Alemanha: irracionalidade, crise de energia e perda de rumo

O sábado 15 de abril de 2023 ficará gravado na consciência da sociedade alemã, com o fechamento das últimas três usinas nucleares em operação no país, na Baviera, Baden-Württemberg e Baixa Saxônia. Até recentemente, elas contribuíam com cerca de 5% da demanda nacional de eletricidade. Os aplausos da atual coalizão governista do chanceler Olaf Scholz (SPD/Social-Democratas, Verdes e FDP/Liberal-Democratas) são contidos, o que se deve às atuais fortes tensões sentidas pela população, decorrentes da guerra Rússia-Ucrânia, os envios de armas a uma zona de guerra e as consequências das listas de sanções emitidas pela União Europeia (UE) (em um artigo publicado na revista Foreign Affairs de 13 de abril de 2023, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico-OCDE estima que a guerra reduzirá a produção econômica global em US$ 2,8 trilhões em 2023). Devido ao conflito, o rápido aumento dos custos de aquecimento e eletricidade, a escassez de remédios e as taxas de inflação em geral estão amortecendo a tremenda complacência geral diante dos Verdes e daqueles que perseguiram a eliminação da energia nuclear por mais de 40 anos. A rigor, foi o governo da ex-chanceler Angela Merkel (que costumava orgulhar-se de sua formação acadêmica em Física, com um doutorado em Química Quântica) que decidiu, ainda em 2012, eliminar gradualmente a energia nuclear até 2022. Apenas dois anos antes, tinha havido uma decisão de continuar a operação das usinas nucleares alemãs e, até 2011, os 17 reatores nucleares em operação geravam um quarto da eletricidade consumida na Alemanha.

Esta coluna não é sobre os prós e contras da energia nuclear, mas sobre a óbvia irracionalidade na tomada de decisões políticas em certas posições de poder. Somente na Europa – como um editorial do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung listou quase gloriosamente em 14 de abril -, os seguintes países já decidiram ou estão considerando prosseguir com a operação ou construção de novas usinas nucleares (em especial, com o desenvolvimento dos chamados reatores modulares): França, Bélgica, Espanha, Suécia, Finlândia, Estônia, Polônia, Hungria, Eslovênia, Holanda, Eslováquia, Romênia, Bulgária e Grã-Bretanha. Sem falar na China, EUA, Rússia e muitos outros grandes países do mundo, que também não fazem cavalos de batalha da redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) tão veementemente exigida pelos Verdes alemães. (Até mesmo a adolescente-militante Greta Thunberg já mencionou várias vezes a energia nuclear vezes como a fonte de menor geração de CO2 a mais favorável ao clima.)

Por 40 anos, os ideólogos verdes, juntamente com o Clube de Roma e outras instituições internacionais, lutaram contra o desenvolvimento da energia nuclear. O autor destas linhas pôde observar o início do movimento verde com todas as suas vertentes ideológicas, a partir do final da década de 1970, contra o qual se manifestou criticamente em muitas ocasiões.

A “mudança de tempos” (Zeitenwende) de que falou o chanceler Scholz em março de 2022, no início da guerra Rússia-Ucrânia, não apenas redefiniu a relação do público alemão com a guerra e o seu apoio aos envios de armas à Ucrânia. O slogan “mudança de tempos” tem ramificações muito maiores para a sociedade alemã. O antigo partido pacifista, os Verdes, tornou-se o mais forte proponente do envio de munições, armas etc. para a zona de guerra. Quatro décadas após a fundação do Partido Verde, eles agora exploram as suas posições de poder, que assumiram no governo federal e em vários estados federais da Alemanha. O ministro da Economia e Proteção Climática, Robert Habeck, está promovendo muitos projetos considerados “ecológicos”, como mudanças por lei nos sistemas de aquecimento residenciais, substituindo-os por sistemas muito caros de “energias renováveis” (na Alemanha, principalmente, eólica e solar). A ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock (praticante do que chama “política externa feminista”) e outros colegas de partido impõem os seus objetivos ideológicos, por muitos percebidos como irracionais. No contexto do vastamente abrangente conceito de “máxima proteção climática”, as contradições das decisões políticas são percebidas de forma cada vez mais dramática pelos cidadãos comuns. Afinal, como deveria ser entendida a renúncia à energia nuclear, a fonte energética mais amigável ao clima, ao mesmo tempo em que se exige o prolongamento da operação de usinas termelétricas a carvão e a gás natural, para fechar a lacuna de geração elétrica?

