Conferência de Munique: comunidade estratégica perdida com tantas crises

Na edição em que celebrava o seu cinquentenário, a Conferência de Segurança de Munique (CSM), realizada entre 31 de janeiro e 2 de fevereiro, deixou claro que a comunidade estratégica das principais potências mundiais não tem respostas definidas para enfrentar a profusão de crises que tem assolado as suas áreas de influência. Isto ficou particularmente evidente nas reações divididas diante da crise em curso na Ucrânia.

Um aspecto-chave tratado no evento foi o papel que a anfitriã Alemanha pretende desempenhar nos assuntos mundiais. Este ano, coube ao presidente alemão Joachim Gauck proferir o discurso inaugural da conferência, fato até então inusitado. Em sua exposição, Gauck definiu o futuro papel da Alemanha como um compromisso de assumir “mais responsabilidades” mundiais, em lugar de ficar à margem dos acontecimentos. Muitos comentaristas interpretaram o discurso como uma manifestação de uma grande “guinada” da Alemanha, que passaria a envolver-se mais concretamente em situações de conflitos, em vez de simplesmente evitar interferir nelas.

Entretanto, essa nova orientação corre o risco de tornar-se uma “armadilha geopolítica”, pelo menos, quanto à Ucrânia. Visivelmente, o governo alemão não tem qualquer interesse estratégico em promover uma escalada no conflito interno ucraniano ou em deixá-lo se transformar em uma balbúrdia violenta. Como disse, em Munique, o ministro das Relações Exteriores Frank-Walter Steinmeier, Berlim está em busca de uma “solução pacífica”, juntamente com a Rússia, que também tem numerosos interesses estratégicos na Ucrânia. E a Alemanha não tem qualquer interesse em criar um impasse com a Rússia. Não obstante, tais fatos parecem colocar-se em desacordo com os interesses estratégicos dos EUA, como se pode observar pelos discursos do secretário de Estado John Kerry e do secretário de Defesa Chuck Hagel, bem como pela presença de altos funcionários do governo estadunidense em Kiev. Todos deixaram bem claro que Washington pretende fazer o que estiver ao seu alcance para apoiar a oposição ao presidente Viktor Yanukovich, tanto em termos de apoio politico como material.

O espectro da I Guerra Mundial

Steinmeier sinalizou o dilema enfrentado pela Alemanha, cujos interesses tradicionais favorecem o engajamento emu ma cooperação construtiva com a Rússia. Mencionando o recém-publicado livro Sleepwalkers (Sonâmbulos), sobre a I Guerra Mundial, do historiador britânico Christopher Clark, ele afirmou que a obra deveria ser estudada pelos politicos e diplomatas atuais e entendida como “uma advertência”. Em 1914, disse ele, em poucas semanas, a Europa mergulhou em uma guerra generalizada que ninguém queria realmente – uma guerra deflagrada por uma sequência de eventos e pela total incapacidade e estupidez das elites dirigentes, no sentido de agirem de forma racional. Hoje, afirmou, a Europa está enquadrada por vários conflitos violentos no Leste Asiático e, em particular, pelas tensões crescentes entre a China e o Japão (assunto também comentado por Henry Kissinger, referindo-se à situação europeia no pré-guerra), a deterioração da situação no Oriente Médio e a crise que se estende da zona do Sahel, ao Golfo Pérsico e ao Golfo da Guiné.

No painel sobre “Poder global e estabilidade regional”, o ministro alemão delineou o quadro que vê como o futuro papel do país, que exigirá uma atitude mais firme nos temas de política externa e áreas de conflitos militares, em particular, com respeito aos Estados frágeis, como ocorre na África. Ao mesmo tempo, afirmou, a mobilização militar só pode funcionar como a “última opção”.

Quanto à situação da Ucrânia, Steinmeier enfatizou a necessidade de uma solução não violenta, instando a que se busque um compromisso, juntamente com a Rússia. A propósito, para ele, a cooperação com Moscou também representa a única possibilidade de se encontrar soluções pacíficas para o conflito na Síria e o contencioso com o Irã.

O ponto de vista de Moscou

Falando depois de Steinmeier, o chanceler russo Sergei Lavrov destacou alguns aspectos mencionados por ele, inclusive, a analogia com a I Guerra Mundial e a necessidade de cooperação com a Rússia para uma solução do imbróglio ucraniano. Lavrov fez uma referência ao sonho de uma Europa unificada, que a Rússia compartilhava com o resto do continente, após a queda do Muro de Berlim. Ele recordou a cúpula da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Astana, Cazaquistão, em 2010, onde a Rússia e a União Europeia (UE) assinaram um documento manifestando o seu compromisso de se engajarem em uma “parceria euroatlântica-eurasiática”. Porém, lamentou ele, nada disto se concretizou.

Desde a cúpula sobre a Parceria Leste-europeia de novembro último, em Vilnius, Lituânia, e a recusa final do governo ucraniano de assinar um tratado de associação com a UE, emergiram novas tensões entre a Rússia e o bloco europeu. Lavrov incomodou a plateia, ao perguntar: “O que a provocação de distúrbios tem a ver com manifestações? Por que não tem havido qualquer condenação das palavras de ordem nazistas e racistas proferidas por manifestantes que têm ocupado prédios governamentais? Por que a UE tolera tais atos?”.

De acordo com Lavrov, “a Europa não é mais o ponto de interseção de um conflito Leste-Oeste, mas pode se tornar um centro de poder se cooperar com a Rússia”. Ele se referia à cúpula UE-Rússia, em Bruxelas, onde o presidente Vladimir Putin enfatizou a necessidade de uma cooperação entre a Rússia e o bloco europeu para a construção de uma União Eurasiática.

