A missão da Rússia na atual mudança de época global

N. dos E. – A seguir, publicamos a Introdução do livro “La misión de Rusia en el actual cambio de época”, organizado por Silvia Palacios e Lorenzo Carrasco, que será publicado pela Capax Dei Editora, inicialmente, no México, e depois, no Brasil.

A irrupção estratégica em escala global da Rússia é, sem dúvida, um dos maiores acontecimentos universais atuais. O que propomos neste livro, com a compilação de vários artigos relevantes sobre o assunto, é uma reflexão sobre o significado desse fenômeno na mudança de época histórica que está se gestando. Já por si mesmo, o ressurgimento da Rússia constitui um evento “não-linear”, se partirmos do papel que as potências ocidentais reservavam a um país que deixava o cativeiro comunista de sete décadas e, supostamente, deveria conformar-se à condição de vassalo em uma nova ordem mundial unilateral pós-Guerra Fria.

A derrubada do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução do império soviético, em 1991, espalhou euforia entre os ideólogos do poder hegemônico anglo-americano, que imaginaram estar diante da oportunidade de uma vida para concretizar uma antiga pretensão: impor uma estrutura de poder mundial sobre os escombros, não apenas dos Estados nacionais da ex-URSS, mas de absolutamente todos os demais, ou seja, um sistema malthusiano de soberanias limitadas dirigido por um poder financeiro e militar global.

A agenda “unimundista” impôs um “exame de admissão” para a entrada no sistema da globalização financeira: a submissão a uma agenda de soberanias limitadas sob vários pretextos – proteção do meio ambiente, direitos humanos, questões indígenas, a agenda identitária (como a chamada ideologia de gênero) etc. –, supervisionada pelo poderio militar dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), como instrumentos favoritos de política externa. Na verdade, nada disso era original, apenas uma ligeira atualização do ideário do Leviatã do ideólogo britânico Thomas Hobbes, inspirador da política externa das potências coloniais, com sua ideia da “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), cuja consequência principal é que nenhuma ação é injusta ou injustificada, não cabendo as noções de legalidade e ilegalidade, justiça e injustiça. “Onde não há poder comum, não existe lei; onde não há lei, não há justiça. Na guerra, a força e a fraude são as duas virtudes cardeais”, como se lê no capítulo XIII do Leviatã.

Por acaso, a invasão do Panamá, em dezembro de 1989, e a Guerra do Golfo, em 1991, não constituíram sinais inconfundíveis do tratamento “hobbesiano” que as nações rebeldes à agenda “unimundista” passariam a receber?

A reunificação da Alemanha, que poderia sinalizar o início de uma reconstrução econômica global, se deu no mesmo contexto, sendo prontamente depreciada pela então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, como se representasse o advento de um “Quarto Reich”. Em seguida, o Tratado de Maastricht, assinado em fevereiro de 1993, constituiu a camisa-de-força imposta às nações europeias para controlar o desenvolvimento econômico, em paralelo com uma submissão à agenda anticristã da contracultura ou pós-modernismo, por meio da virtual ditadura exercida por a burocracia da União Europeia (UE) em Bruxelas.

As ideias centrais da ordem unilateral

Três documentos estadunidenses, em particular, são emblemáticos dessa “nova ordem”. O primeiro, de 1992, foi o ensaio, depois convertido em livro, O fim da História e o último homem, de Francis Fukuyama, então funcionário do Departamento de Estado e da Rand Corporation. Sua tese central era a de que, com a dissolução do império soviético, o Ocidente liberal seria o titã vitorioso da Guerra Fria. A morte do comunismo e a luta de classes criavam as condições para o estabelecimento de um “governo mundial” universal e, evidentemente, eterno.

O segundo documento, O choque de civilizações, de 1996, do cientista político Samuel Huntington, professor da Universidade de Harvard, defendia a tese de que com o fim da Guerra Fria, o sistema de dominação maniqueísta deveria preparar-se para um choque de civilizações entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano e, também, a China em ascensão.

