Além das evidentes implicações militares e geoeconômicas, a guerra na Ucrânia incorpora um aspecto mais profundo, o cultural e espiritual, âmbito que tem prosperado na reconstrução da Rússia, acompanhando o seu renascimento cristão após a desintegração da União Soviética.
Desde o início do conflito, pela simples defesa dos valores cristãos, o Patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Cirilo I, foi colocado no centro de uma feroz campanha internacional orquestrada por altos escalões do poder anglo-americano, em especial, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), também conhecido como a “ONU das Igrejas”, exigindo a expulsão do líder religioso da entidade. Incapaz de tomar medidas positivas para deter a guerra, a ONU caminha para a obsolescência e o mesmo pode ser dito do CMI.
Após a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1988, em vez de as potências ocidentais saudarem e colaborarem com um país emergindo pacificamente do comunismo, trataram de erguer outro muro, desta vez, projetado para conter a Rússia, tratando-a como um “posto de gasolina com armas nucleares”. Sob a ótica do hegemonismo, isto significava que a designavam como uma mera fornecedora de matérias-primas, sobretudo de energia, obrigada a se render incondicionalmente às regras dos “valores europeus” crescentemente divorciados de suas raízes culturais cristãs.
Acatar a agenda LGBT, o neomalthusianismo e a ideologia de gênero, tornou-se o passaporte para a entrada na civilização europeia. Mas, apesar de essa ideologia distorcida estar entrincheirada nas sedes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da União Europeia (UE) em Bruxelas, ela não representa o sentimento profundo das nações do Velho Continente, nem é compartilhada pela tradição russa, que brinda tributos muito específicos à pátria, à família e à religião.
Por isso, fazer do ressurgimento cultural e espiritual da nação eslava um objetivo nacional, evidentemente, entra em choque contra a apostasia europeia, confrontada publicamente em várias ocasiões pelo presidente Vladimir Putin e por outros membros de seu gabinete, bem como por grande parte da elite pensante do país.
O sentimento nacional que permeia a população russa foi expresso por Nikolai Patrushev, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, em entrevista ao jornal oficial Rossyiskaya Gazeta de 29 de abril:
(…) Nesse sentido, a Rússia escolheu o caminho da proteção integral de sua soberania, defesa firme dos interesses nacionais, identidade cultural e espiritual, valores tradicionais e memória histórica.
Nossos valores espirituais e morais nos permitem permanecer nós mesmos, ser honestos com nossos ancestrais, preservar o indivíduo, a sociedade e o Estado. Os europeus, por exemplo, fizeram uma escolha diferente. Eles adotaram os chamados valores liberais, embora na realidade sejam neoliberais. Promovem a prioridade do privado sobre o público, o individualismo que suprime o amor à Pátria e o desaparecimento gradual do Estado. Agora é óbvio que com tal doutrina, a Europa e a civilização europeia não têm futuro. Aparentemente, eles repetirão as lições que ainda não aprenderam.
O fenômeno histórico de negação de tão esplêndidas raízes é típico da decadência civilizacional e marca a distinção entre civilização e cultura. A Europa e os Estados Unidos são ricos e civilizados, mas com culturas decadentes, uma vez que cultura pressupõe o exercício de valores de transcendência, no entendimento de que não apenas a prosperidade e o progresso econômico – hoje em declínio – são as causas de felicidade.
Quando Putin ordenou o início das operações militares na Ucrânia, ele sabia, juntamente com a liderança político-militar e religiosa da Rússia, que estava “chutando a mesa” da ordem hegemônica euroatlântica, que converteu a Ucrânia, desde o golpe de Estado de 2014, em um aríete contra a segurança territorial russa.
Por outro lado, a maioria dos líderes europeus, figurantes de uma comédia bufa dirigida de Bruxelas e Washington, sabe que uma vitória russa na Ucrânia significaria o fim da utopia global alimentada desde o nascimento do Establishment anglo-americano, nas conferências de paz de Paris em 1919, no final da Primeira Guerra Mundial. Sem entrar no assunto, por enquanto, são conhecidas as consequências daqueles acordos para a Europa.
O Conselho Mundial de Igrejas
Anos mais tarde, aquela utopia de um governo mundial entrou em ação e, entre outras vertentes, em 1937, figuras prestigiosas do poder anglo-americano fundaram o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) para estimular o diálogo inter-religioso de uma maneira tão pálida que abriu a porta para uma vaga interpretação do ecumenismo necessário. Entre os seus fundadores, destacavam-se John Foster Dulles, futuro secretário de Estado dos EUA e um dos operadores da Guerra Fria, e o britânico Philip Kerr, Lorde Lothian, que rotulava o Estado soberano como uma “influência demoníaca” causadora de guerras e conflitos.
