A crise de energia europeia e a audaciosa visão de Macron para o futuro

Nas últimas semanas, a Europa foi atingida por um forte aumento dos preços da energia, sobretudo, petróleo, gás natural e eletricidade. Dos ministros das finanças da União Europeia (EU), partiu um aviso urgente, expressando a preocupação de que o aumento dos preços da energia acarretaria uma alta inflacionária e, portanto, se tornava um grande fardo para o consumidor médio.

Sob a perspectiva da Alemanha, como resultado das eleições gerais de 26 de setembro, as negociações para a formação de uma coalizão de governo estão ocorrendo agora entre os social-democratas (SPD), que ganharam mais votos que a coalizão democratas-cristãos/social-cristãos (CDU-CSU), os Verdes e o Partido Liberal (FDP). O futuro da Alemanha e seu possível próximo governo será baseado em um acordo comum para um ambicioso “pacote de políticas climáticas”. Isto incluirá enormes aumentos de preços para o consumidor médio no setor de energia, acompanhados de preços inflacionários no setor de alimentos, na habitação e no uso de combustível automotivo. Enquanto isso, os principais economistas alemães declararam, em um estudo recente, que a perspectiva de crescimento da economia terá de ser rebaixada para 2,4% este ano e aconselharam “apertar os cintos”.

Para uma família média, isso significa que, anualmente, apenas as contas de eletricidade aumentarão em várias centenas de euros. Com efeito, nos últimos meses, os preços da energia na Europa subiram 250%. Na Alemanha, a eletricidade negociada no mercado livre ficou 140% mais cara e, na Espanha, chegou a 425% de aumento. De acordo com o comissário de Comércio da UE, Valdis Dombrovskis, as molas propulsoras dessa tendência foram os “altos preços do gás natural”. Nas grandes capitais europeias, crescem os temores sobre mais tensões sociais e pobreza, no futuro próximo. Muitos governos ainda têm em mente a revolta dos “coletes amarelos” na França, desencadeada pelo anúncio de impostos maiores sobre o óleo diesel. Ao mesmo tempo, há um debate para se encontrar uma “resposta coordenada e comum” à crise energética do bloco. A Itália quer gastar € 3 bilhões para aliviar a carga sobre as famílias, enquanto a Espanha reduziu temporariamente o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) da eletricidade e a França introduziu um teto para os preços do gás.

A Rússia como bode expiatório

Nos últimos dias, tem havido um coro de protestos contra a Rússia, responsabilizando-a pela disparada dos preços do gás natural. A alegação – absurda – foi prontamente rejeitada pelo presidente russo Vladimir Putin, bem como por outros líderes políticos europeus. Em um discurso na Semana da Energia de Moscou, Putin pediu uma rápida conclusão no processo de autorização para o funcionamento do já concluído gasoduto Nord Stream 2 e ofereceu ajuda: “Se vocês querem que aumentemos o fornecimento, estamos prontos para isso. Nós os aumentamos na medida em que nossos parceiros pedirem.” Putin enfatizou que a estatal Gazprom é totalmente confiável em termos de entregas e transição de gás para a Europa. O que importa, afirmou, é que as obrigações do tratado para a transferência de gás através do território da Ucrânia, usando o seu sistema de gasodutos, estão sendo cumpridas. E lembrou que a Alemanha é o maior consumidor de gás russo, tendo recebido 131,8% a mais, nos primeiros nove meses deste ano, que no mesmo período do ano passado.