A propósito, é simbólica dessa intenção de substituir o comunismo pelo islamismo o fomento de redes terroristas, como a Al-Qaida de Osama bin Laden, criação conjunta de agências de inteligência dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Israel, Arábia Saudita e Paquistão, com a finalidade de lutar contra a União Soviética, na Guerra do Afeganistão (1979-1988). Ironicamente, bin Laden entendeu bem cedo a mudança na orientação da luta contra o comunismo ao choque de civilizações. Embora não passasse de um peão de um complexo jogo de xadrez geopolítico, ele serviu perfeitamente para dar veracidade ao novo maniqueísmo proposto por Huntington.

A Guerra do Golfo, em 1991, os bombardeios contínuos do Iraque e a invasão país, em 2003, criaram as condições para o florescimento de uma forma diabolicamente radical do extremismo islâmico, com o surgimento do chamado Estado Islâmico, em 2014. Assim como a Primavera Árabe, deflagrada três anos antes, ambos foram usados para derrubar ou fustigar regimes seculares no mundo árabe, estabelecer Estados clericais e exterminar as minorias cristãs no Oriente Médio. Como afirma em seu artigo neste livro o padre argentino Alfredo Sáenz, as comunidades originárias do cristianismo no Oriente Médio foram quase eliminadas, sem que as potências ocidentais levantassem a sua voz e armas em sua defesa.

Assim, criaram-se as condições para um efetivo choque total de civilizações. O Estado Islâmico foi alimentado por brigadas de jovens provenientes do próprio Ocidente, para desafiar uma Europa apóstata com uma onda de terrorismo islâmico “ocidental”, que, ajudada pelos efeitos das ondas de imigrantes provenientes de países devastados, como a Líbia, Iraque e Síria, pretendia dar morte a uma civilização culturalmente suicida.

O terceiro documento, “O grande tabuleiro de xadrez: a supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos”, foi escrito em 1997 pelo ex-conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski. No livro, ele retoma a orientação da geopolítica britânica responsável pelas duas guerras mundiais no século XX, na tentativa de estabelecer um novo cerco contra a Rússia pós-soviética, política que tem orientado a atual expansão da OTAN até às fronteiras da Rússia, além de promover a “mudança de regime” na Ucrânia.

Para Brzezinski, a subversão da Ucrânia era crucial para impedir o ressurgimento da Rússia como uma potência eurasiática, o grande temor dos seus inspiradores britânicos do início do século, como Halford Mackinder. Da mesma forma, considerava contrário aos interesses hegemônicos dos EUA o estabelecimento de quaisquer coligações entre países como a China, Rússia, Irã e outros. Todavia, a crise ucraniana e a consequente reincorporação da Crimeia à Rússia provocaram exatamente o que Brzezinski também pretendia: o distanciamento entre a Rússia e a Europa Ocidental, especialmente a Alemanha.

Com base nas premissas desses trabalhos, em 1997, foi criado o Projeto para o Novo Século Americano (Project for the New American Century – PNAC), integrado por importantes formuladores da política externa estadunidense, a exemplo de Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Jeb Bush, Dick Cheney, Francis Fukuyama e muitos outros ligados ao “complexo de segurança nacional” dos EUA. O axioma da iniciativa era o de que já estariam dadas as condições para um domínio hegemônico planetário no século XXI, uma “Pax Americana”.

O desvio da bússola da destruição

Na segunda década do século, a utopia globalista parecia estar a caminho da consolidação e a agenda da destruição continuava. A Primavera Árabe de 2011 acabou de vez com a pouca estabilidade restante no mundo árabe. A guerra desencadeada na Líbia terminou com a deposição e o assassinato de Muamar Kadafi, após meses de bombardeios da OTAN, que, juntamente com as hordas de mercenários jihadistas recrutados no exterior e as milícias locais, precipitaram o país em um caos infernal. O “Clube das Bombas” do complexo industrial-militar estadunidense, inaugurado na Guerra do Golfo de 1991 e ampliado na invasão de 2003, que culminou com a derrubada e o assassinato de Saddam Hussein e a devastação do Iraque, voltava, agora, os seus olhos para a Síria, fomentando uma pretensa guerra civil e a invasão do país por hordas de jihadistas, muitos deles “liberados” das operações na Líbia. O próximo na lista deveria ser o Irã.

