A ideologia do gênero e a crise na Ucrânia

Na aguda crise internacional deflagrada pelos acontecimentos na Ucrânia, ainda mais tensionada pelo resultado do referendo favorável à independência da Crimeia, a aliança EUA-Canadá-União Europeia começou a impor sanções à Rússia. Até agora, estas se limitaram a uma insólita lista de personalidades russas e ucranianas, que não poderão viajar a nenhum país da aliança e terão congelados os seus bens eventualmente existentes naquelas nações, já que foram acusadas de “ter responsabilidade na deterioração da situação da Ucrânia”.

Este tipo de punição é legitimado pelo Direito Internacional vigente. Porém, não deixa de chamar a atenção o fato de que, entre os proscritos, encontra-se a deputada Elena Mizulina, uma das personalidades russas mais polêmicas e incômodas para os promotores da cultura laicista radical no Ocidente. Longe de ter algo a ver com a crise na Ucrânia, a sua inclusão na lista negra se deve muito mais à sua aguerrida oposição à chamada ideologia do gênero, mostrando-se afinada com os valores cristãos da família e desempenhando uma intensa atividade em sua posição de presidente da Comissão para a Família, a Mulher e a Infância do Parlamento russo.

Ao que tudo indica, a guerra cultural travada pelas lideranças russas dentro do seu território não é bem vista pelo poder anglo-americano, cuja cúpula, nos últimos tempos, converteu a aceitação da ideologia do gênero em uma régua para a medição da democracia, da tolerância e do pluralismo. Com a crise ucraniana, parece haver a intenção de elevá-la à condição de critério para a definição das normas da convivência pacífica entre nações. De outra maneira, não se explica por que Elena Mizulina se converteu em persona non grata para os EUA e o Canadá, que incluíram o seu nome nas respectivas listas de pessoas visadas.

De fato, desde 2013, ela estava na lista de espera das retaliações de Washington, por ter proposto a proibição de adoção de crianças russas por cidadãos estadunidenses, em retaliação à chamada Lei Magnitsky. A lei, aprovada pelo Congresso e pelo presidente Barack Obama, em 2012, submete 60 funcionários e autoridades judiciais russos a uma eventual proibição de viajar aos EUA, como punição pela sua alegada responsabilidade na morte do advogado Sergei Magnitsky, falecido em uma prisão russa, em 2009.

Na Duma (Câmara Baixa do Parlamento), Mizulina propôs um projeto de lei que proíbe a propaganda pró-aborto na Rússia. Em suas palavras, “na Rússia, fazer um aborto é algo tão fácil como comprar uma garrafa de vodca”. Em novembro de 2013, a lei foi sancionada pelo presidente Vladimir Putin. Ela também esteve por trás das iniciativas legislativas que proíbem o casamento homossexual e a adoção de órfãos russos por cidadãos de países onde tal modalidade matrimonial é legalizada.

Igualmente, Mizulina participou da elaboração de uma série de emendas ao Código da Família, destinadas a restabelecer os vínculos das famílias com as tradições religiosas, estimular os jovens a se casarem, em vez de apenas viver juntos, e proteger a juventude contra os danos causados por informações divulgadas na internet. Esta última lhe valeu uma acirrada oposição de gigantes da rede, que orquestraram uma campanha para acusá-la de conspirar para coibir a liberdade de expressão na Rússia.

Em suas emendas, Mizulina tem enfatizado que o atual Código da Família russo carecia de uma definição da família tradicional. Ela também tem afirmado que a família tradicional russa possui características próprias, a mais significativa sendo a influência sofrida das tradições religiosas, que consideram uma família com filhos como uma bênção – noção compartilhada pelas religiões mais populares na Federação Russa: o cristianismo ortodoxo, o islamismo e o judaísmo (RT, 4/03/2014).

“Não se deve esquecer de que todos descendemos de 70 anos de ateísmo. Todo mundo entende o que é uma família soviética. Mas uma família tradicional é uma homenagem à etapa anterior da história da Rússia, que tinha a cultura religiosa como base da sociedade”, disse Mizulina.

O trabalho da comissão parlamentar está em sintonia com o projeto de longo prazo de Putin e da elite governante russa, preocupados em ressaltar a importância dos preceitos cristãos para a vida cotidiana das famílias russas. Por isso, o presidente e seu grupo apóiam resolutamente as restrições feitas às modalidades da ideologia do gênero.

Em particular, a imposição de obstáculos ao aborto tem a finalidade de aumentar a natalidade, em um país afetado por uma alarmante implosão demográfica, com a população diminuindo anualmente em cerca de 500 mil pessoas, devido ao excesso de mortes sobre o de nascimentos. Em 1920, o recém-implantado regime comunista fez da Rússia Soviética o primeiro país do mundo a legalizar o aborto. Na Europa, cuja maior parte também se vê ameaçada pelo “inverno demográfico”, não obstante, a resposta tem sido bem diferente, continuando-se a enfatizar as crenças anticristãs desfiguradoras da família.

Por isso, em Moscou, tem sido realizada uma série de eventos destinados a reforçar as convicções das vantagens das famílias “normais”. Em 2011, por exemplo, realizou-se uma grande conferência internacional sobre “A família e o futuro da humanidade”, promovida pelo movimento pró-vida russo, com o apoio ostensivo do Kremlin, da Igreja Ortodoxa Russa e do Parlamento.

Em um comentário feito na ocasião, o então presidente Dmitri Medvedev, admitiu que “a forte diminuição da população, que acarreta em uma densidade [demográfica] três vezes inferior à média mundial, produz uma debilitação da influência política, econômica e militar da Rússia no mundo”.





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