A crise afegã e o papel da Rússia e da China

Um artigo publicado no jornal South China Morning Post (27/08/2021) descreve os próximos exercícios militares antiterrorismo conjuntos russo-chineses sob a bandeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), em meio às preocupações crescentes com os problemas de segurança na Ásia Central, após a saída dos Estados Unidos do Afeganistão. O texto enfatiza que “Pequim e Moscou são impulsionadas pela rivalidade compartilhada com os EUA e pelas preocupações com os efeitos da crise afegã, agora agravada pelos bombardeios do EI-K [Estado Islâmico-Khorasan] em Cabul”.

De 11 a 25 de setembro, sob a liderança dos dois países, militares de todos os demais membros da OCX – Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão – participarão dos exercícios na região de Orenburg, Sudoeste da Rússia, em uma demonstração da evidente preocupação de todos eles com a segurança regional, em função do novo cenário afegão.

No início de agosto, forças chinesas e russas já haviam participado de um exercício de cinco dias no Noroeste da China e se enfrentaram nos Jogos Internacionais de Exércitos promovidos pela Rússia. A reportagem do SCMP cita Eagle Yin, pesquisador da Fundação China para Estudos Internacionais e Estratégicos de Pequim, para quem: “Os atentados suicidas no aeroporto de Cabul podem prenunciar uma guerra civil no Afeganistão, aumentando as preocupações de todos os países vizinhos. A China, Rússia e os outros países da Ásia Central temem que a situação instável no Afeganistão possa se tornar um santuário para todas as forças extremistas, que compartilham valores políticos e religiosos comuns… A OCX é uma boa plataforma para reunir todos os países sob a liderança da China e da Rússia, para chegar a medidas úteis para combater ataques terroristas. A cúpula anual dos líderes da OCX, na capital tajique Dushanbe, no próximo mês, seria uma ocasião importante para esses países chegarem a um consenso e buscarem uma saída para a crise afegã.”

Além disso, a China se prepara para sediar o seu primeiro exercício multinacional de paz com fogo real, a partir de 6 de setembro, denominado “Destino Compartilhado 2021”. Além de unidades do Exército de Libertação Popular (ELP), militares do Paquistão, Mongólia e Tailândia participarão dos exercícios de dez dias, na província de Henan.

Esforços diplomáticos chineses no Oriente Médio

Durante as últimas semanas e meses, a China intensificou os esforços diplomáticos no Oriente Médio, incluindo uma aproximação com o Irã, ator-chave na região, que já abrigou 3 milhões de refugiados afegãos (780 mil registrados e 2,5 milhões não registrados, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – EH).

Em 18 de agosto, uma primeira conversa telefônica ocorreu entre o novo presidente iraniano, Ebrahim Raisi, e o presidente chinês Xi Jinping. Ambos os líderes concordaram sobre a necessidade de trabalharem juntos pela estabilidade no Afeganistão, que tem fronteiras com os dois países. A nota oficial de Pequim afirmou que trabalhará com Teerã em “interesses comuns e segurança regional”, enquanto Raisi ressaltou a cooperação para o estabelecimento de estabilidade de segurança e paz no Afeganistão. Recorde-se que, em março último, os dois países assinaram um programa de cooperação bilateral de 25 anos, com a previsão de investimentos de 400 bilhões de dólares em vários setores, como telecomunicações, ferrovias, portos e saúde, em troca de petróleo iraniano.

Em julho, o chanceler chinês Wang Yi visitou a Síria. Na ocasião, ele se encontrou com o presidente sírio Bashar al-Assad e apresentou uma iniciativa para resolver a crise no país árabe. Por que essa visita agora? – questionou um artigo recente na EPCnewsletter política semanal publicada nos Emirados Árabes Unidos. O autor interpreta que o movimento de Pequim coincidiria com a retirada dos EUA do Afeganistão, reflexo de um declínio no interesse dos EUA no Oriente Médio e seus planos de retirada do Iraque, bem como das armas estratégicas estacionadas nos Estados do Golfo.

De acordo com o artigo, a iniciativa chinesa se baseia em quatro pontos principais:

* A soberania nacional e a integridade territorial da Síria devem ser respeitadas; no entanto, este princípio entra em conflito com a presença do Irã e da Turquia, aliados e parceiros econômicos da China na Síria.

* O bem-estar do povo sírio deve ser priorizado e o processo de reconstrução deve ser acelerado.

* Deve ser mantida uma posição firme na luta contra o terrorismo. Todas as organizações terroristas listadas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas devem ser reprimidas e os padrões duplos devem ser rejeitados.