A inversão inesperada que desviou a bússola da destruição foi o resultado direto da hábil e inteligente diplomacia russa, cuja intervenção militar na Síria, no final de setembro de 2015, além de refrear os ímpetos belicistas estadunidenses, logrou dois importantes resultados.

Primeiro, destruiu as estruturas fundamentais do Estado Islâmico, ao mesmo tempo em que mostrava a hipocrisia estadunidense, com o seu apoio logístico e, com frequência, militar, às facções terroristas islâmicas.

Em segundo lugar, a Rússia tornou-se a potência defensora das minorias cristãs no Oriente Médio. Tanto o presidente Vladimir Putin como o chanceler Sergei Lavrov têm criticado sistematicamente o abandono dos valores cristãos pelos países da Europa Ocidental. A partir desta perspectiva, podemos entender o histórico encontro do Papa Francisco e do Patriarca Kirill I, em fevereiro de 2016, em Havana, explicitamente em defesa das minorias cristãs no Oriente Médio.

Para resgatar as raízes cristãs da Rússia, Putin teve um papel determinante na criação do Clube de Discussões de Valdai, em 2004, que se tornou um dos mais importantes foros de debates estratégicos no país, os quais também incluem destacados especialistas estrangeiros. Em seu discurso na conferência anual de 2013, Putin expressou uma crítica devastadora à apostasia nos países da Europa Ocidental:

“Podemos ver quantos países euroatlânticos estão atualmente rejeitando as suas raízes, em especial, os princípios cristãos que constituem a base da civilização ocidental. Estão negando os princípios morais e todas as identidades tradicionais: nacionais, culturais, religiosas e até sexuais. Eles colocam em prática normas que igualam as grandes famílias a casais do mesmo sexo, que igualam a fé em Deus com a fé em Satanás.

“Os excessos do politicamente correto chegaram ao ponto em que as pessoas falam seriamente em registrar partidos políticos cujos objetivos são promover a pedofilia. Em muitos países europeus, as pessoas têm vergonha ou temor de falar sobre a sua filiação religiosa. Os feriados religiosos são suprimidos ou recebem outro nome; a sua essência está sempre oculta, assim como os seus fundamentos morais.

“E estão tentando agressivamente exportar esse modelo para todo o mundo. Estou convencido de que isso abre um caminho direto para a degradação e o primitivismo, o que resultará em uma profunda crise demográfica e moral.

“O que mais, além da perda da capacidade de nos reproduzirmos, pode ser o maior testemunho da crise moral que sofre a sociedade humana? Hoje, a maioria das nações ricas não consegue mais se reproduzir, nem mesmo com a ajuda da imigração. Sem os princípios encarnados no cristianismo e em outras religiões do mundo, sem as normas morais desenvolvidas ao longo de milênios, as pessoas perderão, inevitavelmente, a sua dignidade humana. Nós consideramos natural e correto defender esses princípios. Temos que respeitar o direito de todas as minorias de serem diferentes, mas não se pode questionar o direito da maioria.”

Não há dúvida de que Putin se destaca como o maior estadista destas primeiras décadas do século, em drástico contraste com a mediocridade reinante entre os principais líderes ocidentais. Nas palavras insuspeitas do jornalista conservador estadunidense Chris Caldwell, publicadas na revista Weekly Standard, em março de 2017: “Quando Putin assumiu o governo, entre 1999 e 2000, seu país estava indefeso. Estava quebrado. Estava sendo dilacerado pelas suas elites cleptocráticas em conluio com seus antigos rivais imperiais, os estadunidenses. Putin mudou tudo isso. Na primeira década deste século, ele realizou o que Kermal Ataturk realizou na Turquia, na década de 1920. De um império em colapso, ressuscitou um Estado nacional e lhe deu coerência e propósito. Ele disciplinou os plutocratas russos. Ele restaurou a força militar da Rússia. E ele se recusou, com uma retórica cada vez mais dura, a aceitar um papel subordinado para a Rússia em um sistema mundial liderado pelos EUA, de acordo com planos políticos e líderes empresariais estrangeiros. Os eleitores lhe dão o crédito de ter salvo a Rússia. (…) Putin tornou-se um símbolo da soberania nacional, em sua batalha contra o globalismo.”