Segundo o jornal Die Zeit, Putin responsabilizou os europeus pelos seus próprios problemas, observando que cometeram o erro de recorrer ao chamado mercado “spot” (livre): “Como resultado, os preços do gás explodiram nos últimos meses; o combustível é raro e os reservatórios de gás não estão tão cheios, agora, como no ano passado. A demanda por gás, após o clímax da pandemia do coronavírus e a recuperação da economia global, aumentou significativamente. Muitas entregas foram feitas para a Ásia, onde os distribuidores de gás tinham preços ainda mais altos… E havia a alegação de que a Rússia iria intencionalmente manter as entregas de gás baixas e exercer pressão sobre o Ocidente. Para operar o Nord Stream 2, ainda é necessária a certificação das autoridades alemãs.” Ele acrescentou que uma das razões dos aumentos foi o “cancelamento de contratos de longo prazo” por parte dos europeus, “em favor de mais negócios na bolsa de mercadorias”.

Na verdade, para qualquer pessoa racional, caso do ministro-presidente da Saxônia, Michael Kretschmer, a Rússia é “parte da solução para o problema energético e não a causa. Precisamos da Rússia, especialmente no contexto da concorrência global em matéria de segurança  energética. O Nord Stream 2 e os contratos de fornecimento de longo prazo podem nos ajudar a prevenir crises de energia no futuro”. Ele qualificou a Rússia como um “parceiro confiável que está em total conformidade com os contratos” e sublinhou ainda que os “grandes importadores de gás natural alemães me confirmaram que os contratos de fornecimento de fornecedores russos estão sendo cumpridos”.

Da mesma forma, em um artigo no diário econômico alemão Handelsblatt, o ex-chanceler Gerhard Schröder rejeitou a ideia de se olhar para a Rússia “como uma imagem inimiga em uma guerra fria de gás”. Como presidente administrativo da empresa Nord Stream e da petrolífera russa Rosneft, ele afirmou que, apesar dos objetivos climáticos traçados para o futuro, é necessário um período de transição de pelo menos três décadas, “no qual precisaremos de mais recursos de energia fóssil, como o gás natural”.

A ousada Agenda 2030 de Macron

Em função de tais acontecimentos, é bastante oportuno estudar mais a fundo o discurso proferido pelo presidente francês Emmanuel Macron, em 12 de outubro, a uma plateia de industriais, pesquisadores, estudantes, cientistas e funcionários públicos, para apresentar o seu Plano França 2030, o qual engloba uma visão ambiciosa e perspicaz sobre o futuro do país, sem deixar de observar as debilidades e deficiências do sistema e da indústria franceses. Entre a imprensa alemã, o discurso foi recebido com ceticismo, em grande medida, pelo fato de a Alemanha ter tomado a decisão fatal de se “desvincular” totalmente da energia nuclear, em oposição à vizinha França, que tem 58 reatores nucleares e pretende se tornar líder em energia nuclear na Europa.

No início do discurso, Macron destacou os principais desafios enfrentados pelo planeta: desafios climáticos e ambientais, que nos obrigam a pensar em novas formas de produzir energia; declínio demográfico, em que nossas sociedades se confrontam com o envelhecimento da população, a queda nas taxas de natalidade e as migrações; o desafio da desigualdade e a aceleração das tecnologias digitais, que aprofundam as divisões na sociedade.

Segundo ele, “os choques geopolíticos e antropológicos e as pandemias expuseram as nossas vulnerabilidades, como a dependência de países estrangeiros (um exemplo, durante a pandemia, foi a questão das máscaras e da vacinação). Por isso, devemos aprender a lição de que precisamos reconstruir a nossa independência produtiva e produzir em âmbito europeu o que precisaremos hoje e amanhã. Devemos ter um modelo educacional e social”. E outra lição aprendida com a pandemia foi uma “extraordinária aceleração de inovações, como as vacinas. Assim, a inovação é a solução para se viver uma vida melhor, para fazer planos para a nação, para o continente e para o mundo e para encontrar soluções que sejam boas para a humanidade”.

