A brutal realidade e o dilema da guerra russo-ucraniana em curso se afirmaram na recente cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Vilnius, Lituânia, em 11-12 de julho. Ali, o presidente dos EUA, Joe Biden, suspendeu sem previsão de retomada o desejo da Ucrânia de ingressar na Aliança Atlântica, mesmo tendo sido pressionado pela Polônia e os Estados Bálticos, bem como por alguns “falcões” ocidentais. Sua mensagem foi na linha da que já havia afirmado em recente entrevista à CNN, na qual afirmou que os EUA não querem fazer qualquer promessa nesse sentido a Kiev. Se o acesso fosse aceito, “então, todos nós estaríamos em guerra”, disse ele.
Biden não ofereceu um cronograma, mas enfatizou que, após o fim da guerra, certas “condições” deverão ser cumpridas pela Ucrânia, “incluindo a democratização e alguns outros temas desse tipo”. Segundo ele, o país terá que seguir um “caminho racional” para se qualificar para a adesão. “Se houver um acordo, um cessar-fogo, um acordo de paz”, os EUA ofereceriam à Ucrânia “garantias de segurança” como as oferecidas pelos EUA a Israel.
Entre estas, como observou o Frankfurter Allgemeine Zeitung de 12 de julho, o fornecimento de armas para que o país possa defender-se. No caso de Israel, elas incluem os caças mais avançados dos EUA, os Lockheed Martin F-35, capazes de carregar armas nucleares.
Como prêmio de consolação, foi criado um “conselho Ucrânia-OTAN”, que realizou a sua primeira reunião em Vilnius.
Além disso, foi assinada uma resolução de garantia de segurança do G-7, intitulada “Garantias e acordos especiais de segurança bilaterais e de longo prazo”, que inclui ajuda financeira, entrega de armas modernas, troca de informações de serviços secretos, bem como meios para fortalecer a capacidade de defesa e segurança cibernética da Ucrânia. O presidente Volodymyr Zelensky, que no início da cúpula havia criticado veementemente a decisão do presidente Biden, ao final, qualificou a cúpula como um importante “sinal” sobre o trajeto da Ucrânia para a OTAN, acrescentando que “ninguém quer uma guerra mundial”. (!)
Sob essa ótica, deve-se atentar para o artigo de 8 de julho do jornalista sênior do Washington Post, David Ignatius, referente a um briefing dado pelo conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan. Essencialmente, Sullivan afirmou que “há muita coisa que os EUA ainda não sabem sobre a dinâmica que molda esta guerra”. Para Ignatius, “a questão fundamental que Biden e seus assessores ponderaram desde o início da invasão, em fevereiro de 2022, é: como os Estados Unidos e seus parceiros da OTAN podem ajudar a Ucrânia a repelir a invasão da Rússia sem desencadear um conflito direto OTAN-Rússia, que possa levar ao uso de armas nucleares?”
De acordo com Ignatius, Sullivan “rejeitou a abordagem ‘não se preocupem’, vinda dos falcões que insistem em que a ameaça nuclear da Rússia é um absurdo completo”. Para o conselheiro da Casa Branca: “É uma ameaça. É uma ameaça real. É algo que precisamos levar a sério. E é aquela que não evolui com a mudança das condições no terreno. Como dizem os filósofos, essa questão do risco nuclear é contingente. Nunca é inevitável e impossível.”
Com relação às contingências desse conflito, que presumivelmente se concentraria em um ataque nuclear tático da Rússia, se a Ucrânia romper as linhas russas e as forças convencionais russas entrarem em colapso, Sullivan observou que a China e a Índia “veem de maneira semelhante” e estão “tentando indicar aos russos que seria um movimento terrível para a Rússia… empregar armas nucleares táticas na Ucrânia”.
Ignatius concluiu com o cínico comentário de que “graças à entrega de bombas de fragmentação pelos EUA, a Ucrânia terá munição suficiente para este ‘jogo de espera’ (a esperança de um grande avanço militar da Ucrânia) e uma ‘janela mais ampla para o sucesso’”.