Obviamente, o leitor pode imaginar que tanto os eventos na Síria como a aproximação entre o Vaticano e a Igreja Ortodoxa Russa, além da elevação de Putin a um plano singular de estadista, não causam qualquer entusiasmo nos altos círculos de poder ocidentais, especialmente, os grupos oligárquicos anglo-americanos, que têm empreendido uma série interminável de operações clandestinas contra as igrejas Católica e Ortodoxa Russa e mantêm, ao mesmo tempo, uma estratégia de tensão permanente contra a Rússia e seu presidente.

A Rússia real

Se colocarmos no seu lugar de direito os acontecimentos sucintamente descritos, distinguir-se-á que os problemas de segurança da Europa Ocidental não decorrem de uma suposta ameaça expansionista russa, mas da geopolítica remanescente da “Nova Ordem Mundial”: levar a OTAN às fronteiras russas e a emigração desenfreada na África e no Oriente Médio, causada pela destruição econômica e pela militância inflamada do radicalismo islâmico alimentado pelas potências hegemônicas ocidentais.

Neste ambiente de desagregação da Europa, a Rússia aparece com uma missão especial. Antes de abordar este aspecto crucial, a principal motivação para a publicação deste livro, focalizemos a nossa atenção nos elementos que constituem, ao nosso ver, a mudança de época que vivemos.

Parece evidente que a “Nova Ordem Mundial” (ou a sua variante, o Projeto para um Novo Século Americano) caiu por terra, com a derrota do projeto de destruição do Estado nacional da Síria pelo jihadismo manipulado, a qual ficou patente após a libertação de Aleppo pelo Exército Sírio, no final de 2016, marco que pode ser comparado à derrota das forças nazistas em Stalingrado, em 1943.

Isso significa o fracasso da tentativa de criação de um “governo mundial”. No entanto, não implica na possibilidade de um retorno às condições da Guerra Fria, por mais que o poder anglo-americano insista em separar a Rússia do destino europeu, como pretendia Brzezinski no seu “tabuleiro de xadrez” geopolítico. Putin tem insistido repetidas vezes que a Rússia é uma nação que tem as suas raízes na Europa. Foi o que também disse o chanceler Sergei Lavrov, em seu artigo “Fundamentos espirituais da política externa russa”: “A Rússia é essencialmente um ramo da civilização europeia.” Por outro lado, retornar ao espírito da Guerra Fria, em um mundo em que já não existem as regras definidas sobre esferas de influência anteriores a 1991, é caminhar rumo ao abismo de um confronto termonuclear.

Por outro lado, o evidente declínio estratégico dos EUA em relação à Europa e ao resto do mundo não pressupõe uma mudança de poder hegemônico e da moeda de reserva internacional, como a experimentada no início do século XX, quando o Império Britânico e a libra esterlina passaram o bastão aos EUA e ao dólar. Hoje, simplesmente, não há mais espaço histórico para uma nova hegemonia global. O fato de que nem a Europa continental, nem a China, nem a Rússia, detenham a capacidade de substituir os EUA, não implica que estes permanecerão emitindo ordens ao mundo, por mais que as suas elites dirigentes se aferrem ao seu “excepcionalismo” doentio.

Tal fato nos apresenta um paradoxo histórico, que questiona a chamada “armadilha de Tucídides”, segundo a qual o declínio de uma potência e a sua eventual substituição por outra potência emergente implica necessariamente num conflito bélico total. Embora o conceito possa ter sido válido desde as Guerras do Peloponeso descritas por Tucídides, no presente, a sua concretização implicaria em uma devastação da civilização em escala planetária. De fato, durante a Guerra Fria, a doutrina nuclear da Destruição Mútua Assegurada (MAD, na oportuna sigla em inglês), já constituiu um prelúdio dessa inflexão na história da humanidade, que a oligarquia anglo-americana preferiu ignorar ao longo das últimas três décadas. Hoje, o desenvolvimento de armas hipersônicas, anunciadas pelo presidente Putin, no histórico discurso no Parlamento, em 1º de março de 2018, denota que a projeção de poder de uma potência sobre a outra se tornou absolutamente inócua – em especial, considerando-se que avanços tecnológicos semelhantes estão sendo desenvolvidos pela China.