A reputação das políticas externa, industrial e educacional alemãs encontra-se em constante declínio. A atitude moralizadora e exagerada da ministra das Relações Exteriores, a intimidação repetidamente evidente e a quase demonização de projetos industriais de grande escala ou importantes projetos de infraestrutura estão encontrando uma oposição crescente. Ao contrário da mídia dominante, crescem as vozes que não querem mais acompanhar essa desumanidade. Mas, raramente, as objeções críticas e as pessoas que as expressam foram tratadas com tanta brutalidade como na Alemanha de hoje. Os críticos são “assediados” nos locais de trabalho e, muitas vezes, a discórdia é levada diretamente às suas famílias.

Todavia, também outros projetos suscitam cada vez mais dúvidas. Um menor (14 anos) já deveria ter o direito de poder mudar simplesmente de sexo e de nome num cartório, como propõe um projeto de lei conjunto do FDP e dos Verdes? Deve-se descriminalizar o consumo de maconha, isentar de punição o porte de pequenas quantidades ou criar “clubes de consumo” do modelo holandês ou espanhol? Sem mencionar a “limpeza da linguagem” nos moldes do movimento “woke” estadunidense.

Para onde vai a Europa?

No dia 7 de abril, ocorreu em Frankfurt um interessante debate, promovido pela editora Westend e moderado por dois de seus escritores, Ulrike Guérot e Oskar Lafontaine, respectivamente, autores de Endspiel Europa (Fim de jogo Europa – ver Resenha Estratégica, 22/12/2022) e Ami, it’s time to go. Plädoyer für die Selbstbehauptung Europas (Amigo, é hora de ir embora: um apelo à autoafirmação da Europa – ver Resenha Estratégica, 07/12/2022). Guérot é uma experiente escritora sobre Ciência Política e, entre outras atividades, é professora da Universidade de Bonn (onde foi suspensa recentemente) e foi assistente de Jaques Delors, um dos pioneiros da União Europeia. Lafontaine, perto de completar 80 anos, foi presidente do SPD nos anos 1990, ministro das Finanças no gabinete do ex-chanceler Gerhard Schröder e candidato a chanceler pelo SPD em 1990.

Ambos os autores argumentaram de forma revigorante em favor de um “mundo multipolar”, no qual a Europa deveria encontrar o seu próprio papel. Passando em revista os últimos 70 anos da história europeia com base na palavra de ordem “nunca mais haja guerra na Europa”, os dois lamentaram o fato de que, com a guerra na Ucrânia – “fortemente promovida pelos EUA”, no dizer de Lafontaine –, a Europa tenha sido fundamentalmente transformada, inclusive na sua própria arquitetura de segurança. Neste momento, todos estão seguindo como “vassalos” (outra vez Lafontaine) os ditames dos EUA, o que significa defender os interesses dos EUA e não os europeus. A Europa está sofrendo economicamente como resultado da guerra e, até agora, nem uma única palavra foi dita sobre a explosão dos gasodutos Nord Stream – segundo Lafontaine, obra dos EUA, em traição aos interesses econômicos da Alemanha. Para ele, a guerra conseguiu separar a Rússia da Europa e “desligar os cérebros” de milhões de pessoas, que começaram a argumentar nos termos da linha de um estranho pôster com os dizeres: “Toda arma para a Ucrânia é um ato de amor ao próximo.”

Olhando-se as “aberrações semânticas”, tudo se inverte. A Ucrânia é chamada de “farol de esperança” e “liberdade”, onde a Europa defende os seus próprios valores, enquanto na realidade “[o presidente Volodymyr] Zelensky está cercado por uma entourage corrupta” (Lafontaine). Um autor ucraniano, o poeta e cantor punk Serhij Zhadan, que recebeu o Prêmio pela Paz da Feira do Livro Alemã, foi aclamado, apesar de em alguns dos seus textos ter chamado os russos de “animais” e “insetos”.

E tanto Guérot como Lafontaine lamentaram profundamente o fato de que a cooperação entre a Alemanha e a França está essencialmente “rompida”, e que a Europa foi “lançada” contra a Rússia. Ambos defenderam entusiasticamente a aproximação da Alemanha e da França, de modo que, com base em um forte “reflexo de [Charles] de Gaulle” ainda presente na política externa francesa, os dois países pudessem aproveitar a chance de aproximar a Ucrânia e a Rússia da mesa de negociações.

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