50 anos da Apollo 11: hora do “Imperativo Extraterrestre”

No sábado 20 de julho, completa-se meio século da missão Apollo 11 da NASA (Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço), que protagonizou a primeira de seis missões tripuladas que desceram na Lua, entre 1969 e 1972.

Em um evento comemorativo realizado em Cocoa Beach, Flórida, em 17 de julho, a pouca distância do Centro Espacial Kennedy, a base de lançamentos da NASA, três veteranos do Projeto Apollo transmitiram o significado mais profundo da corrida espacial travada na época entre os EUA e a União Soviética. Para eles, é preciso um novo e audacioso desafio na exploração espacial, não só para promover a prosperidade dos EUA, mas também para unir a humanidade em um objetivo comum.

Para Russell Schweickart, piloto do módulo lunar na missão preparatória Apollo 9, as missões Apollo se caracterizavam “pelo sentido de que nós devíamos ir lá, que não eram só os Estados Unidos – era universal”. Por isso, disse, “me parece que o que se necessita realmente é fazer algo aproximado ao que fez a Apollo 11, você tem que ter um grande objetivo. Não pode ser um passo incremental. Tem que ser alguma coisa que impacte bem profundamente a psique humana (Moon Daily, 17/07/2019)”.

Charlie Duke, da missão Apollo 16, afirmou que somente empreitadas espaciais audaciosas podem unir o planeta em um sentimento de realização, observando que o Projeto Apollo empregou 400 mil pessoas e estimulou o desenvolvimento de tecnologias em numerosas áreas. “Eu penso na exploração do espaço como o Cristóvão Colombo do futuro”, disse ele.

Duke não disse, mas estima-se que cada dólar investido no Projeto Apollo, cujo custo atualizado foi de 220 bilhões de dólares, tenha gerado outros 14 dólares em subprodutos na economia estadunidense.

Também presente ao encontro, Michael Collins, piloto do módulo de comando da Apollo 11 (que permaneceu em órbita lunar), expressou o desejo de boa parte da comunidade espacial estadunidense, de que a próxima missão tripulada do país tivesse como objetivo Marte, em lugar da Lua. “Eu digo vão a Marte, JFK direto, talvez expresso”, afirmou, citando a decisão do então presidente John F. Kennedy, em 1961, de levar o homem à Lua antes do final da década.

As considerações desses pioneiros remetem a uma questão existencial para uma humanidade inserida em uma ordem universal inteligível e um sentido final para o processo evolucionário que resultou no Homo sapiens: a extensão da trajetória humana ao espaço cósmico representa o nosso destino e missão como espécie.

Essa poderosa ideia foi expressada de forma brilhante por Krafft Ehricke, engenheiro aeronáutico alemão que foi um dos principais colaboradores de Wernher von Braun, o grande líder científico do Projeto Apollo (ambos foram para os EUA após a II Guerra Mundial, como parte da chamada Operação Clipe, história para ser contada em outra oportunidade). Para ele, a humanidade tem um “Imperativo extraterrestre”. Em um artigo escrito em 1957, ano em que a corrida espacial entre os EUA e a URSS foi deflagrada, com o lançamento do satélite Sputnik-1 e quatro anos antes do início do Projeto Apolo, escreveu:

(…) A ideia de viajar a outros corpos celestes reflete no nível mais alto a independência e agilidade da mente humana. Ela empresa uma dignidade última às façanhas técnicas e científicas do homem. Acima de tudo, ela toca a filosofia da sua própria existência. Como resultado, o conceito de viagem espacial desconsidera fronteiras nacionais, recusa-se a reconhecer as diferenças de origem histórica ou etnológica e penetra na fibra de um credo sociológico ou político tão rapidamente como na de outro.

Segundo Ehricke, “ao se expandir pelo universo, o homem cumpre o seu destino como um elemento da vida, dotado do poder da razão e da sabedoria da lei moral em si próprio”.

Tal era a motivação que impulsionava aqueles pioneiros e, em grande medida, as centenas de milhares de profissionais de todas as áreas que trabalharam nos programas espaciais das duas superpotências, independentemente do fato de que a corrida espacial das décadas de 1950-60 tenha se dado no contexto da Guerra Fria. Esse mesmo vetor para o espaço – e o futuro – era também compartilhado por grande parte da população mundial, que via na conquista do espaço o prolongamento lógico e necessário do impulso otimista ensejado pela reconstrução econômica do pós-guerra, que proporcionou à humanidade como um todo as três décadas de maior desenvolvimento socioconômico da História.

