do País no setor e, se cumprido plenamente, implicará em importantes ganhos de capacitação tecnológica. O problema, como tem sido o histórico do programa espacial doméstico, é que ele necessita de recursos da ordem de R$ 9,1 bilhões, até 2021, orçamento quase uma ordem de grandeza superior ao que tem sido alocado às atividades aeroespaciais, no passado recente. E, num País em que as lideranças nacionais não conseguem enxergar a relevância estratégica do setor, esta é uma limitação das mais sérias.

Apenas no caso do VLS-1, segundo o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Braga Coelho, o projeto necessita de R$ 178,4 milhões para ser finalizado, mas, este ano, dos R$ 45,7 milhões alocados a PNAE, apenas R$ 16,4 milhões foram garantidos até agora (Notícias Terra, 22/08/2013).

Por aí, já se pode antever a grande dificuldade de que a agenda do PNAE venha a ser cumprida de acordo com os planos originais.

O gerente do projeto VLS-1 e chefe da Coordenadoria de Projetos Espaciais do Instituto de Aeronáutica e Espaço, tenente-coronel-aviador Alberto Walter da Silva Mello Júnior, sintetiza o dilema nacional no setor: “Temos profissionais capacitados, treinados e respeitados mundialmente; possuímos o domínio da tecnologia e exportamos foguetes suborbitais; sabemos como realizar operações espaciais complexas e possuímos um centro de lançamento invejável por sua localização e funcionalidade. No entanto, todo projeto de alta tecnologia envolve desenvolvimentos e capacitações industriais dispendiosas. Sem fluxo de recurso adequado, o cronograma físico atual não poderá ser seguido, implicando novos atrasos (Notícias Terra, 22/08/2013).”

Com ele faz coro o astrônomo Naelton Mendes de Araújo, da Fundação Planetário do Rio de Janeiro: “Não basta vontade para entrar no clube espacial. É preciso persistência e investimentos a longo prazo, em formação de pessoal e desenvolvimento de equipamentos. Sem unir esforços contínuos de militares, de universidades, de políticos e da indústria, não haverá foguete brasileiro nos próximos anos.”

O atraso no setor deixa o Brasil na incômoda condição de ser o único dos grandes membros do grupo BRICS que não dispõe de capacidade própria de lançamento de satélites, tem as suas comunicações militares dependentes de um satélite operado por uma empresa estrangeira e depende de satélites meteorológicos estrangeiros para o seu sistema de previsão do tempo. Evidentemente, comparações diretas com a China, a Índia e, muito menos, a Rússia, não são totalmente cabíveis, pois os programas espaciais destes países têm um forte conteúdo militar. Mas, ainda assim, a incapacidade nacional de fazer avançar um programa espacial cujas raízes efetivas remontam à década de 1960 (apenas o projeto do VLS tem três décadas) denota uma colossal miopia estratégica por parte de sucessivos governos.

Uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo de Televisão, sobre o acidente de Alcântara, levada ao ar em 11 de agosto, proporcionou um vislumbre da mentalidade de “economia de palitos” com a qual o setor costuma ser contemplado. Na ocasião, o País foi informado de que o Ministério do Planejamento está questionando os valores das pensões das viúvas dos especialistas vitimados no acidente. Embora nem os valores envolvidos nem os motivos de tamanho zelo com as contas públicas tenham sido revelados, possivelmente, os tecnocratas brasilienses estão preocupados com o impacto das pensões no sacrossanto superávit primário, sempre a prioridade máxima do governo federal, independentemente do grupo político que ocupe o Palácio do Planalto.

Diante de fatos como esse, não é difícil entender por que os esforços espaciais brasileiros não conseguem deixar a plataforma de lançamento.

3 comments

  1. A explosão da base de Alcântara,está relacionada ao declínio do programa espacial americano,ocorrido 6 meses antes em 2003.Não me é estranho,que haja sabotagem no nosso programa espacial brasileiro.Tem dedo da cia nessa explosão,sim!!

  2. No site da “Ria Novosti” aparece com data 20.10.2013: Titulo “Russia Offers Brazil New Joint Space Projects”. (Aparece o foto do Ministro de Defesa Sergei Shoigu, quem esteve 14-17 Oct. no Brasil. Shoigu nao e russo, e da etnia siberiana-asiatica Tuva. Tem historia de bom administrador tecnico administrativo. ) O reportagem e acerca conversas futuras entre expertos do Brasil e da Russia, e para completar o projeto VLS-1 de AEB com Roscosmos. ———————————————Interesante lembrar que o transportador espacial Soyuz russo e agora o so veiculo com capacidade satisfactoria para proveer a “international” Space Station: Seque conviavel desde decadas! (India e Russia, juntos mantem varios programas de desenvolvimento de armas, inclusive o aviao caza da 5ta generacao. )

  3. “Graças à internet podemos, por exemplo, ter informações completas sobre um dos episódios mais patéticos da História recente do Brasil, que se deu em 18 de abril de 2000: a assinatura de um acordo entre o então ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, e o então embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Anthony Harrington.
    O acordo viria a ser anulado, diante da reação de políticos e militares. Tratava do uso, pelos Estados Unidos, da base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão.”
    Logo em seguida ao rompimento deste contrato houve a explosão de Alcântara. Para mim foi um dos maiores erros do governo Lula a não investigação sobre ente caso.

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