Sistema elétrico: advertências de Roberto D’Araújo

Em meio às acirradas discussões sobre as vulnerabilidades do sistema elétrico brasileiro, o engenheiro Roberto Pereira D’Araújo, fundador do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina) e um dos maiores especialistas brasileiros na área, é sempre uma importante voz a ser ouvida. Autor do livro Setor elétrico brasileiro: uma aventura mercantil (Confea, 2009), tem sido um dos mais consistentes críticos do modelo de “comoditização” da energia adotado no País a partir da década de 1990, cujas contradições têm resultado no acúmulo de problemas que ameaça resultar em novas restrições de consumo e, in extremis, na eventual necessidade de um novo racionamento de eletricidade. Em um artigo e uma entrevista recentes, ele oferece oportunos esclarecimentos sobre o dilema energético nacional.

No artigo, intitulado “Uma carta de São Pedro”, publicado no Valor Econômico de 25 de janeiro último, o especialista recorre ao apóstolo para fazer as perguntas pertinentes sobre o cenário energético:

Aliás, andei conversando com um grupo de famosos cuja opinião vocês devem considerar. Os doutores Ampére, Hertz, Faraday, Maxwell, Edison e outros opinaram sobre o caso. Todos foram unânimes em dizer que ficaram preocupados como vocês complicaram e encareceram um sistema relativamente simples. Afinal, essa é uma tecnologia do início do seu século passado. (…)

As chuvas, que vocês candidamente acham que eu controlo, alimentam os rios e fornecem a energia natural para que as usinas produzam os quilowatts que vocês necessitam… Em média, com suas usinas de 2012, eu geralmente entrego por volta de 500 TWh [terawatts.hora] na soma das quatro regiões. Nada mal se comparado ao consumo de 513 TWh de vocês. Afinal, vocês têm outras fontes de energia. Em 2012, ao contrário do que as autoridades do seu governo dizem, por motivos que não posso controlar, só entreguei 436 TWh, 13% abaixo da média. Pelas rezas que recebo, até parece uma grande desgraça, mas valores nesse entorno já ocorreram em mais de 10% dos anos que constam nos seus registros. (…)

Didaticamente, o “Santo Apóstolo” informa que apenas 36% do histórico da energia dos rios ficaram abaixo da média, o que significa que 64% ficaram acima da média; e que, a cada cinco anos, um tem água igual ou maior que 20% da média. “A pergunta que tenho é: quem está se aproveitando dessas ‘dádivas’? Como é que vocês democratizam essa energia extra?” – questiona. E prossegue:

Eu nem deveria me intrometer para assessorar, mas, como sou santo, talvez vocês estejam sendo perdulários com a água estocada. A geração das hidráulicas (pouco mais de 70% das usinas), sempre muito alta, está muito estranha. A maior fonte são as hidráulicas? Claro! Elas são mais baratas, e parte dessa energia é da substituição pelas térmicas, que ficam como seguro? Mas, como é feita essa “transferência”? Quem pode “comprar energia na safra”? Como a tarifa é tão alta se quase todos os quilowatts vêm da água? Nem santo entende esse modelo!

Posteriormente, em entrevista ao Monitor Mercantil de 2 de fevereiro, D’Araújo fala mais diretamente sobre os problemas do sistema, ressaltados pela percepção do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. Para ele, o principal risco não é a variação no regime de chuvas, mas os desequilíbrios resultantes de um modelo pensado primordialmente para atender ao “interesse do grande capital”, com menos ênfase no planejamento estratégico do setor:

Acho que, fora o que está ocorrendo agora, na minha opinião, um problema de modelo de planejamento que não combina com o modelo de operação, sinceramente, acho que o Brasil não vai enfrentar problemas de oferta. O problema é: a que custo? Como ficará o setor com as estatais fragilizadas? Quem vai entrar de parceiro com os privados para viabilizar projetos que, sem a entrada de sócios institucionais, não saem?

Na introdução da matéria, o jornalista Rogério Lessa lembra que, segundo o site Contas Abertas, o Grupo Eletrobrás (composto por 19 empresas) deixou de investir 30,9% do orçamento de R$ 8,5 bilhões previstos o ano passado, o menor volume de investimentos da companhia nos últimos quatro anos.

Quanto ao aumento das tarifas verificado ao longo da última década, D’Araújo foi categórico:

A tarifa de energia, que só explodiu sob a gestão da ministra [Dilma Rousseff, que ocupou a pasta de Minas e Energia entre 2003 e 2005 – n.e.], mostra que há erros óbvios. Nada foi feito, então, porque o mercado livre, para o qual foi a grande indústria, era irrigado com energia quase gratuita das estatais. (…)

Sobre os apagões que o País tem experimentado, ele afirma que o problema maior não é a interrupção do fornecimento em si, mas a grande demora no seu restabelecimento:

(…) O problema não é a interrupção, mas, sim, o tempo de recomposição do suprimento, que tem sido muito longo. Se o defeito é originado nas distribuidoras, pode começar com um simples curto e se espalhar por falhas no sistema de proteção que falha em “ilhar” o defeito. “Apaguinhos” das distribuidoras duram muito tempo em função da filosofia de manutenção dessas empresas, que insistem em terceirizar esse tipo de serviço. Rotatividade e diversidade de empresas fazem com que os profissionais não se especializem nas áreas a que atendem. Na transmissão, falta a modernização de subestações, nas quais estão conectadas linhas de proprietários diferentes, o que complica as manobras, nem todas automatizadas.

Sobre os impactos ambientais da geração elétrica, o especialista afirmou:

Não existe fonte energética inocente no meio ambiente. Algumas atingem alguns aspectos e outras se chocam com outros. Mesmo a decantada eólica ocupa extensas áreas, mata aves migratórias e não são agradáveis de se conviver em função do ruído. A única decisão coerente com a agenda ambiental é procurar eliminar a ineficiência do sistema. Perdas da ordem de 20% na distribuição são inaceitáveis. Eletrodomésticos ineficientes continuam sendo produzidos e só ganham uma letra D. Como são mais baratos, continuam nas tomadas. Adaptadores se multiplicam aos milhões para atender a uma mudança de padrão feita da noite para o dia sem um estudo de compatibilidade com o que já existe. Fizeram a alegria da indústria elétrica, que ganha bilhões com mais essa trapalhada.

D’Araújo insiste em que a discussão da matriz energética deveria começar pela política industrial. Todavia, lamenta, “no atual governo, a indústria de commodities parece estar no comando”.

Resta saber até quando as lideranças nacionais, em especial, no governo federal, continuarão ignorando advertências como essas, mantendo o País no caminho da “reprimarização” da economia nacional – e afastando-o do pleno desenvolvimento das suas enormes potencialidades.

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