América Latina cria agência espacial – onde fica o Brasil?

Por iniciativa do México e da Argentina, oito países latino-americanos criaram a Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço (ALCE). O protocolo de intenção foi firmado em outubro, em uma reunião virtual encabeçada pelos chanceleres dos dois países, respectivamente, Marcelo Ebrard e Felipe Solá, a qual contou também com o reitor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Enrique Graue, e a reitora da Universidade Nacional da Colômbia, Dolly Montoya Castaño (Infobae, 09/10/2020).

Além dos iniciadores, aderiram à proposta a Bolívia, Equador, El Salvador e Paraguai, com a Colômbia e o Peru entrado como membros observadores.

Para quem, eventualmente, considere o projeto uma audácia desmedida, levando-se em conta a difícil realidade da região, o diretor de Organismos e Mecanismos Regionais da Secretaria de Relações Exteriores do México, Efraín Guadarrama, explica: “Os países latino-americanos e caribenhos não são a ponta de lança em matéria de espaço. Mas, se unirmos forças, será mais fácil para as agências com tecnologia de ponta nos procurarem (O Estado de S. Paulo, 27/11/2020).”

Conscientes dos grandes obstáculos que precisarão ser superados para que a ALCE possa “decolar” como pretendido, seus criadores pretendem avançar a passos mais modestos do que os que se está acostumado a esperar das grandes agências espaciais do planeta, como a Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) estadunidense, a Agência Espacial Europeia (ESA), a Roskosmos russa, a Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO), a Administração Espacial Nacional da China (CNSA) e outras. Por isso, seu primeiro projeto deverá ser um nanossatélite para o monitoramento oceânico e agrícola, a ser lançado já em 2022.

Segundo Guadarrama, o projeto poderá incluir vários nanossatélites, a serem lançados “ao longo dos anos”.

O especialista em Ciências Espaciais da UNAM, José Francisco Valdés, explica que a América Latina precisa superar a sua dependência nesse campo, citando como exemplo o fato de o México ter sido obrigado a comprar imagens da ESA para coordenar as operações de resposta à passagem do furacão Eta pelo sul do país, no início do mês.

“Hoje, estamos à mercê das potências que têm dinheiro e recursos para lançar satélites. Portanto, sempre que necessitamos de alguma coisa, precisamos recorrer às imagens que eles fazem de nossos territórios”, disse ele.

Sem surpresa, o primeiro desafio da ALCE será o seu orçamento, mas Guadarrama se mostra otimista: “Não precisamos de grandes orçamentos. O que é necessário é vontade política.”

De acordo com ele, a agência poderá se beneficiar com o compartilhamento de tecnologias e recursos pelos países membros. Como exemplo, citou a Bolívia, que dispõe de um satélite de observação de alta definição, o qual poderia servir também ao Paraguai, cuja agência espacial é incipiente. A enorme extensão territorial da América Latina também representa uma plataforma privilegiada para o envio de artefatos ao espaço, afirma.

A reportagem do “Estadão” informa que, como seria inevitável, os olhos estão agora voltados para o Brasil – que, juntamente com a Argentina, detêm a tecnologia espacial mais avançada da região.

O professor Valdés afirma que não tem dúvida de que “o Brasil terá de ser um dos principais atores” do projeto. O governo mexicano, igualmente, acredita que a cooperação é possível. Guadarrama ironiza com uma realidade: “Embora alguns personagens tentem negar, o Brasil sempre será um país latino-americano e caribenho.”

Resta ver como as elites dirigentes nacionais, que nunca deram grande importância às atividades espaciais – haja vista a situação deplorável do programa espacial brasileiro, apesar de ter um astronauta à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações –, irão se posicionar frente à importante iniciativa dos vizinhos regionais.

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