A crise russa e o Ocidente: dois pesos e duas medidas entre as elites políticas

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Dias atrás, o professor James D. Bindenagel, ex-embaixador dos EUA em Berlim na década de 1990, falou sobre os “Desafios e as impossibilidades para as relações transatlânticas no século 21”, em um evento informal no “atlanticista” Mid Atlantic Club, em Bonn. O tema foram as novas ameaças de confrontação nas relações transatlânticas, relacionadas à crise entre a Rússia e a Ucrânia, tendo ela afirmado categoricamente que a crise “não pode ser resolvida pela via militar”.

Bindenagel, que também serviu como vice-embaixador em Berlim Oriental nos anos críticos de 1989-1990 e foi chefe do Gabinete da Europa Central do Departamento de Estado, é atualmente professor da Cátedra Henry Kissinger de Segurança Internacional e Governança da Universidade de Bonn. A sua tese principal é de que a “comunidade de valores” – defesa da dignidade do homem, liberdade e democracia – “deve ser reafirmada como resposta aos novos desafios que estamos enfrentando”, incluindo a crise ucraniana, a emergência do Estado Islâmico no Oriente Médio e a necessidade de se defenderem os valores ocidentais (o mando da lei e o princípio da soberania) e um acordo de livre comércio transatlântico, o chamado TTIP (Parceria de Investimentos e Comércio Transatlântico, na sigla inglesa).

Para o diplomata, é preciso uma nova conferência de revisão da Carta de Paris, incluindo a participação de ministros das relações exteriores, chefes de Estado e representantes da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), de modo a encontrar uma saída do impasse da crise ucraniana. Da mesma forma, defendeu uma cooperação com a Rússia na questão nuclear do Irã e no confronto com o Estado Islâmico.

Ele revisou muitos dos erros estratégicos cometidos pelo Ocidente em relação à Rússia, como a proposta de incorporar a Geórgia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que também foi ofertado à Ucrânia e foi entendido pelo lado russo como uma afronta. Sobre as investigações em andamento sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) estadunidense, ele admitiu que o assunto causou certas irritações entre os aliados transatlânticos dos EUA, como a Alemanha. Para ele, o período pós-11 de setembro deixou clara a necessidade de serviços secretos funcionais que possam lutar contra a ameaça do terrorismo, mas isto não deve significar que haja espionagem contra a própria população dos Estados Unidos.

Refletindo sobre os fatores subjetivos da política e os efeitos da política de Washington na população estadunidense, o embaixador se referiu à pesquisa de opinião realizada nos EUA pela organização German Marshall Fund, na qual 53% dos entrevistados se opuseram aos engajamentos do governo de Barack Obama no cenário internacional (10% a mais do que no ano anterior), enquanto na Alemanha 70% da população rejeita que o país tenha uma maior responsabilidade global. O embaixador expressou otimismo, todavia, ao declarar que, à luz de novos desafios, ele acreditava na viabilidade e na força da “comunidade de princípios e valores” transatlânticos. Ao mesmo tempo em que expressou dúvidas sobre o propósito de se criar um “espaço econômico comum entre a União Europeia e a União Eurasiática, que se estenda de Vladvostok a Lisboa”, como proposto pela Rússia, ele expressou um grande otimismo sobre o projeto TTIP.

Ceticismo sobre a “comunidade de valores” transatlântica

Na discussão que se seguiu à palestra, muitos membros da audiência se mostraram céticos sobre a viabilidade de uma “comunidade de princípios nas relações transatlânticas”, incluindo um deputado do Parlamento Europeu. Ele destacou que há “dois pesos e duas medidas” do lado dos EUA, exemplificado pela prisão de Guantánamo, o uso da tortura e a guerra do Iraque de 2003, motivados por justificativas sem base. Outro debatedor falou sobre a “violação de certos princípios da Carta do Atlântico” da década de 1940, que afirmou o direito das nações à autodeterminação, incluindo a liberdade religiosa e de uso de línguas por grupos étnicos, questionada quando o novo governo de Kiev aprovou uma lei banindo o uso da língua russa pela comunidade étnica russa na Ucrânia.

Outra contribuição abordou o duplo significado do termo “democracia” nos EUA, que foi questionado pelos irmãos Charles e David Koch, dois dos oligarcas mais ricos do país, que injetaram 1 bilhão de dólares na campanha eleitoral do Partido Republicano.