Desde então, o CMI tem se dedicado a promover e apoiar vigorosamente causas seculares compatíveis com um corpo doutrinário relativista, que beira o absurdo com a pós-modernidade, cujos objetivos são desestabilizar, subverter e desmembrar os Estados nacionais soberanos. Em essência, sua missão é consolidar estruturas de um governo mundial, já que o nacionalismo, segundo eles, tem sido a principal causa das guerras.
Não por acaso, na Europa, o termo nacionalismo tornou-se quase sinônimo de nazista e todos os que se opõem a essa agenda do “politicamente correto” são prontamente rotulados de ultradireitistas e outros epítetos insultuosos.
A ampla estrutura do CMI permite que ele seja um contribuinte valioso para a guerra cultural travada no mundo liberal ocidental para afogar a sociedade no hedonismo radical, desaparecimento da família natural, agenda “identitária”, movimento “woke”, transumanismo e outras pautas criadas pelas oligarquias transnacionais.
Inquisição contra o Patriarca Cirilo I
Em 7 de março, o Patriarca Cirilo I proferiu um contundente sermão que teve grande repercussão internacional, referindo-se ao fato de que a carta de admissão ao mundo liberal ocidental exige uma rendição a um sistema de convicções antípodas do cristianismo, cujas manifestações são saudadas com fanfarras, como nas manifestações do movimento LGBT+ e outras.
Outra homilia de Cirilo I, comentada no jornal AsiaNews em 27 de abril, exemplifica sua luta contra o que ele descreve como “contravalores” ocidentais. Na histórica Catedral da Assunção, dentro do Kremlin, ele convidou a população a se reunir em torno da “cidade de Moscou, centro de todas as Rússias”, para se defender dos “centros de poder no exterior”.
Segundo ele, o povo russo precisa redescobrir a sua união interior, “porque somente na unidade está a nossa força, e se mantivermos a fé de nossos pais em nossos corações, então, a Rússia será invencível”. Acrescentou que “nem sempre a vitória é das armas, mas também a vitória do espírito, e muitos hoje gostariam que esse espírito desaparecesse”. Ele listou as táticas do inimigo que “espalha confusão, cria novos ídolos, chama a atenção para novos pseudovalores, para inverter a dimensão da consciência do homem, daquela vertical que une a Deus àquela horizontal, sobre a qual se implantam todas as demandas da carne humana”.
Nada mais ilustrativo contra o papel desempenhado por Cirilo I e pela Igreja Ortodoxa do que dois artigos recentes publicados pelo jornal Financial Times, porta-voz da City de Londres, nas edições de 18 e 19 de abril. As respectivas manchetes, “A Igreja Ortodoxa Russa dá legitimidade à guerra de Vladimir Putin na Ucrânia” e “A ‘guerra santa’ do Kremlin contra a Ucrânia”, traem o medo de que o exemplo de uma Rússia defensora dos valores cristãos se espalhe para outros países, entre eles a irredenta Hungria de Viktor Orbán. Alguns parágrafos dão uma ideia desse sentimento:
A ideia de uma “guerra santa” na Europa pode parecer um retrocesso aos séculos passados. No entanto, esta é, em essência, a maneira como a Igreja Ortodoxa Russa e seu chefe, o Patriarca Cirilo de Moscou, retrataram a invasão russa da Ucrânia.
Esse comportamento não apenas mostra como a Igreja e o Estado se entrelaçaram na Rússia de Vladimir Putin, mas também é importante entender as motivações para a Rússia de Moscou. Embora não faça parte formalmente dela, a Igreja Ortodoxa Russa se tornou um pilar de fato do regime autocrático de Putin.
A maioria das paróquias da Ucrânia optou por permanecer submetida ao Patriarca Cirilo mesmo depois de 2019 [quando houve a cisão da Igreja Ortodoxa ucraniana], cerca de 12.000, ou cerca de um terço de todas as paróquias sob controle de Moscou. Agora, muitos dos apoiadores clericais de Moscou na Ucrânia estão deixando o Patriarca Cirilo fora de suas orações.
Centenas de padres ucranianos que permanecem formalmente membros da Igreja de Moscou pediram que o Patriarca fosse julgado por um raro Tribunal da Igreja por abençoar a guerra.
Somando-se à onda inquisitorial, o Financial Times afirma: “Lorde Rowan Williams, o ex-arcebispo de Canterbury, depois de visitar a Ucrânia, na segunda semana de abril, declarou que há um ‘argumento forte’ para expulsar a igreja russa do Conselho Mundial de Iglesias, a menos que o Patriarca Cirilo I condene o assassinato de membros de seu ‘próprio rebanho’.”
