As lições hispânicas nas eleições dos EUA

Definitivamente, o professor Samuel Huntington deve estar rolando de indignação em sua tumba, com os resultados das eleições estadunidenses de 6 de novembro, que deram um segundo mandato ao presidente Barack Obama. Não tanto pela reeleição do democrata quem, em essência, não tem contrariado os grandes desígnios do Establishment estadunidense, mas pela histórica votação hispânica que foi determinante para inclinar a balança eleitoral em favor de Obama.

A inferência post mortem se refere ao seu derradeiro trabalho, Quem somos?, onde o famoso professor da Universidade de Harvard assinala, como o maior perigo estratégico para os EUA, a crescente emigração hispânica, especialmente mexicana, para os territórios que foram subtraídos ao México na guerra de 1844-1848, motivadas pelas ideologias do “Destino Manifesto” e do “excepcionalismo” estadunidense. Esta visão tardia contrastava com a exposta em seu livro mais famoso, O choque de civilizações, no qual afirmava que, com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), o México deixaria de ser parte da Ibero-América, para unir-se à nação norte-americana.

A realidade do México, com uma base de produção agrícola e industrial devastada, submetido ao jugo dos carteis do narcotráfico e a uma violência sem precedentes, levou grande parte de seus filhos em idade de trabalho a emigrar maciçamente para o vizinho do Norte, onde integram hoje uma massa de mais de 11 milhões de imigrantes irregulares acolhidos por outros 30 milhões de mexicanos legalmente estabelecidos no país, formando com outros imigrantes iberoamericanos uma comunidade hispânica estimada em pouco mais de 50 milhões de pessoas, ou 17% da população estadunidense. Como se trata de uma população majoritariamente em idade reprodutiva, estima-se que, em duas ou três décadas, ela constituirá pelo menos um terço da população.

De fato, os mexicanos que emigram para o Norte se dirigem, principalmente, aos estados delimitados nas áreas que pertenceram ao México no século XIX – Califórnia, Texas, Arizona e Novo México. Na Califórnia, o estado mais populoso dos EUA, a população hispânica já é majoritária e na próxima década representará mais da metade da população estadual.

Evidentemente, a ameaça percebida por Huntington e seus seguidores em relação aos emigrantes não se refere a um utópico retorno territorial, mas a uma recomposição cultural dos Estados Unidos, sob a crescente influência hispânica, que revela uma identidade e soberania fundamentalmente distinta da tradicional ideologia calvinista das elites estadunidenses.

E a eleição presidencial demonstra, ainda que sutilmente, essa metamorfose cultural. Os 10% do total de votos hispânicos que foram determinantes na eleição de Obama serão, em 2025, um quarto do eleitorado, o que tende a modificar substancialmente a composição da Câmara dos Deputados e do Senado. Em paralelo, a eleição manifestou uma força declinante do até agora considerado todo poderoso lobby sionista, centrado no Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC, na sigla em inglês), principal vetor de apoio político aos permanentes impulsos belicistas do Establishment dos EUA.

Neste particular, a derrota do premier israelense Benjamim Netanyahu, que, sem qualquer melindre diplomático, se manifestou em favor do republicano Mitt Romney, é bastante sintomática dos benefícios, não apenas para os EUA, mas para a Humanidade em geral, de uma população hispânica que possa contribuir para neutralizar, nas entranhas do sistema hegemônico, a resistência do Establishment a compartilhar o poder mundial com um sistema efetivamente cooperativo, que sepulte o obsoleto sistema de hegemonia imposta pela confrontação e a força militar.

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