Por uma amarga ironia, as missões Apollo assinalaram o ápice daquele impulso e daquela visão otimista do homem no universo, que seria substituída nas décadas seguintes pelo pessimismo antitecnológico gerado pela chamada contracultura e pelo movimento ambientalista internacional, ambos, criações artificiais de centros de poder hegemônicos, para os quais a perspectiva do progresso conjunto da humanidade representa um autêntico anátema. O cancelamento do Projeto Apollo após a missão Apollo 17, em 1972, sinalizou a descontinuidade de uma estratégia cujo prolongamento previa um pouso em Marte ainda na década de 1980.

Juntamente com o pessimismo induzido pela contracultura e o ambientalismo, a “lógica” da Guerra Fria prevaleceu sobre a conquista do espaço, desviando e desperdiçando com finalidades estritamente militares uma pletora de recursos humanos, físicos e econômicos, que poderiam ter dado outra feição aos esforços espaciais e ao seu impacto para a humanidade em geral.

O próprio Kennedy já tinha a intenção de transformar a corrida espacial em um elemento de cooperação com a URSS, como explicitou em um discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de setembro de 1963. Embora as lideranças soviéticas tenham inicialmente recebido com desconfiança a proposta (igualmente rechaçada por diversos setores do Establishment estadunidense), o premier Nikita Khruschov mudou a sua posição em novembro daquele ano, depois que Kennedy reiterou a oferta. Porém, o assassinato do presidente, em 22 de novembro, acabou com a possibilidade da missão conjunta, pois seu sucessor, Lyndon Johnson, se mostrou muito mais suscetível aos interesses do Establishment, que não tencionavam dar um novo rumo à Guerra Fria ou até mesmo encerrá-la. Do lado soviético, o próprio Khruschov, que havia desenvolvido uma espécie de relação especial com Kennedy, não resistiria à dinâmica prevalecente e acabou deposto, em outubro de 1964.

Hoje, parece claro que as etapas seguintes da epopeia espacial da humanidade terão que ser vencidas em conjunto, e não mais apenas por esforços nacionais individuais ou, mesmo, por consórcios de empresas privadas. Em uma entrevista publicada no sítio alemão Spiegel Online, em 9 de julho de 2009, durante as celebrações do 40º aniversário da missão Apollo 11, o então administrador de programas da Estação Espacial Internacional, Jesco von Puttkamer, um veterano integrante da equipe montada por von Braun na NASA, afirmou:

(…) A era do vamos sozinhos acabou. O Projeto Apollo ocorreu durante a Guerra Fria, quando estávamos envolvidos numa corrida dramática com os soviéticos. Mas muita coisa mudou desde então. Nós deixamos de lado aquela maneira de pensar competitiva e todo mundo está convidado a tomar parte em missões futuras. Isso já funciona assim na Estação Espacial Internacional, onde 16 países trabalham juntos de uma maneira exemplar. Nós criamos uma espécie de Nações Unidas no espaço. (…)

Marte é o planeta do nosso destino. Existe a bem fundada esperança de que possamos encontrar traços de vida extraterrestre por lá, mesmo que sejam apenas micróbios fossilizados… Mas a coisa mais importante é o fato de que, um dia, as pessoas colocarão os pés em Marte e o povoarão. O planeta deserto vermelho Marte… pode se tornar um Marte verde, por meio da assim chamada terraforming [expressão ainda sem equivalente em português] – em outras palavras, a transformação ativa do seu ambiente. Se isto for bem-sucedido, a humanidade terá criado para si própria um segundo lar, para o caso de um impacto de asteroide ou outra grande catástrofe varrer a vida na Terra. Somente tendo Marte como um planeta de reserva a raça humana se tornará realmente imortal.

Embora possa parecer ficção científica a muitos, cientistas estadunidenses, russos e de outros países já se dedicam ativamente a estudos para a conversão do ambiente marciano em um que possibilite a habitação permanente do planeta por seres humanos.

Por coincidência, em 20 de julho de 2009, anunciou-se a descoberta de uma mancha do tamanho da Terra em Júpiter, provavelmente causada pelo impacto de um corpo celeste contra o planeta. Da mesma forma, em julho de 1994, por ocasião do 25º. aniversário do pouso lunar, ocorreu o choque do cometa Shoemaker-Levy 9 contra Júpiter.

Edwin “Buzz” Aldrin, o segundo homem a descer na Lua, minutos depois do comandante da Apollo 11, Neil Armstrong (falecido em 2012), tem enfatizado que uma viagem tripulada a Marte pode desempenhar para a humanidade o mesmo papel que a antiga corrida espacial, o de estabelecer uma meta para as gerações mais jovens, que necessitam de tais objetivos. De fato, a conquista espacial como processo pode ser um poderoso catalisador para uma nova atitude de cooperação internacional, que é imprescindível para o enfrentamento dos grandes problemas com que a humanidade se defronta neste turbulento século XXI.

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