Essa realidade singular nos leva a outro aspecto mais profundo. O anúncio de Putin sobre as novas armas demonstra não apenas uma superioridade tecnológica russa, mas, não menos, uma oportunidade peculiar para que os EUA possam explorar uma nova forma de entendimento, visando a um novo cenário mundial multipolar e cooperativo, condição sine qua non para abrir um caminho seguro para o progresso e a paz mundial.

Tanto Putin como Lavrov têm insistido no que chamam “um espaço comum de paz, segurança igual e indivisível e cooperação mútua na área do Atlântico ao Pacífico”, o que permitiria uma sintonia de esforços para implementar o grande projeto de integração da Eurásia, atualmente liderado tentativamente pela China. O desenvolvimento eurasiático, reunindo diretamente dois terços da população mundial, representa um potencial corredor de estabilidade numa região repleta de áreas de conflito endêmico. Por isso, a ruptura com as velhas diretrizes da geopolítica britânica atualizadas por Brzezinski & cia. e a junção dos próprios EUA aos benefícios socioeconômicos desse esforço é o único caminho para um mundo cooperativo. É, pois, evidente que a Rússia é singularmente qualificada para constituir o elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente.

A superação da ordem atual não pode ser avaliada nem em termos materiais nem militares. A China deverá ultrapassar brevemente o PIB dos EUA em termos absolutos, mas isto não lhe conferirá um papel hegemônico e, provavelmente, nem é esta a intenção das elites de Pequim. Por outro lado, o orçamento de “segurança nacional” dos EUA é mais de dez vezes superior ao da Rússia – e, em realidade, supera os orçamentos de defesa combinados de todas as demais nações do mundo –, mas isto não lhe assegura mais qualquer superioridade militar sobre as potências que considera rivais. Muitos dos seus novos artefatos bélicos, possivelmente, sequer entrarão em produção em série ou, no máximo, servirão para eventuais desfiles militares festivos.

O principal obstáculo para o estabelecimento de um mundo multipolar cooperativo é cultural, filosófico e espiritual, e não apenas uma mudança na ordenação material das principais potências. É claro que o centro de gravidade geoeconômico e geoestratégico do planeta está se deslocando do Atlântico Norte para o eixo eurasiático liderado pela China e a Rússia, exemplificado pelos grandes programas de infraestrutura moderna da Iniciativa Cinturão e Rota chinesa, mas, como observado anteriormente, isto não indica uma mudança de hegemonia econômica ou política, muito menos militar: é apenas a expressão da realidade de que dois terços da população mundial vivem no eixo eurasiático.

O principal obstáculo para o surgimento de uma nova era de cooperação global é o atavismo de se querer perpetuar no século XXI as ideias do “excepcionalismo”, baseado em pretensões de uma superioridade predestinada por um deus parcial, injusto e cruel.

Ideias que predominaram crescentemente desde a derrocada das potências católicas ibéricas e a emergência do domínio colonial anglo-saxônico, há mais de 350 anos. Não há outro caminho racional para a humanidade, se não retornar à ordem de Direito Natural cristão, na qual cada indivíduo ou nação foram criados iguais por Deus, para ter a vida e a liberdade como instrumentos de uma missão, a busca da felicidade individual e geral – ou seja, a busca do Bem Comum. Enterrar em uma vala comum o empirismo radical inglês e o “excepcionalismo” é pré-condição para transformar os recursos de confrontação bélica em recursos para o desenvolvimento e o progresso compartilhados.

As nações ocidentais necessitam recuperar com urgência o seu senso de propósito histórico, baseado em suas raízes cristãs, hoje desprezadas pelo secularismo radical. E é aí que reluz a missão da Rússia nesta mudança de época global. As lições deixadas na recuperação do seu orgulho e a sua grandeza cristã, após o interregno comunista, devem servir de exemplo à Ibero-América, para retomar o mesmo sentido de missão universal com base nos mesmos princípios cristãos aqui infundidos pela evangelização fundadora. Como a Rússia, devemos celebrar o nosso batismo.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...