Aos 98, as advertências de Kissinger

Nas últimas semanas, tem ocorrido uma série de reuniões diplomáticas de alto nível entre representantes dos EUA e da Rússia. Em 21 de maio, o chanceler russo Sergei Lavrov e o secretário de Estado Anthony Blinken estiveram reunidos, no contexto da reunião do Conselho Ártico em Reykjavik, Islândia. Na ocasião, ambos manifestaram o desejo de uma “reaproximação” mais forte entre Washington e Moscou. Em uma entrevista coletiva, Lavrov ressaltou que a Rússia estava pronta para garantir uma “estratégia de estabilidade”. Segundo ele, considerando que ambas as potências têm muitas armas nucleares, “declaramos a nossa disposição de iniciar o diálogo e examinar todos os fatores que influenciam a estabilidade estratégica, incluindo armas nucleares e não-nucleares, ofensivas e defensivas”. Na agenda recíproca, estão a retirada das armas nucleares do Japão e da Península Coreana, o renascimento do acordo nuclear com o Irã e a situação no devastado Afeganistão.

A reunião foi um prelúdio para a cúpula entre os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin, em 16 de junho, em Genebra, Suíça, a primeira cúpula bilateral desde 2018. A questão candente no momento é saber se outra rodada de negociações diplomáticas “renovadas” entre os EUA, Rússia e China poderá estabelecer um molde para o futuro ou se prevalecerão os “linhas-duras” dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que promovem uma atitude mais drástica contra a Rússia e a China.

Em paralelo com tais reuniões, realizaram-se vários seminários internacionais, a maioria virtuais, organizados por think-tanks transatlânticos. Um deles foi promovido pela Sociedade Atlântica Alemã (DAG, na sigla em alemão), onde representantes da OTAN defenderam uma linha bastante dura com a Rússia. Entre eles, a ex-vice-secretária-geral adjunto para Diplomacia Pública, Stefanie Babst, hoje pesquisadora associada sênior da DAG, para quem a organização “precisa ser novamente reestruturada” e preparada para uma guerra futura com a Rússia, incluindo a necessidade de fortalecer as suas forças nucleares.

Outro exemplo é um ensaio escrito pelo alemão Hannes Adomeit, pesquisador associado sênior do Instituto Alemão de Política e Segurança Internacional e pesquisador do Centro Davis para Estudos Russos e Eurasiáticos da Universidade de Harvard, publicado na edição de maio do boletim do Centro Europeu George C. Marshall para Estudos de Segurança, intitulado “A Alemanha pode ser e será uma parceira viável em uma estratégia de ‘impulso’ dos EUA em relação à Rússia?”. A linha central do texto é a de que a Alemanha deveria cooperar mais ativamente com a estratégia dos EUA para “rechaçar e conter a influência maligna da Rússia”.

Adomeit deu atenção especial aos políticos alemães que são rotulados como “entendedores da Rússia” (Russland-Versteher), como o ministro-presidente da Renânia do Norte-Westfalia, Armin Laschet, candidato a chanceler federal da coalizão CDU/ CSU (União Democrata-Cristã e União Social-Cristã). Para Adomeit, Laschet é muito suave com a Rússia, por se opor a uma atitude de “rigidez moral” frente a Moscou, em linha com vários ministros-presidentes dos estados da antiga Alemanha Oriental. No texto, Adomeit aplaude os “Verdes” alemães, que poderão vir a ser uma “parte constituinte principal do (futuro) governo de coalizão” e têm “criticado consistentemente o sistema de Putin e são defensores ferrenhos de ações firmes, além de terem se oposto ao (gasoduto) Nord Stream 2 por ‘razões geoestratégicas’”. Mas ele vê o perigo de que o partido “falhe em ressaltar o esforço de modernização militar do Kremlin” e duvida da sua demanda para a elaboração de uma “nova postura estratégica da OTAN e uma avaliação de ameaça comum da aliança”. Consequentemente, conclui, é possível que as eleições alemãs de setembro próximo não produzam o efeito desejado e que há uma “influência negativa nas perspectivas de a Alemanha participar de uma ‘resistência’ contra o comportamento maligno (!) da Rússia”.