Quanto à crise ucraniana, Lavrov secundou a posição de Steinmeier sobre a necessidade de uma cooperação, e não uma intervenção, da Rússia e da UE, para se chegar a uma solução pacífica do impasse. A Carta de Helsinki, assinada por todos os países do Leste e do Oeste da Europa, lembrou, determina que não deve haver interferências nos assuntos internos de outros estados, caso da Ucrânia.

Brzezinski: um compromisso é necessário na Ucrânia

No evento, a maior parte das atenções da mídia esteve voltada para a Ucrânia. O painel sobre a situação do país teve vários pesos pesados: o chanceler ucraniano, Leonid Kozhara; o líder da oposição, Vitali Klychko; o ministro-presidente da Geórgia, Irakli Garibashvili; o presidente da Romênia, Traian Basescu; o deputado russo Leon Slutsky, alto membro da comissão da Duma para integração eurasiática; e o ex-conselheiro de Segurança Nacional estadunidense Zbigniew Brzezinski (célebre, entre outros motivos, por seu livro de 1997, “O grande tabuleiro de xadrez”, no qual afirma que quem controlar a massa continental eurasiática controlará o mundo).

Por ironia, Brzezinski foi um dos que fez os comentários mais lúcidos. Para ele, dadas a sua posição geográfica e sua história, tendo sido formada por três impérios, a Ucrânia necessita de um “compromisso”. Ele enfatizou que a oposição deve se tornar mais visível e definir um programa politico claro, e que deve haver “apenas um líder”, com um programa real que represente todos os ucranianos. Por isso, alertou, sequer se deve pensar numa secessão ou divisão do país. Em uma posição surpreendente para um “russófobo” de carteirinha como ele, Brzezinski advertiu que a Ucrânia e a UE devem negociar mais seriamente entre si, mas também com a Rússia. Em função do caos econômico vigente na Ucrânia, disse ele, a UE e a Rússia deveriam encontrar uma fórmula para cooperarem em um ambiente sadio, que leve em consideração tanto os interesses russos como os do bloco europeu. “Se não se encontrarem rapidamente resultados econômicos, sera uma catástrofe tanto para a Rússia como para a Europa”, enfatizou.

Por sua vez, o chanceler Kozhara explicou que a Ucrânia é um país grande e um Estado multiétnico e multirreligioso: “Existem oito milhões de russos vivendo na Ucrânia. Nós temos várias capitais diferentes, temos laços culturais e isto também vale para as relações com a Rússia. Nós estávamos prontos para assinar um acordo de associação com a UE em Vilnius, mas, então, o FMI [Fundo Monetário Internacional] fez exigências totalmente inaceitáveis, que teriam provocado a bancarrota da economia ucraniana. Em troca, a Rússia fez uma oferta atraente, de 15 bilhões de euros e um preço mais barato para o gás.”

Kozhara afirmou que as manifestações em Kiev constituem “um problema complexo” e ressaltou que “nós [o governo] devemos pensar estrategicamente, mas a oposição também deve pensar estrategicamente”.

Já o líder oposicioista Klychko, badalado pela mídia como o grande “líder carismático” presente em Munique, reiterou as suas exigências ao governo: luta contra a corrupção; uma nova Constituição; novas eleições; e anistia para os detidos durante as manifestações. Depois de ouvi-lo, vários participantes da conferência observaram que Klychko se encontra em um grande dilema: de um lado, ele está elevando ao máximo as exigências, inclusive, a renúncia imediata do presidente Yanukovich; do outro, a UE ajudou a criar o problema, por não ter feito nada nos últimos dois anos.

Um velho estadista irado contra os poderes financeiros

Em Munique, também se manifestou uma grande inquietação sobre o futuro estratégico da Europa. Ela foi manifestada da forma mais eloquente pelo ex-chanceler Helmut Schmidt (1974-1982). No painel intitulado “50 anos da CSM”, que contou com a presença de outros politicos veteranos, como Kissinger e o ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, Schmidt falou sobre os futuros desafios de segurança, situando-os no contexto das megacidades cujas populações crescem de forma explosiva, e nas favelas e periferias superpovoadas, que podem tornar-se “um caldeirão de turbulências, desordem social e um desafio de segurança real”.

Schmidt ressaltou que, em 2020, a Europa terá apenas 7% da população mundial (contra 20% em 1959) e advertiu que os europeus não deveriam ser megalomaníacos, mas ter humildade para não exagerar a sua importância. Segundo ele, o que unifica a Europa é a sua literatura, sua pintura e sua música. Em cada país europeu, destacou, os melhores poetas têm as suas obras imediatamente traduzidas e disponibilizadas para todos os cidadãos do continente.

Irado, o veterano estadista (95 anos) também investiu contra o poderio sem controle da alta finança: “É o poder de 20 mil administradores financeiros que vivem em Nova York, Hong Kong e Londres. Após o colapso do [banco] Lehman Brothers, nós vimos milhões de pessoas serem atiradas à miséria. Ninguém fala sobre isto. Não foi possível fazer nada na Europa, em termos de se controlarem certos poderes excessivos das finanças, nem mesmo uma supervisão bancária comum… Se a Europa fosse mais modesta e menos preocupada com intervenções humanitárias, e se concentrasse nas tarefas essenciais, o futuro do mundo seria melhor.”



Foto da página de abertura:

O chanceler francês Laurent Fabius e seu colega russo Sergei Lavrov parecem demonstrar os desencontros entre os participantes da Conferência de Munique (Reuters)

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