* Deve ser promovida uma solução política inclusiva e reconciliadora para a questão síria.

O artigo enfatiza que o regime sírio, isolado internacionalmente, tem interesse em um forte aliado, econômica e militarmente, capaz de criar uma situação de competição que Assad possa utilizar para amenizar a influência russa sobre ele. O ministro chinês ofereceu incluir a Síria na Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) e, de acordo com fontes próximas ao regime sírio, “os chineses propuseram um conjunto de projetos que podem ser implementados sob a égide da iniciativa, na área de transporte, como uma ligação ferroviária entre o porto de Tartus e a fronteira com o Iraque e a construção de uma rodovia ligando o sul e o norte do paí. Os projetos propostos também incluem a geração de eletricidade e o estabelecimento de zonas francas chinesas na Síria, com foco na dimensão regional desses projetos alinhados com a ICR.

Ademais, afirma o texto, o principal interesse da China na Síria está na sua situação geográfica, o que daria à ICR um acesso ao Mediterrâneo Oriental.

Mas há também motivações políticas estratégicas relacionadas ao desejo da China de transmitir um recado aos EUA, no sentido de ser capaz de preencher o vazio após a retirada dos EUA do Afeganistão e do Iraque. E há razões de segurança, relacionadas à presença de combatentes uigures (da província de Xinjiang) na Síria, que podem representar uma ameaça potencial à segurança chinesa, ao retornarem da Síria. Os chineses também acreditam que a remoção do Movimento Islâmico do Turquestão da lista de organizações terroristas dos EUA foi uma ação direcionada contra eles, com o intuito de criar problemas na região noroeste de Xinjiang. Por esta razão, os EUA estão defendendo os uigures como uma “minoria religiosa perseguida”. Diz o texto: “A China teme que os Estados Unidos tenham planos de empregar o Movimento Islâmico do Turquestão e seus combatentes, que adquiriram ampla experiência de combate na Síria, para realizar operações militares em solo chinês, usando o Afeganistão como base de operações, após a retirada das forças estadunidenses, especialmente, porque o partido uigur recebe apoio de grupos islâmicos afegãos.”

Objetivos econômicos da China

Em uma conversa com esta autora sobre os efeitos da atual crise do Afeganistão, um estrategista que preferiu não se identificar observou que a China e a Rússia são particularmente afetadas pela crise e seus potenciais efeitos colaterais na região. Segundo ele, a China, com seus mais de 5 mil anos de história e uma matriz não-religiosa particular, se percebe como um “Império do Meio”. Ao longo da História, os chineses nunca agiram de forma expansionista, mas sempre seguiram um plano econômico cuidadosamente elaborado, semelhante ao sistema de livre comércio britânico. Evidentemente, há uma aproximação entre a Rússia e a China e, sobre a Rússia, ele afirmou que a Rússia tem desenvolvido excelentes tecnologias militares avançadas, mas sem desdobramentos significativos no setor industrial civil. E observou, ainda, que as relações entre o Cazaquistão, o Uzbequistão e o Tajiquistão são difíceis e que a OCX não seria tão eficaz, enquanto a presença militar na Síria está se tornando bastante custosa para a Rússia.

De acordo com Anastasia Stepanova, da Câmara Russo-Chinesa de Máquinas, Tecnologias e Inovações, a economia chinesa tem crescido constantemente: “A China ocupa o segundo lugar em termos de PIB [Produto Interno Bruto] nominal, atrás apenas dos Estados Unidos. Desde o início da década de 2000, o PIB da China aumentou 12 vezes… Igualmente, a China está liderando em termos de produção industrial. As suas empresas, como Alibaba e Tencent, estão entre as 10 maiores do mundo em termos de capitalização. O seu valor de mercado se aproxima de US$ 1 trilhão cada. Outras empresas, como Baidu, Xiaomi, Huawei, Lenovo e muitas outras, também estão desenvolvendo ativamente (Valdai Newsletter 11/08/2021).”

Ela acrescentou que as relações entre a Rússia e a China atingiram recentemente um novo pico. Em julho, os dois países celebraram o 20º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável, assinado em 2001 entre os presidentes Vladimir Putin e Jiang Zemin. O comércio bilateral ultrapassou US$ 100 bilhões em 2018 e há planos para duplicá-lo até 2024. “O aumento nas exportações mútuas ajudará a Rússia e a China a fortalecer ainda mais a cooperação política, mas também econômica. Para ambos os países, a expansão das liquidações em moedas nacionais desempenha um papel importante no processo”, afirmou.

