Ainda sobre o gás de folhelhos

Na nota “Por que a pressa no leilão do campo de Libra?”, publicada neste sítio, apresentamos análises de renomados especialistas energéticos, segundo as quais a euforia internacional com a exploração do gás de folhelhos (shale gas) se baseia mais em artifícios financeiros que em fundamentos geológicos. Para vários deles, o boom do gás de folhelhos, em especial, nos EUA, tem as características de uma “bolha” orquestrada para fins de especulação financeira, pelos “suspeitos de sempre” em Wall Street. Devido à relevância do tema, voltamos a ele, trazendo aos leitores as principais observações de um estudo elaborado por uma veterana analista financeira estadunidense, que aponta para as mesmas conclusões.

O estudo, intitulado “Folhelhos e Wall Street: a queda dos preços do gás natural foi orquestrada?”, foi publicado em fevereiro último pela analista financeira Deborah Rogers, fundadora e diretora do Energy Policy Forum, dedicado a discussões sobre o futuro energético dos EUA. Apesar de incluir em sua pauta opções energéticas como a eólica e a solar, Rogers afirma que o gás natural deveria ser considerado apenas como uma ponte para um uso mais intensivo de fontes como a nuclear e as renováveis citadas. Profunda conhecedora dos mercados de hidrocarbonetos, as suas considerações sobre o gás de folhelhos proporcionam um quadro bastante diverso do apresentado pelos seus defensores. A seguir, o resumo executivo do estudo (o texto integral em inglês pode ser consultado neste link).

“Em 2011, as fusões e aquisições de empresas de folhelhos representaram 46,5 bilhões de dólares, tornando-se uma das maiores fontes de lucros para alguns bancos de investimento de Wall Street. Esta anomalia merece um exame apurado, uma vez que os poços nos folhelhos vinham apresentando desempenhos consideravelmente baixos durante este período. Não obstante, analistas e banqueiros de investimento emergiram como alguns dos mais ruidosos proponentes da exploração dos folhelhos. Ao assegurar que a produção continuasse a um ritmo frenético, a despeito do baixo desempenho por poço (em termos de dólares), ocorreu uma saturação no mercado de gás natural e os preços atingiram novas baixas. Em 2011, a oferta de gás natural nos EUA excedeu a demanda por um fator de quatro.

“É altamente improvável que banqueiros experientes nos mercados não reconhecessem que a superprodução de gás natural criaria uma saturação e um severo declínio de preços concomitante. Porém, este declínio nos preços abriu as portas para significativos acordos transacionais da ordem de bilhões de dólares, por conseguinte, assegurando grandes comissões para os bancos de investimento envolvidos. De fato, desde 2010, os folhelhos se tornaram um dos principais centros de lucros para estes bancos, em seus portfólios de fusões e aquisições. A recente saturação do mercado de gás natural se deveu, em grande medida, pela superexploração efetuada para cumprir metas de produção de analistas financeiros e prover fluxos de caixa para apoiar posições alavancadas imprudentes dos operadores.

“Na medida em que os preços caíam, Wall Street começou a executar acordos para colocar os ativos de companhias de folhelhos em dificuldades nas mãos dos maiores jogadores na indústria. Tais acordos se deterioraram apenas alguns meses depois, resultando em maciças depreciações nos ativos de folhelhos. Ademais, os bancos foram instrumentais na criação de produtos financeiros convolutos, como os VPPs (pagamentos de produção volumétrica) e, a despeito da óbvia falta de conhecimento sofisticado por parte de muitos destes investidores, quanto às minúcias e aos riscos da produção nos folhelhos, tais produtos foram, subsequentemente, vendidos a investidores como fundos de pensões. Além disto, arrendamentos de campos de folhelhos não comprovados foram empacotados e dobrados, da mesma maneira como os instrumentos baseados em hipotecas (MBS) foram empacotados e vendidos como questionáveis ativos baseados em hipotecas, antes da derrocada econômica de 2007.

“Como está documentado neste relatório, informações independentes sobre as operações com folhelhos nos EUA confirmam o seguinte:

* Wall Street promoveu o frenesi do gás de folhelhos, que resultou em preços inferiores aos custos de produção e, por conseguinte, lucrou (enormemente) com fusões e aquisições e outras comissões transacionais.

* As reservas de gás e petróleo de folhelhos dos EUA foram superestimadas em pelo menos 100% e, por certos operadores, até 400-500%, segundo os dados reais de produção dos poços, registrados em vários estados.

* Os poços petrolíferos nos folhelhos estão seguindo as mesmas taxas acentuadas de declínio e pobre eficiência de recuperação observadas nos poços de gás.

* Os preços do gás natural têm sido rebaixados, em grande medida, devido a uma severa superprodução, para atingir as metas de crescimento de produção de analistas financeiros, para promover a apreciação das ações, juntamente e exacerbada pela alavancagem imprudente e, assim, uma concomitante necessidade de produção para cumprir o serviço das dívidas.

* Devido aos níveis extremos de endividamento, para algumas empresas exploradoras de folhelhos, as reservas provadas não desenvolvidas declaradas (PUDs) podem não estar de acordo com as regras da SEC [Securities and Exchange Commission, órgão semelhante à Comissão de Valores Mobiliários brasileira – n.e.], por causa da ameaça de inadimplência colateral para essas operadoras.

* A indústria está demonstrando reticência em engajar-se em novos investimentos em folhelhos, abandonando projetos de dutos, IPOs [ofertas iniciais de ações – n.e.] e projetos de joint ventures, a despeito da retórica pública que proclama os folhelhos como uma panacéia para a política energética estadunidense.

* As exportações estão sendo buscadas para proporcionar o diferencial entre os preços domésticos e internacionais, em um esforço para equilibrar balanços problemáticos nos investimentos em ativos de folhelhos.

“É imperativo que a exploração nos folhelhos seja examinada minuciosa e independentemente, para que se possa avaliar o valor real dos ativos dos folhelhos, particularmente, considerando que as políticas em âmbito estadual e nacional estão sendo implementadas com base em projeções de produção ostensivamente otimistas (e, por conseguinte, não realistas) e em poços que estão apresentando desempenhos significativamente inferiores às projeções originais.”

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