Lorde Rowan foi o líder espiritual da Comunhão Anglicana entre 2002 e 2012 e é famoso por suas simpatias às demandas do lobby LGBT dentro da Igreja Anglicana. Este e outros desvios aceleraram o colapso daquela instituição.
Por outro lado, incentivando o linchamento do Patriarca, em 7 de abril, o Parlamento Europeu condenou-o em um comunicado: “O papel do Patriarca Cirilo I de Moscou, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, é condenado por dar uma justificativa teológica para a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia; e elogia a coragem dos 300 sacerdotes da Igreja Ortodoxa Russa que assinaram uma carta condenando a agressão.”
No mesmo sentido, nos Estados Unidos, todas as redes do CMI em fundações, igrejas e universidades, estão mobilizadas para sancionar o Patriarca. Por exemplo, o Instituto Dietrich Bonhoeffer de Washington alertou os seus afiliados, pedindo pressão para que na próxima assembléia do CMI, em setembro, a filiação da Igreja Ortodoxa Russa seja cancelada ou pelo menos suspensa indefinidamente, “porque Cirilo I persiste em justificar a agressão de Putin, ao denominar a invasão como uma cruzada religiosa”.
Uma Nova Conferência de Helsinki
O agravamento da guerra e a ofensiva midiática contra a Rússia, Putin e Cirilo I, provocaram o cancelamento de um encontro que o patriarca teria com o Papa Francisco, que, mantendo a neutralidade, tem feito fortes apelos na busca de um sistema estável de paz. .
Nesse sentido, o secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, propôs que no caminho da paz se deveria convocar imediatamente uma nova Conferência de Helsinki, com o objetivo de estabelecer uma comunidade de convivência e relaxamento na Europa.
Um artigo no jornal Il Messaggero de 29 de abril, sobre a apresentação do livro Contra a guerra, do Papa Francisco, afirma: “Em relação à debatida questão do envio de armas, o secretário de Estado do Vaticano repetiu que as nações têm o ‘direito de se defender contra a invasão sofrida’, observando, no entanto, que apenas a esfera militar, sem perseverar na frente diplomática, é como um fim sem esperança. ‘Só estou dizendo que limitar-se às armas é uma resposta fraca.’”
Em entrevista à Catholic News Agency, Parolin afirmou que Kiev tem o direito “legítimo” de defesa, mas que o envio de armas à Ucrânia pode desencadear uma escalada “terrível”: “A comunidade internacional quer evitar a escalada e até agora ninguém interveio diretamente. Mas vejo que muitos estão enviando armas e isto é algo terrível em que pensar, inclusive se o princípio de autodefesa continua válido.”
Além disso, fez um forte apelo aos líderes europeus, para que abandonem a letargia que os liga ao destino traçado por Washington e pela OTAN e avancem significativamente em favor da paz: “Deixar o esquema de guerra e assumir o esquema de paz significa fortalecer a participação nas organizações internacionais e, também, redescobrir uma maior capacidade de iniciativa europeia. A guerra em curso na Ucrânia é terrível, no coração da Europa e na Europa cristã.”
Essa guerra, disse ele, “foi o resultado de um processo criado nas últimas décadas”. E, “quando falávamos sobre a erosão do multilateralismo, e cada um tentava resolver os problemas para os interesses de grupo, era lógico que iríamos para uma terceira guerra mundial em pedaços”.
Parolin reiterou:
Precisamos do espírito que o então primeiro-ministro [italiano] Aldo Moro interpretou em Helsinki em 1975, indo além da lógica dos bloqueios e envolvendo todas as nações. Durante essa Conferência para a Segurança e a Cooperação na Europa Oriental e Ocidental, se uniram no caminho da distensão e, a este propósito, permitam-me recordar o papel então desempenhado pela Santa Sé e pela delegação chefiada pelo futuro cardeal Agostino Casaroli. A paz redunda no interesse do povo, a segurança internacional redunda no interesse de todos. Hoje, precisamos redescobrir esse espírito, precisamos de uma nova Conferência de Helsinki.
Recorde-se que, na época, o Pontífice era Paulo VI, que anos antes tinha apresentado ao mundo a sua profética encíclica Populorum Progressio – desenvolvimento, o novo nome de paz (1967).
Nesse sentido religioso-cultural, o Papa e o Patriarca de Moscou são as figuras-chave para se promover efetivamente uma paz duradoura e um novo impulso para o “bem comum europeu”, que pode acabar por ajudar a Igreja Romana na sua luta contra o perigo de um cisma de identidade na Europa.

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