Em função da celebração do centésimo aniversário do Partido Comunista Chinês (PCC), em julho, Stepanova enfatizou que a agenda do renascimento da nação chinesa consiste em três etapas: “O primeiro estágio é o wenbao, a ‘ausência de fome e pobreza’; o segundo é o xiaokang, a ‘construção de uma sociedade de renda média’; e o terceiro é o datong, a sociedade ideal de ‘grande harmonia’. No Quinto Plenário do 19º Comitê Central do PCC, realizado em Pequim em outubro de 2020, o Plenário discutiu o 14º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconômico Nacional da China (2021-2025) e as metas de longo prazo para 2035. Muita atenção foi dada, no discurso do presidente chinês Xi Jinping, sobre a necessidade de se alcançar uma ‘modernização socialista’ da China até 2035, incluindo o desenvolvimento da industrialização, bem como a questão do desenvolvimento verde e da ecologia; aprofundar as reformas e a abertura no campo da concorrência; reformas de direitos de propriedade e distribuição orientada para o mercado. Atenção especial também foi dada ao desenvolvimento de pesquisa e desenvolvimento na área de moedas digitais. Estão sendo implementados centros de pesquisas e é dado apoio a Pequim, Xangai e Grande Baía, Guangdong, Hong Kong e Macau, na criação de um centro internacional de inovação científica e tecnológica.” De acordo com Stepanova, “há um grande potencial no campo da ciência fundamental e da pesquisa aplicada entre a Rússia e a China”.

Sobre a ICR, Stepanova observou que a iniciativa, classificada na China como o “Projeto do Século”, abrange 78 países e visa a construir rotas comerciais entre a China e a Rússia, Ásia Central, Europa e os países costeiros da região Indo-Pacífico, com uma malha de rodovias, ferrovias, dutos, linhas de transmissão, portos e outros projetos de infraestrutura. Para ela, o objetivo da ICR “não é apenas estimular o desenvolvimento das regiões orientais da China, mas também fortalecer significativamente os laços econômicos com os países vizinhos, o que contribuirá para a estabilidade da Eurásia. Nesse contexto, o desenvolvimento das relações russo-chinesas na região da Eurásia tem grande potencial para vincular a ICR com a União Econômica Eurasiática e a Grande Parceria da Eurásia”.

CSM: uma visão míope sobre a China

A profunda lacuna de percepção estratégica prevalecente entre o Ocidente e a China foi evidenciada em um relatório divulgado em julho pela Conferência de Segurança de Munique (CSM). Intitulado “Cuidado com o vão: prioridades para a política transatlântica para a China”, em lugar de propor uma cooperação econômica e científica construtiva, o relatório enfatiza a importância da “competição geopolítica e contenção” da China pelo Ocidente. O documento, editado pelo presidente do CSM, o ex-diplomata alemão Wolfgang Ischinger e o geopolítico estadunidense Joseph Nye, Jr., foi escrito por um grupo de 19 membros dos chamados exercícios sobre política transatlântica da China, incluindo o notório difamador profissional da China, o eurodeputado “verde” alemão Reinhard Bütikofer.

Em essência, o relatório descreve um “plano para medidas competitivas, incluindo como fornecer alternativas [contra a ICR] em infraestrutura e conectividade, bem como preservar a sociedade liberal e promover os direitos humanos”. O texto exorta os EUA, Canadá e UE a agirem em conjunto, de modo a neutralizarem “a crescente influência chinesa”, e refere-se explicitamente aos comunicados das recentes cúpulas do G-7, Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e UE, que descreveram a China como “o mais ameaçador conflito geoestratégico do futuro”. Segundo a introdução do documento, “um desafio principal que emana da China está nas áreas de tecnologia, comércio e investimentos – e o tecnonacionalismo neomercantilista e a não convergência sustentada da China, que minam a economia de livre mercado e o sistema global de governança econômica”. O relatório enfatiza que, em março de 2021, pela primeira vez desde 1989, e em coordenação com os EUA e o Canadá, a UE impôs sanções de direitos humanos contra a China por abusos em Xinjiang, afirmando que “cada vez mais parceiros transatlânticos percebem o PCC como engajado em agressões aos valores e às normas liberais, bem como aos direitos humanos, ameaçando os seus interesses centrais”. No entanto, o relatório também observa cuidadosamente que há uma lacuna entre as percepções estadunidense e europeia sobre a ameaça da China, identificando a Europa como sendo mais “relutante” em confrontá-la, em especial, na área econômica.

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