Brasil e Nigéria: contrastes espaciais

No último dia 17 de agosto, a Nigéria anunciou o lançamento de dois satélites de observação e vigilância, que serão utilizados em tarefas civis, militares e de segurança. Os satélites, batizados NigeriaSat-2 e NigeriaSat-X, foram lançados da base de Yasny, Rússia, por um lançador da empresa russa Dnepr (que, no mesmo lançamento, colocou em órbita outros cinco satélites, para os EUA, Ucrânia, Turquia e Itália).

O NigeriaSat-2, considerado um dos mais avançados satélites de observação terrestre existentes, com uma resolução máxima de 2,5 m (capaz de identificar objetos com tais dimensões), foi projetado e construído no Reino Unido pela empresa Surrey Space Technology Limited (SSTL). Embora tenha utilizado as instalações da SSTL, o NigeriaSat-X, com resolução de 22 m, foi projetado e construído por cientistas e engenheiros da Agência Nacional de Pesquisas Espaciais e Desenvolvimento (NASRDA) nigeriana (The Guardian, 17/08/2011 e Angop, 23/08/2011).

Os dois satélites deverão ser utilizados para a gestão florestal, cartografia, vigilância de catástrofes naturais e funções militares e de segurança, entre outras. Em particular, o NigeriaSat-2, estacionado a 668 km de altitude e com um período orbital de cerca de 98 minutos, oferece a possibilidade de cobrir 70% da superfície terrestre em um único dia. Com a sua elevada resolução de imagens, o satélite pode ser utilizado para uma gama de funções ligadas à segurança nacional e atividades militares.

Enquanto isso, na outra margem do Atlântico Sul, o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Raupp, alertava para os potenciais prejuízos causados pelo atraso de cinco anos no lançamento do próximo satélite conjunto com a China, o CBERS-3, acarretado pela incapacidade brasileira de cumprir os prazos de entrega dos equipamentos a seu encargo (Agência Estado, 23/08/2011). Segundo ele, um novo atraso poderá “implodir” o bem sucedido acordo de cooperação aeroespacial com o país asiático.

Retornando de Pequim, onde participou de uma reunião do grupo bilateral de coordenação do acordo, Raupp foi categórico: “Temos de cumprir nosso cronograma porque estamos cinco anos atrasados.”

O programa foi iniciado em 1998 e já foi responsável pelo lançamento de três satélites, os CBERS (sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) 1, 2 e 2-B. O CBERS-3 deveria ter sido lançado em 2007, mas até agora o Brasil não entregou os equipamentos previstos no acordo. O novo prazo é novembro de 2012. O satélite seguinte, CBERS-4, deverá ser lançado no ano seguinte, se não houver novos atrasos.

De acordo com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Gilberto Câmara, uma das razões para o atraso é a dificuldade da indústria nacional em desenvolver e produzir os equipamentos a cargo do País. Nos três primeiros satélites, a China era responsável por 70% dos componentes, mas, nos seguintes, a proporção foi dividida ao meio. “Aumentou a complexidade e a parcela que cabe ao Brasil”, disse ele.

Outro problema é a redução do quadro técnico ligado ao projeto. A montagem do satélite, que começará em novembro, exigirá a contratação de 60 funcionários para trabalharem na China pelo período de um ano, em esquema de rodízio.

Câmara, que deixará em dezembro, dois anos antes do término de seu mandato, se declarou “frustrado, porque o INPE não recebeu do Ministério [de Ciência e Tecnologia] os recursos humanos necessários para renovar sua equipe’. Um eventual novo atraso no cronograma colocará em xeque não só o programa, mas a capacidade do País de cumprir acordos internacionais.

Por sua vez, Raupp afirmou que é “incomparável” a velocidade de desenvolvimento dos programas espaciais dos dois países: “A China lançará 19 satélites até 2015 e o Brasil, três.”

De fato, há décadas, a China lança satélites em seus próprios foguetes, já colocou astronautas em órbita (ou “taikonautas”, como são lá chamados) e pensa em uma missão lunar e uma estação orbital própria, na próxima década. Portanto, se a comparação pode parecer indevida, dadas as colossais diferenças de visão estratégica entre as elites dirigentes dos dois países, o exemplo nigeriano seria suficiente para envergonhar os brasileiros que levam a sério a preparação do País para o futuro. Com território, litoral, PIB, IDH e capacidades científico-tecnológicas e industriais muito maiores que o país africano, o Brasil não só não dispõe de nada sequer parecido com o NigeriaSat-2, mas, pior, não tem planos anunciados para tanto. Por exemplo, a disponibilidade de pelo menos dois satélites de alta resolução (preferencialmente, com radares de abertura sintética) será crucial para a vigilância do litoral brasileiro, principalmente, com a perspectiva de exploração das jazidas de petróleo e gás da camada pré-sal e dos demais recursos da chamada Amazônia Azul.

O descaso com o programa aeroespacial torna o Brasil o único integrante da formação original do grupo BRIC que não dispõe de capacidades avançadas no setor, nem mesmo de um foguete lançador de satélites, após os sucessivos fracassos do VLS. Embora apontado como um dos pilares tecnológicos da Estratégia Nacional de Defesa, juntamente com as áreas nuclear e cibernética, o setor aeroespacial tem sido historicamente negligenciado, o que torna a reversão deste quadro um imperativo para o futuro imediato.

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