A erradicação dos lixões e o “urubu sustentável”

Caso prevaleça o atual ritmo de execução do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a meta de se eliminarem todos os lixões do país não será atingida até muito além do ano estabelecido de 2014. Especialistas do setor destacam que os entraves burocráticos, a falta de diretrizes claramente definidas e o pouco comprometimento político têm obstaculizado o avanço em um dos mais sérios problemas ambientais do País – que, curiosamente, não recebe o devido destaque na agenda dos principais grupos ambientalistas.

Com isto, as colônias de urubus continuarão sendo os melhores amigos dos ecossistemas nacionais, responsabilizando-se por grande parte da eliminação dos resíduos biológicos dispensados nos lixões.

Lançado em outubro de 2010, o PNRS ainda se encontra em estado embrionário, mesmo tendo se passado quase dois anos. Segundo reportagem do Valor Econômico (29-30/06/2012), de 2002 até o fim de maio deste ano, o governo federal investiu apenas R$ 117,5 milhões para projetos de resíduos sólidos – valor que representa menos de 1% dos R$ 18,5 bilhões destinados pela Caixa Econômica Federal (CEF) para investimentos no setor de saneamento ambiental.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP), Clóvis Benvenuto, a maior parte das prefeituras precisará de apoio do governo federal para custear projetos de resíduos sólidos. O especialista aponta, também, que será necessário que a população comece a pagar pelo serviço de coleta de lixo nos próximos anos, e propôs “a alternativa mais barata, que é o aterro sanitário”, em vez de opções mais onerosas, como a geração de energia a partir do lixo.

Outro especialista, Diógenes Del Bel, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), considera que o prazo para a erradicação dos lixões já está muito apertado. Todavia, considera ainda ser “possível atingir essa meta, mas precisa entrar na prioridade dos governos e contar com a ajuda da iniciativa privada por meio de concessões e parcerias público-privadas”.

Por sua vez, Rogério Tavares, diretor-executivo de Saneamento e Infraestrutura da CEF, informou que a carteira de financiamento do banco para projetos de resíduos sólidos atingiu mais de R$1 bilhão, em contratos com dez municípios. Deste valor, R$ 400 milhões foram destinados a projetos localizados na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e em três municípios vizinhos. Segundo Tavares. a CEF quer “apoiar o consórcio de municípios para adotar soluções integradas que viabilizem os aterros em pequenas cidades”.

Todavia, fica evidente o descaso com a questão dos lixões, fato que revela a questionável orientação das autoridades e de grande parte da população brasileira em relação às questões ambientais. Ao mesmo tempo em que se observa esta falta de comprometimento com a construção de soluções menos primitivas que os lixões para o tratamento adequado do lixo, formuladores de políticas públicas têm aprovado recursos para projetos de combate ao suposto aquecimento global e incentivos de toda ordem às fontes energéticas “renováveis”, principalmente, eólicas e solares. Vê-se, portanto, que a falta de dinheiro é um mal seletivo, que só afeta os projetos vistos com menor importância pelos planejadores públicos.Se persistir o descaso com as verdadeiras emergências ambientais e sanitárias do País, nos restará torcer para que a natureza continue fazendo o seu papel, com o programa “urubu sustentável”.

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