“Conheça a história do outro”

No contexto desses desdobramentos, vale a pena prestar atenção a um seminário internacional virtual organizado por ocasião do 98º aniversário do ex-secretário de Estado Henry Kissinger, em 27 de maio. O evento foi sediado na cidade de Fürth, Baviera , onde Kissinger nasceu, tendo sido moderado pelo Prof. Ulrich Schlie, que recebeu a Cátedra Henry Kissinger na Universidade de Bonn (2020), e promovido pelo Centro Ludwig Erhard de Fürth e pela Sociedade Alemã-Atlântica. O foco principal do evento foi um diálogo Kissinger, de Nova York, e seus amigos Karl Kaiser, ex-presidente da Sociedade Alemã para Política Externa (DGAP), e Theo Sommer, ex-editor-chefe do semanário Die Zeit. Um filme muito interessante produzido pela jornalista e produtora Evi Kurz retratou a infância e a educação de Kissinger e seu irmão Walter (que morreu em maio) em Fürth, cujo pai lecionava em uma escola secundária na cidade, até o momento em que a família judia se viu obrigada a fugir dos nazistas, em 1938, emigrando para os EUA, onde se estabeleceu em Nova York.

Kissinger foi apresentado como um dos “historiadores e diplomatas mais experientes” dos Estados Unidos. Após a II Guerra Mundial, durante a qual serviu no Exército estadunidense, Kissinger estudou com destaque na Universidade de Harvard e, promovido pelo seu mentor Fritz Kraemer, tornou-se um dos principais arquitetos das relações germano-estadunidenses. O ex-presidente da DGAP, Karl Kaiser, comentou o papel destacado desempenhado por ele em relação à Östpolitik [Política para o Leste] de Willy Brandt (1969-1974). Egon Bahr, o principal assessor de Willy Brandt na década de 1970, atuou como o principal interlocutor de Kissinger nos bastidores, quando este atuou como conselheiro de Segurança Nacional e secretário de Estado de Richard Nixon. Sem a Östpolitik de Brandt, afirmou Kaiser, nunca teria ocorrido a reaproximação Leste-Oeste, que, mais tarde, resultou na reunificação alemã sob o chanceler Helmut Kohl (1982-1998).

Kissinger conheceu pessoalmente todos os chanceleres alemães até hoje e tinha grande admiração pelo primeiro deles, Konrad Adenauer (1949-1963). Na ocasião, ele comentou que “Adenauer teve a coragem de preparar o terreno para a reconstrução da Alemanha, sabendo que a divisão da Alemanha duraria muito tempo. Com base nisto, o que ele fez foi uma conquista tremenda”. Igualmente, enfatizou a sua estreita amizade com o ex-chanceler Helmut Schmidt (1974-1982) e as boas lembranças de Kohl, que, “mesmo tendo uma personalidade diferente, contribuiu de uma forma diferente para a evolução da Alemanha”.

Kissinger fez algumas observações importantes, as quais refletiram a sua preocupação com a “futura ordem mundial”, além dos riscos inerentes representados pela crescente introdução da Inteligência Artificial (IA) no domínio militar: “Estamos agora em um momento em que a estrutura política do mundo está mudando substancialmente, de forma única. A tecnologia global está mudando, ou seja, estamos em um processo que só é comparável ao início do Iluminismo, onde todos os conceitos estão mudando.”

Em resposta a uma pergunta sobre os “desafios futuros”, Kissinger respondeu: “É a primeira vez na história da humanidade que o sistema internacional é verdadeiramente global. Durante a pandemia, vimos essa grande estratégia. Estávamos pensando na Europa e em outros países. Não apenas os países estão conectados, mas a tecnologia impõe uma percepção totalmente diferente da anterior. A destruição da tecnologia moderna é tal que muitas coisas precisam ser alteradas, seja pela experiência ou por insight humano. Temos que evitar uma catástrofe e ter um insight humano.”

Ele mencionou que está envolvido em um livro sobre IA: “As novas tecnologias que conhecemos podem produzir consequências, não sabemos por que são assim. Precisamos de uma nova definição de pensamento humano. Devemos trabalhar juntos sobre o significado disto. A nossa filosofia foi baseada nessa base do Iluministmo.”

Para Kissinger, o “próximo chanceler alemão, o presidente dos EUA e a intelligentsia devem desenvolver um conceito que nos permita lidar com essas novas questões. O que precisamos é de uma nova maneira de pensar”.

