Sinal verde para reator nuclear multipropósito

No último dia 5 de maio, foi assinado, na sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), no Rio de Janeiro, o contrato entre a Rede de Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro (REDETEC) e a empresa tecnológica argentina INVAP, dando a largada para a construção do reator nuclear multipropósito brasileiro, conhecido pela sigla RMB. O contrato se deu no âmbito dos acordos de cooperação binacional para o desenvolvimento de usos pacíficos da energia nuclear, firmados por Christina Kischner e Luis Inácio Lula da Silva, em fevereiro de 2008. O contrato, com prazo de 12 meses e valor de R$ 24,7 milhões, refere-se à elaboração do projeto básico dos itens e sistemas nucleares do reator. Os recursos serão garantidos pelo convênio entre a Agência Brasileira de Inovação (FINEP), a REDETEC e a CNEN. (DefesaNet, 7/05/2013).

Trata-se de um passo importante do projeto RMB, estabelecido como meta do Plano de Ação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2007, com um orçamento total de R$ 500 milhões. O equipamento terá múltiplas finalidades, incluindo a produção de radioisótopos para uso na medicina nuclear (para aplicação em exames e tratamentos para diversos tipos de câncer), além de pesquisas com produção de energia nuclear, na agricultura, indústria, desenvolvimento de materiais e meio ambiente (Agência O Globo, 7/02/2013).

O Brasil possui atualmente quatro reatores de pesquisa em operação, que atendem apenas a uma fração da produção nacional de radioisótopos, sendo o principal o reator IEA-R1, instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), em São Paulo (SP). Anualmente, são realizados cerca de 1,5 milhão de procedimentos com radiofármacos, sendo que mais de 80% empregam o tecnécio-99, um radioisótipo derivado do molibdênio-99, que não é produzido pelos reatores brasileiros.

Além do gasto de divisas, o problema da dependência com relação à importação de radioisótopos ficou evidenciado em 2009, quando o reator canadense que é o principal fornecedor do Brasil teve uma paralisação não programada, ao mesmo tempo em que os reatores da Bélgica e da Holanda também foram desligados. Ainda que o problema tenha sido amenizado, com a compra de excedentes da Argentina e da África do Sul, isto não foi suficiente para evitar a crise de abastecimento que atingiu a medicina nuclear naquele ano.

Com o RMB, o País ficará livre de problemas do gênero. A estimativa é que o reator proporcione uma economia de R$ 30 milhões anuais com a importação de radioisótopos, a qual será suficiente para pagar o investimento em 20 anos. Segundo o cronograma do projeto, o reator deverá ficar pronto em 2017 e terá uma vida útil de 50 anos.

Além de proporcionar a autonomia na produção de radioisótopos (o que incluirá o Brasil num seleto clube de países que inclui o Canadá, Argentina, África do Sul, Holanda, Bélgica e França), o RMB também permitirá grandes contribuições ao projeto do submarino nuclear nacional. Segundo o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da CNEN, José Augusto Perrotta,

o RMB terá uma grande aplicação social para o país… o seu fluxo de nêutrons de grande intensidade irá testar combustíveis e materiais usados nos reatores de geração de energia e de propulsão, dando segurança a esses projetos e garantindo a continuidade no desenvolvimento do conhecimento nuclear do país. Por fim, ele abrigará um laboratório de uso de feixe de nêutrons em pesquisas de materiais usados em diversos setores da economia em complemento ao Laboratório Nacional de Luz Síncroton.

Perrotta destacou ainda que, como o RMB será construído junto ao Centro Experimental Aramar da Marinha, em Iperó (SP), onde o protótipo do reator do submarino nuclear está sendo desenvolvido, o novo reator ajudará no desenvolvimento e teste de materiais e combustíveis que serão empregados no submarino. Por isso, a decisão de implementar o projeto do RMB se reveste da maior relevância para o País, demonstrando uma vontade política que precisa, urgentemente, ser estendida a outras áreas científicas e tecnológicas.

x

Check Also

A “revolta da ivermectina”: política adotada no enfrentamento da Covid-19 exige ensaio clínico urgente

Taciana Padilha de Castro e Denia Palmeira Fittipaldi Duarte* A pandemia da doença coronavírus 2019 ...