Outro sinal indicativo do dilema enfrentado pelos EUA e a OTAN enfrentam foi um artigo a oito mãos publicado no sítio New Atlanticist do Atlantic Council, em 11 de julho. Os autores são: Jacques Lanxade, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Francesas e ex-assessor de defesa do presidente François Mitterand; Denis McShane, ex-secretário de Assuntos Europeus do Reino Unido e ex-delegado na Assembleia Parlamentar da OTAN; Margarita Mathiopoulos, especialista em defesa e professora emérita de Segurança Externa e Internacional dos EUA na Universidade de Potsdam; e o general Klaus Naumann, ex-chefe Adjunto do Estado-Maior das Forças Armadas Alemãs e ex-presidente do Comitê Militar da OTAN. Sob o título autoexplicativo “A Europa precisa de uma dissuasão nuclear própria”, o artigo afirma essencialmente: “A Europa precisa de uma dissuasão nuclear própria crível sob o comando da OTAN (!). Apenas um guarda-chuva nuclear trilateral britânico, francês e alemão, combinado com um guarda-chuva dos EUA, tudo sob o comando e controle do Comandante Supremo Aliado da Europa (SACEUR), será um dissuasor crível para a Rússia.”
Para os autores, “isso exigiria que a França e a Alemanha encontrassem uma solução para equipar o seu Future Combat Air System conjunto – uma nova geração de caças avançados – e os aviões de combate multifunção F-35 alemães com armas nucleares francesas. A Alemanha não teria as suas próprias armas nucleares, de modo que o arranjo não violaria o tratado de não proliferação nuclear”.
Na visão deles, a Alemanha teria que quebrar o tabu e aceitar uma participação mais ampla na dissuasão nuclear europeia: “Este é o momento de se iniciar um debate em Berlim, Paris e Londres sobre uma Iniciativa Europeia de Defesa nuclear trilateral francesa, britânica e alemã, e a responsabilidade dessas três potências de proteger a Europa se o Artigo 5 [da Carta da OTAN] for invocado no pior cenário possível.”
Isso indica que, no Ocidente, ninguém está determinado de fato a enfrentar a realidade dessa guerra e pensar em opções para uma saída pacífica dela. O que a recente cúpula de Vilnius revelou foi o enorme dilema enfrentado pelo Ocidente. Ele inclui fraturas profundas na OTAN, enquanto, após um ano e meio de guerra, a Ucrânia encontra-se em um estado econômico e financeiro deplorável – essencialmente, em ruínas, com 8 milhões de refugiados e quase 150 mil militares mortos, bem como 100 mil do lado russo. Trata-se de uma terrível “guerra de desgaste”, na qual a Rússia, segundo expôs o Prof. John Mearsheimer em um artigo de 23 de junho, “terá vantagem e vencerá” (ver o artigo desta autora na Resenha Estratégica de 28 de junho). No entanto, ele prevê que a guerra irá durar muito tempo, já que é impossível “quadrar o círculo” em relação aos interesses russos e ucranianos. Ao passo que não existe uma unidade real entre os membros da OTAN, com exceção das “sanções” como menor denominador comum, fraturas também estão surgindo na arquitetura financeira internacional, na qual os EUA estão lentamente perdendo a sua posição de único “hegemon” – também em termos da hegemonia do dólar, enquanto uma nova ordem mundial multipolar está emergindo com China, Rússia, Índia e países do Sul Global, a qual determinará o futuro do mundo.
A Rand Corporation, think-tank que é uma boa fonte para se investigar as grandes linhas da política americana, publicou em janeiro deste ano um estudo de 32 páginas intitulado “Evitem uma longa guerra. A política dos EUA e o curso do conflito russo-ucraniano”, no qual enfatiza que o sucesso da guerra não será determinado no campo de batalha, o que deixaria a impressão de que a Ucrânia poderia continuar a lutar com sucesso e expulsar militarmente os russos. Ao ressaltar que a guerra poderia se transformar em um confronto nuclear entre a Rússia e a OTAN, o estudo exige a negociação de condições que ponham fim às sanções contra a Rússia e veicula a ideia de um “conflito congelado” nos moldes do cenário em que se encerrou a Guerra da Coreia. A recomendação essencial do estudo é evitar uma guerra prolongada, que se transformaria em um fardo financeiro para os EUA e seus aliados.

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