Perguntado por Theo Sommer sobre como aconselhar os governos para lidar com os desafios da China e da ressurgente Rússia, Kissinger respondeu que a única saída é um “diálogo” reforçado com os dois países. A Rússia da Guerra Fria e a do período posterior são diferentes, enfatizou: “A Rússia da Guerra Fria era militar. A Rússia ainda hoje é uma força militar muito poderosa. Não tem capacidade própria para dominar o mundo. Tem de encontrar o seu caminho para se relacionar com a Europa. Eu entendi que não se pode excluir a Rússia! Portanto, há uma necessidade de diálogo. Durante a Guerra Fria, tivemos a tarefa de impedir a expansão do poder da Rússia e a Alemanha deu uma grande contribuição para isso. O Ocidente se esforçou para ver se um padrão poderia ser construído para a cooperação.”

Para ele, a reunião entre Biden e Putin é positiva. “Não que grandes resultados possam surgir, mas para estabelecer uma conversa”, enfatizou.

Sobre o papel que a Europa pode desempenhar, afirmou que, “conceitualmente, nós e a Europa devemos chegar a um acordo sobre o mundo que queremos criar. Deve ser em uma base cooperativa”.

E advertiu enfaticamente sobre o risco de um confronto militar entre a China e o Ocidente, que “seria pior do que a Primeira Guerra Mundial, que envolveu países que não sabiam como vencer ou como terminar a guerra”.

Quanto à essência da política, afirmou: “Nas negociações importantes, é importante consertar o que pode ser consertado e confiar na evolução histórica. Devemos aprender isso em uma base global. Isso é o que eu prego nos Estados Unidos. (…) Vou trabalhar para uma cooperação mais estreita entre os EUA e a Alemanha, não em termos militares, e entre os EUA e a China.(…) O diálogo entre EUA e China tem uma complexidade inerente. Acredito que os chineses têm uma abordagem mais afetuosa do que os EUA e os EUA não deveriam estigmatizar. Nós nos EUA e vocês na Alemanha devemos resolver as coisas. Provavelmente, temos uma ideia de como fazer o confronto levar à ‘necessidade de cooperação’. São necessários dois lados para se fazer isso. Este é o nosso grande desafio e gostaria de contribuir para isso. ”

Em uma conferência anterior, em maio, coordenada pelo escritor suíço Rolf Dobelli, como parte da série “Mentes do mundo”, Kissinger também alertou que um conflito com a China não teria vencedores e, como na Primeira Guerra Mundial, terminaria com o esgotamento de ambas as partes. Na entrevista, Dobelli perguntou a Kissinger se uma nova Guerra Fria estaria se formando entre os EUA e a China.

Kissinger respondeu que, quando Nixon e ele decidiram abrir um diálogo com a China, no início da década de 1970, o fizeram com base no fato de terem entendido que a política externa estadunidense estava fixada na Guerra do Vietnã (1964-1975), com um efeito muito desmoralizante: “Portanto, o presidente Nixon e eu queríamos ter uma perspectiva mais ampla de nossa política externa. Segundo, os chineses sinalizaram que queriam a abertura, e terceiro, achamos importante para o mundo pensar a política externa em escala global e não em termos de guerras de libertação. Mesmo se tivesse sido possível desacelerar a ascensão da China, queríamos que ela progredisse.”

Quanto a uma “nova Guerra Fria”, afirmou que, embora as tensões tenham aumentado no governo de Donald Trump, ele tem a impressão “de que o governo Biden entendeu que um confronto com a China não pode ser do interesse de ambos, nem do mundo. Eles produziriam um conflito sem vencedores”. No entanto, também apontou os problemas internos enfrentados por Biden, já que “a opinião pública vê a China como um inimigo permanente. Será difícil para a nova administração lutar contra uma saída de conformação e desenvolver uma estratégia orientada para o futuro. A complexidade de nossas relações exigirá uma liderança política forte”.

Em uma discussão sobre “História e Política”, que contou com a presença de um grupo de importantes historiadores alemães, o Prof. Stefan Fröhlich, da Universidade de Erlangen, afirmou que “quem não estuda História não deve lidar ou compreender a política externa. Isto é fundamental para a política externa. Kissinger sempre falou sobre História. A história do parceiro, de cada país, de cada parceiro negociador, tudo isso é resultado de condições históricas. Negociações bem sucedidas surgem quando um também conhece os interesses e a história do outro”.

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