Macron sugeriu que, diante dos desafios, “precisamos ter uma estratégia macroeconômica de inovação industrial, que permita produzir esses resultados. Bem como transformar o nosso sistema de ensino, para ter mais sucesso no ensino superior, na formação de aprendizes e profissionais, bem como garantir emprego e seguro-desemprego. A França se tornou o país mais atraente da Europa. Não apenas tem recriado empregos nos últimos dois anos, mas também começou a reinvestir em pesquisa e no ensino superior, ao mesmo tempo que uma nova ênfase foi dada à redefinição de soberania”.

Inovações industriais e tecnológicas estão interligadas, enfatizou o presidente, ao afirmar que a “inovação criativa pela destruição” mostra uma saída para o que se entende como contraste entre a pesquisa básica, pesquisa incremental e tecnológica e industrialização massiva: “O nosso país vai se reindustrializar com a ajuda de start-ups tecnológicas que se chamam ‘Deep Tech’. Não existe a França industrial contra a França das start-ups… devemos reinvestir numa estratégia de crescimento… e aumentar a capacidade de crescimento da economia francesa pela inovação, reindustrialização e a política de produção de riquezas.”

Ele anunciou que “a estratégia para 2030 nos levará ao ponto em que teremos que investir 30 bilhões de euros… A chave de tudo isso é a nossa independência e capacidade de retomar o destino da França e da Europa nas nossas mãos. O que caracteriza os franceses é a mensagem ao mundo para defender uma forma de humanismo que sempre escolhemos: a liberdade, o esclarecimento, os direitos humanos. Mostramos resistência contra as loucuras do mundo – mesmo quando pareciam ser dominantes”.

O presidente prosseguiu: “Acreditamos no progresso científico e racional. Achamos que deve estar a serviço da humanidade. Portanto, a meta para a França 2030 é: produzir melhor e viver melhor, ter uma melhor compreensão do mundo, ao mesmo tempo que serve o humanismo francês e europeu… Se nós, franceses e europeus, queremos vencer essa batalha, que é uma batalha pela independência e por uma melhor qualidade de vida, devemos construir o humanismo do século XXI… Devemos produzir melhor e emitir menos carbono, respeitar mais a biodiversidade e tornar-nos neutros em carbono até 2050. Este é o nosso objetivo. Nossos objetivos concretos para 2030 apontam para uma série de revoluções na produção da indústria.”

A “estratégia 2030” de Macron inclui três itens-chave: 1) o desenvolvimento de “reatores nucleares pequenos e inovadores, com uma melhor gestão dos resíduos radioativos”, lembrando o papel único da França na área nuclear, com 200 mil pessoas empregadas no setor; 2) o desenvolvimento da tecnologia de “hidrogênio verde” por meio de eletrólise, com base em energias renováveis; o plano inclui a construção de duas grandes fábricas de hidrogênio verde até 2030; 3) a “descarbonização” da indústria francesa, com a redução de 35% das emissões de CO2 no setor até 2030.

Quanto a este último item, Macron vê uma oportunidade para a França, que assumirá a presidência da UE no primeiro semestre de 2022, na aceleração da descarbonização das indústrias siderúrgica, cimenteira e química. E anunciou “mais de € 8 bilhões em investimentos para concretizar esse objetivo e para financiar uma nova combinação de eletricidade e inovação”.

Além disso, Macron propôs medidas no setor de transportes (2 milhões de carros elétricos e híbridos nos próximos dois anos), bem como um ambicioso programa de investimentos em produção alimentar sustentável, que deve ser acompanhada por uma revolução agrícola fomentada pela robótica e engenharia genética. Seu plano também inclui mais investimentos no setor de saúde. “No país de [o ministro da Fazenda do rei Luíx XIV] Jean-Baptiste Colbert, dos manufatureiros e de [o escritor André] Malraux, são necessários investimentos maciços em educação e cultura”, enfatizou. E falou sobre a necessidade de se os franceses se envolverem em “aventuras intelectuais e científicas no espaço e em expedições marítimas no fundo do mar”, ressaltando que a França é a segunda potência naval do mundo e acaba de criar um novo comando espacial nas Forças Armadas.

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