Bolívia: estrada suspensa, mas problemas prosseguem

Assustado com as violentas reações ao projeto da rodovia que atravessaria o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), para ligar os departamentos de Beni e Cochabamba, o presidente boliviano Evo Morales pediu ao Congresso do país a suspensão do projeto em sua forma original. No último dia 11 de outubro, a Câmara dos Deputados tornou sem efeito a construção do chamado trecho II da rodovia Villa Tunari-San Ignácio de Moxos, ao mesmo tempo em que declarava o Tipnis como uma zona de presaervação ecológica e conservação de interesse primordial do Estado Plurinacional da Bolívia. Agora, a medida será submetida ao Senado, que deverá ratificá-la (Telesur, 11/10/2011).

No mesmo dia, Morales se reuniu com diplomatas de vários países, para explicar a sua intenção de encontrar uma alternativa ao projeto, que, provavelmente, implicará em um novo traçado contornando o Tipnis.

Entretanto, o desgaste político causado pela confrontação ficou evidenciado na eleição de 56 magistrados de tribunais superiores, com mandatos até 2017, realizada no domingo 16 de outubro, na qual se manifestou uma enxurrada de 40% de votos brancos e nulos.

Para complicar, os indígenas que se opoem ao projeto mantiveram a marcha a La Paz, onde chegaram na quarta-feira 19, em meio a um apoio maciço da população. A marcha, com cerca de 1.500 indígenas, foi engrossada por delegações de sindicalistas, estudantes e moradores da periferia da capital, e seus líderes esperam reunir-se com Morales, a quem pretendem apresentar uma pauta de 16 itens, entre os quais a suspensão definitiva da construção da estrada, uma investigação da repressão policial à marcha, em setembro, e “a paralisação de todas as atividades hidrocarboníferas no Parque Aguaragüe”, que gera cerca de 80% da produção de gás natural do país – exigência já rejeitada por Morales (AFP, 19/10/2011).

Esta última exigência dos indígenas denota que Morales deverá continuar tendo problemas com futuros projetos de infraestrutura de que seu empobrecido país necessita para avançar alguns degraus na escala do desenvolvimento socioeconômico, como as hidrelétricas do rio Guaporé e Cachoeira Esperança, que também deverão ser construídas pelo Brasil. Tal perspectiva coloca o país em conjunto como o maior perdedor com a mentalidade e a legislação “etnonacionalista” promovida e promulgada pelo próprio Morales, com o apoio direto do vice-presidente Álvaro García Linera.

Para ajudar no entendimento da complicada situação boliviana, remetemos o leitor ao artigo do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), reproduzido neste sítio.

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