O evento demonstrou ainda a necessidade de um debate franco entre ambos os lados do Atlântico, em lugar de promover uma retórica vazia da “comunidade de valores”. Em meados de fevereiro, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger deu uma entrevista à revista suíça Weltwoche, na qual enfatizou que considera a crise da Ucrânia como “uma tragédia”. Ele destacou alguns erros óbvios que foram cometidos pelo Ocidente, incluindo o fato de que as negociações de associação da Ucrânia com a União Europeia (UE) se tornaram um assunto “doméstico” dominante, e que as condições financeiras exigidas pela UE eram tão duras que a Rússia viu a chance de oferecer crédito à Ucrânia. Neste momento, os europeus entraram em pânico, mas rejeitaram as ofertas russas de estabelecer uma negociação triangulada. O grande “pecado” dos chefes de Estado, disse, foi que ninguém viu o que estava em jogo. “Esperem um momento, o futuro da Rússia, da Ucrânia, da Europa e dos Estados Unidos está em questão. Para onde estamos indo?”, contestou.

Prosseguindo, Kissinger afirmou: “Eu não justifico a anexação da Crimeia… essa não é a questão. Mas o problema é que o Ocidente perdeu a chance, por não entender, até hoje, que essa crise poderia ser usada para manter a Rússia com a comunidade, em vez de levá-la ao isolamento. Mas, com essa opinião, eu permaneço sozinho. Em vez disso, o que é necessário é uma discussão conceitual com o presidente [Vladimir] Putin.”

A indústria alemã: um espaço econômico comum entre UE e União Eurasiática

Uma recente leitura bastante realista sobre os efeitos da crise ucraniana sobre a indústria alemã foi proporcionada pelos representantes de indústrias alemãs presentes no Leste Europeu. Em meados de fevereiro, os resultados de uma pesquisa de opinião foram apresentados em uma entrevista coletiva em Moscou, pelo presidente da Câmara de Comércio Exterior Russo-Germânica, Rainer Seele,e pelo presidente do Comitê Alemão para as Relações Econômicas do Leste Europeu, Dr. Eckhard Cordes.

A sondagem baseou-se em um questionário envolvendo 156 companhias com negócios com a Rússia, envolvendo engenharia mecânica e de instalações, indústria automotiva, de transportes e logística. Em conjunto, elas são responsáveis por 71 mil empregos na Rússia e movimentam 19 bilhões de euros no país.

Na oportunidade, Cordes alertou que “a divisão econômica da Europa em dois blocos” seria um grande erro, cujas consequências podem ser sentidas em uma guerra dramática, que se espalhou pela Ucrânia: “Devemos pôr fim a essa estratégia errônea e começar a conversar sobre um espaço comum econômico europeu, no qual a União Européia, a Rússia e a Eurásia possam ter parte.”

Os resultados da pesquisa mostram que 75% das companhias alemãs presentes na Rússia pensam que o conflito na Ucrânia tem efeitos negativos nos seus negócios e 91% acreditam que a economia russa terá um desempenho negativo este ano (contra 14% no ano passado). Como resultado das sanções econômicas impostas pelos EUA e a UE, um declínio nos preços do petróleo e a queda do rublo, a Rússia se encontra em recessão, com impactos diretos em sua população, economia e em todos os seus negócios no exterior. “Não há uma solução rápida, mas a Rússia é o maior parceiro comercial da Alemanha na região, o que é evidenciado pela presença de 6 mil companhias alemãs”, disse Seele. Este é um claro sinal de que tudo deve ser feito na articulação política para dar início a um diálogo e encontrar soluções sustentáveis.

Em 2014, as exportações alemãs para a Rússia sofreram uma queda de 18%, cerca de 6 bilhões de euros. Para este ano, 72% das companhias acreditam que o declínio nas exportações para a Rússia prosseguirá, enquanto muitos expressaram a preocupação de que os russos possam se voltar para a China e a Ásia em busca de alternativas. Todavia, os empresários alemães estão convencidos de que as relações econômicas com a Rússia poderão ser resgatadas se a luta na Ucrânia cessar imediatamente. “Uma zona livre de Lisboa a Vladivostok pode ter um efeito nos países participantes similar ao de um enorme programa de estímulo”, disse Seele.

Os efeitos das sanções econômicas contra a Rússia foram rejeitados (34%) ou qualificadas como meios inadequados (42%) pelas companhias alemãs. Somente 1% espera desdobramentos positivos, contra 28% no ano anterior. Muitos também esperam uma desaceleração de investimentos externos na Rússia, devido à queda da demanda e problemas de financiamento para certos projetos, além de fatores internos russos, como problemas burocráticos, barreiras protecionistas etc. E 73% das companhias alemãs não pretendem fazer investimentos na Rússia nos próximos 12 meses, contra 61% no ano passado.

Questionados sobre o futuro cenário da Ucrânia, 78% dos empresários alemães sondados desejam que este país faça parte de um espaço econômico comum entre a UE e a União Econômica Eurasiática, que entrou em vigor no dia 1° de janeiro deste ano, com a Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e Armênia como seus membros. Outros 11% querem uma associação entre a Ucrânia e a UE, enquanto apenas 1% quer o país como membro pleno do bloco europeu. A grande maioria quer que as relações econômicas estreitas com a Rússia não sofram interferências e que seja dada atenção a um compromisso político e econômico de longo prazo.

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